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Oficina Olhares: “Cemitério dos Vivos” e as narrativas não verbais, por Gabriel Labaki

Publicado em: 04/12/2021

Por Gabriel Labaki, participante da oficina Olhares, especial para SP Escola de Teatro

Preciso começar essa reflexão dizendo que eu não sou um espectador teatral muito apegado ao texto. Essa colocação me parece fundamental para balizar minha experiência assistindo à peça “Cemitério dos Vivos”, da Cia. Apocalíptica, no Festival Satyrianas.

O espetáculo de dança-teatro inspirado na obra homônima de Lima Barreto me prendeu muito mais em suas narrativas visual e sonora – extremamente interligadas e imbricadas – do que, propriamente, em seu texto.

Abertura da 22ª edição do festival Satyrianas emociona artistas e público em noite especial

Se por um lado as imagens nos são apresentadas e sustentadas até o seu limite, com algumas chegando bem próximas de seu esgotamento, por outro, a narrativa sonora, que se faz bem presente durante toda a apresentação, preenche e ressignifica as imagens no decorrer da ação.

Narrações em off que permanecem constantes ao longo de grande parte da peça (ainda que difíceis de se compreender na totalidade), músicas gravadas, músicas executadas ao vivo, o cenário sendo arrastado no chão, o motor da lavadora de alta pressão usada para molhar o ator ainda no início do espetáculo…

Se em muitas peças o que há para se escutar é apenas o texto recitado pelos atores e algumas músicas na trilha, em “Cemitério dos Vivos” me interessou e chamou minha atenção o uso criativo dos ruídos – que não poderiam ser anulados, então, afinal de contas, por que não usá-los a favor da encenação?

Interessante perceber, também, que a peça optou por usar o formato de transmitir em vídeo um ator no palco, sem deixar de lado recursos que se popularizaram no formato do teatro virtual.

Câmeras em ângulos que a plateia convencional não teria acesso mostram a expertise de um grupo que optou por não adaptar o espetáculo às plataformas de videochamadas – como o Zoom – mas também não se fechou à vantagens que os recursos audiovisuais podem agregar ao espetáculo transmitido online – em outros momentos durante a pandemia me frustrei em experiências com espetáculos realizados em palco e transmitidos virtualmente onde os atores praticamente ignoram a existência da câmera.

Vale ressaltar que, apesar da minha experiência com a peça não ter se pautado na aproximação ao texto, o performer preto sozinho em cena, amarrado ao cenário, representando uma cela de hospício, me parece uma imagem forte o suficiente para revelar o texto de origem, onde verifica-se tanto o caráter autobiográfico – considerando que Lima Barreto foi internado duas vezes em hospícios – quanto as pautas anti-racistas sempre defendidas pelo autor.

*Gabriel Labaki é ator e diretor, bacharel em Artes Cênicas pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Desde 2015 é integrante do Coletivo Cronópio, atuando nas peças “Favor beber o leite, senão estraga” e “(instruções para compor uma peça) – Se for viver, leia antes”, ambas sob direção de Alice Nogueira. Em 2020 fundou a Cia. Procura-se Mariano, com o objetivo de aprofundar e desenvolver a pesquisa iniciada na peça “Misto-Quente e Outras Coisas Que Não Importam Tanto (Como Por Exemplo Política)” de 2018. Iniciou seus estudos como diretor cênico, ainda na Unesp, no projeto Fábrica de Óperas coordenado pelo maestro Abel Rocha, onde assinou a direção das óperas “Os Piratas de Penzance”, de Sir Arthur Sullivan, e “Rita”, de Gaetano Donizetti. Foi professor de teatro no Cursinho Popular Heleny Guariba, do Instituto de Artes da UNESP, entre 2016 e 2017.




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