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Olhares: O Estado nosso de cada dia

Publicado em: 17/11/2019

POR PAULO SCALABRIN, especial para a SP Escola de Teatro

“Estado de Emergência” aborda uma questão que tem nos afligido todos os dias no último ano: o medo do que está por vir. Encenada sexta (15), sábado (16) e domingo (17), a AutoPeça faz parte da programação do Satyrianas 2019, tradicional festival de cultura criado pela companhia Os Satyros, em São Paulo.

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Dentro de um veículo, um casal lésbico precisa tomar uma difícil decisão: ligar o carro e seguir em frente com a vida. Mas as notícias que chegam transformam o que parece ser um simples ato em um enorme obstáculo — ou melhor, uma barreira a ser transposta — ao suscitar que o mundo lá fora talvez seja mais opressor do que viver enclausurado entre portas e janelas. Fora do automóvel, cartazes cobrem todos os vidros e fazem alusão aos acontecimentos que nos surpreendem por todos os lados e, mais do que isso, nos impossibilitam de vislumbrar uma paisagem social que valha a pena ser vista.

A necessidade de transformar a própria vivência faz com que, em determinado momento, uma das personagens peça ao público que cole cartazes com imagens da natureza; dentre eles, um pôr-do-sol. Uma forma de trazer um pouco de beleza e esperança naquele cenário opressor. Enfim, a ilusão como uma fuga da realidade. 

A opressividade ganha reforço na iluminação opaca do interior do automóvel que mal clareia as duas personagens e remete à sensação de estarem ambas enclausuradas em um universo em que prevalece a dificuldade de enxergar uma saída. A luz também faz alusão a uma sala de tortura, interrogatório, como aquelas vistas em filmes e séries. Aqui, uma tortura psicológica que vitima ambas as protagonistas. Nesse sentido, os espectadores dispostos no banco de trás, apertados, impossibilitados de se moverem, também são impactados pela sensação de clausura, conferindo mais uma vez uma experiência diferenciada de relação do teatro com o seu público.

O texto de autoria de Afonso Jr. e Sandra Vilchez (que também está em cena) é objetivo e não faz rodeios em suscitar as feridas sociais. Começa in media res (em meio aos acontecimentos) como uma conversa pontuada por expressões de ansiedade e medo entre as protagonistas, trazendo à luz temas ligados à violência nas suas diferentes formas de manifestações — temáticas recorrentes na parceria dos dois, responsáveis também pela AutoPeça “Sobre os dias que virão”, de 2017.

Merece destaque a direção segura de Carolina Fabri que não apenas confere objetividade ao espetáculo, como torna um de seus pontos altos  o equilíbrio significativo entre diálogos, gestualidade e texto não-verbal. O mesmo vale para a interpretação das experientes atrizes Arinha Rocha e Sandra Vilchez, que passam longe do exagero. Assim, humanizam a situação e mostram a infelicidade de tal situação ser algo recorrente, do cotidiano de cada um que é vítima de algum tipo de violência social.

Em menos de 20 minutos, a peça nos faz refletir sobre as dificuldades enfrentadas pelas populações subalternizadas em ligar o carro e seguir o próprio caminho, num período em que algumas forças têm conduzido a sociedade a engatar a marcha à ré. 

Paulo Scalabrin é participante da Oficina Olhares — Uma Poética da Crítica, ministrada por amilton de azevedo, como atividade de extensão cultural da SP Escola de Teatro. Os participantes foram convidados a escrever críticas de espetáculos das mostras AutoPeças e Ouvi Contar, dentro da programação das Satyrianas 2019.

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