Crítica: espetáculo Divina Valéria traz os sentimentos para a margem em solo arrebatador

Alguns artistas quando entram em cartaz – mesmo que para uma curta temporada -, são como cometas: ficamos ansiosos para prestigiar o momento de suas performances e saímos totalmente deslumbrados com o que vimos. Assim é Divina Valéria. Uma artista que nos teletransporta diretamente para a era de ouro dos rádios, que faz-nos rememorar grandes composições do passado, nos remete à alta elegância e nos conecta novamente com a beleza e humanidade do mundo.

O espetáculo, que é uma homenagem a esta divina cantora e intérprete, tem direção de Ivam Cabral, filmagem de Henrique Mello e produção executiva de Dione Leal. Celebrando mais de 6 décadas da carreira de Valéria, que hoje está com 78 anos de idade, quem se sente presenteado, na verdade, é o próprio público com a voz arrebatadora e entrega desta artista ímpar.

Cantando repertórios de artistas extraordinários, Divina Valéria relembra histórias pessoais de amores do passado – às vezes correspondidos, às vezes não -, passeando por letras de grandes nomes da musica popular brasileira e também de artistas internacionais. Fazem parte do seu repertório grandes artistas como Gilberto Gil, Caetano, Sancha Distel e suas amigas Dalva de Oliveira, Édith Piaf, Elizeth Cardoso, entre outros.

Durante o show, a estrela do espetáculo é acompanhada ao som do piano tocado pelo esplêndido maestro Carlos Blauth que, de forma assertiva, define Divina Valéria como “uma forma de terapia em tempos difíceis, a beleza pela beleza”.

O público também é agraciado durante o espetáculo com belíssimos poemas de grandes escritores e escritoras sendo declamados por nomes como Leandra Leal, Patrícia Pillar, Sérgio Guizé, Thiago Mendonça, Maria Clara Spinelli e Cléo De Páris, que fazem participação especial durante os intervalos do primeiro show digital de Valéria, com roteiro de Alberto de Oliveira e Alberto Camarero, Os Albertos.

A travesti do povo brasileiro – assim mesmo que ela se define, viu? Divina Valéria até falou em planos futuros durante a estreia do espetáculo. Como pode, em pleno 2021, uma diva de altíssimo gabarito como ela, ainda não ter gravado nenhum disco? Infelizmente, por conta de uma herança LGBTfóbica neste país com tantas contradições, o preconceito acabou atrasando algumas conquistas na vida de Valéria, mas ainda há tempo, como ressalta Criolo em sua poesia. O público a provocou e agora nos resta aguardar os próximos capítulos da vida desta grande artista que já entrou para os anais da história do movimento LGBTQIA+ e da música brasileira. Divina Valéria é fumaça, é fogo, é um cometa que caiu na terra e trouxe mais luz para a humanidade. Atente-se.

* Luiz Vieira é ator e jornalista, tem 25 anos, natural de Carbonita – MG. Veio para São Paulo com o objetivo de ser artista e influenciador cultural, buscando sempre levar conhecimento e informação àqueles que não se encontram dentro de bolhas sociais privilegiadas. É diretor e curador do site www.responderfazendo.com e do perfil @responderfazendo

O ator e jornalista Luiz Vieira, do @responderfazendo, um dos 12 comunicadores convidados da Mostra Aldir Blanc na SP Escola de Teatro - Foto: Edson Lopes Jr.

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