Olhares:  ex periência em e s tilha ç o s

POR ANDERSON VIEIRA

No frio, o desejo de abrigar um ansioso corpo em um lugar quente e aconchegante.
Os próximos parágrafos trarão imagens que revelam a potência e conteúdo da obra — se faz necessário.
Tudo começou com uma espera em uma tenda, em meio a uma chuva inesperada — se bem que ela contribuiu para a experiência calorosa que viria a seguir, com o coletivo A Digna. 

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14 de de novembro de 2019.

Em um apartamento.

Na leitura dramatizada encenada por Lili Monteiro.

Materialização da proposta textual dos escritos e escrituras de Victor Nóvoa: “Estilhaços de Janela Fervem no Céu da minha Boca”.

…Voltando a chuva, saímos em meio a estas gotas paulistas e escutamos o som verdadeiro da Praça Roosevelt enquanto éramos conduzidos a esta experiência. Entramos em um apartamento e o teatro se fez; aconchegante como eu desejava, mas ofegante, o que me fez ficar surpreso. 

Era para ser apenas uma leitura dramatizada, mas se tornou uma experiência cênica de convívio dentro de uma atmosfera completamente paulista. 

Entramos no apartamento 601, já com a informação de que estávamos em um segundo momento do texto. Neste fragmento textual, chegamos após um evento de empreendedorismo que caracteriza a primeira parte da obra em questão. A atmosfera e a construção cênica da situação do apartamento já nos permitia acessar intimamente a vida daqueles personagens. Um casal heterossexual, com uma união “estabelecida” e muitas reflexões complexas. Informações estas, que vinham em uma narrativa de fácil mergulho, mas com memórias e declarações epifânicas que me recordam todos os gritos de suspiros femininos que, em um determinado momento, foram proclamados por Clarice Lispector em “A via crucis do corpo” e que agora eram materializados na interpretação de Helena Cardoso. 

A verossimilhança da história na encenação de súbito deixou-me aflito, frente a gastura de ver um personagem corroído, interpretado por Paulo Arcuri, que corporificou os restos decadentes de um homem fracassado por suas próprias expectativas morais; uma narrativa de uma figura que perturba as relações afetivas externas de sua companheira.

A experiência da obra se efetiva com a híbrida junção do discurso artístico com o desejo de gritar assuntos urgentes, que ainda violentam nossos sonhos e a potência da nossa alegria.

Suspendi a minha respiração e vivi, com os atores, esta obra, com caráter de leitura dramatizada, que me revelou todo o som e fúria enferrujada e sexista de um aglutinante relacionamento de convívio na cidade de São Paulo.

Gritei por socorro! Mas as personagens não me escutaram. Mas em meus ouvidos reverberam as materialidades das vozes articuladas e atentas de toda a cachoeira de palavras, que me arranharam o espírito e aguçaram a curiosidade por o que mais está por vir no trabalho deste coletivo tão esteticamente ético na suas encenações. 

Um breve grito, ainda sufocado, de liberdade afetiva e sexual. Não que este seja o assunto central, mas é o que me faz querer descobrir mais coisas sobre o pouco desta obra que ainda segue em processo de montagem. Aguardemos, em nossos apartamentos e nos próximos lugares que nos levarem nesta e em outras cidades. Afinal é disso que precisamos: de uma experiência, que mesmo estilhaçada, nos atravessa e nos aconchega nas noites frias destas épocas culturalmente sombrias. 

Anderson Vieira é participante da Oficina Olhares – uma poética da crítica, ministrada por amilton de azevedo, como atividade de extensão cultural da SP Escola de Teatro. Os participantes foram convidados a escrever críticas de espetáculos das mostras AutoPeças e Ouvi Contar, dentro da programação das Satyrianas 2019.




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