Os Satyros: 30 anos de provocações sociais e reinvenções estéticas

Espetáculo ‘Mississipi’, nova montagem d’Os Satyros; grupo celebra 30 anos em 2019. Foto: Andre Stefano/Divulgação

ALLAN NASCIMENTO

Uma das companhias mais importantes do teatro contemporâneo brasileiro, Os Satyros comemora 30 anos de história em 2019. Ocupando os palcos do país desde o período pós-ditadura militar (1964-1985), o grupo construiu uma trajetória pautada pelo exercício permanente da experimentação, estabelecendo pontes com outras linguagens artísticas enquanto inseria no palco discussões sobre liberdade, corpo e vida na cidade.

A celebração das três décadas será marcada por uma série de atividades especiais ao longo deste ano. A primeira delas, acontece agora, quando Os Satyros leva ao Festival de Curitiba deste ano quatro espetáculos, três deles inéditos. A companhia apresenta na capital paranaense, entre 27 de março e 5 de abril, as peças “Cabaret Transperipatético”, de 2018, e as pré-estreias de “Mississipi”, “Todos os Sonhos do Mundo” e “O Rei de Sodoma”.

Para Rodolfo García Vázquez, fundador, diretor e dramaturgo d’Os Satyros, a comemoração dos 30 anos do grupo no festival é a oportunidade de promover uma honrosa celebração em um evento que ganhou amplitude ao mesmo tempo em que a companhia se consolidava no cenário das artes cênicas do país, no auge da década de 1990.


“Vimos o surgimento do Festival de Curitiba, mas logo em seguida saímos do Brasil. Quando retornamos, ele já estava consolidado como o mais importante do País. Tivemos grandes momentos lá, tanto na mostra oficial quanto no Fringe (mostra paralela à programação oficial), é muito marcante para nós”, explica.

De acordo com Vázquez, os espetáculos que vão ser apresentados na cidade levam para a plateia um recorte amplo dos elementos que compõem o repertório d’Os Satyros. “O público poderá ver nossas várias vertentes de trabalho e entender um pouco do nosso percurso enquanto coletivo artístico.”

TRAJETÓRIA

Os Satyros surgiu em São Paulo, em 1989, a partir da parceria de Rodolfo García Vázquez e Ivam Cabral (foto ao lado). A participação de destaque na mostra em Curitiba, no entanto, é um reencontro do grupo com uma das cidades que já foi casa da companhia. Em 1995, quando o grupo estava sediado em Lisboa, a capital paranaense foi escolhida como a base d’Os Satyros no Brasil.

“Saímos do país em 1992, na época do governo Collor. Éramos exilados culturais, diante da precariedade da nossa situação. A cidade de Curitiba foi fundamental quando retornamos ao Brasil”, lembra Vázquez. “Havia uma lei municipal de incentivo à cultura, inédita para o país naquela época, que possibilitava aos artistas locais a realização de um trabalho artístico continuado. Como o Ivam era de lá, sentíamos Curitiba como uma segunda casa e durante muitos anos nos definimos como uma companhia paulista-paranaense.”

Ao longo dessas três décadas, a Cia. desenvolveu uma linguagem cênica pautada por críticas sociais e uma estética “poluída”. Com o retorno à cidade de São Paulo em 2000, o grupo Os Satyros também foi um dos responsáveis pelo movimento de revitalização da praça Franklin Roosevelt, na região central da cidade. O local, até então marcado por altos índices de criminalidade e abandono social, se tornou exemplo de como o envolvimento de todo o corpo social de uma área pode mudar a realidade da região.

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A Roosevelt foi escolhida pelo Satyros estrategicamente, diz o ator e dramaturgo Ivam Cabral. São Paulo foi a cidade que eles escolheram para criar a base fixa da Cia. após a volta definitiva de Portugal, e a opção, conta o ator, era “encontrar um lugar complicado da cidade” para transformar em casa e palco. “Queríamos colocar em prática a teoria de que a arte ilumina, modifica, transforma. O plano inicial era que, em cinco anos, a situação começasse a mudar nos arredores. Conseguimos isso em três”, descreve Cabral.

“A praça nunca morre, nunca fica vazia. Conseguimos transformar esse espaço em um lugar vivo, uma atração para o público jovem e alternativo da cidade”, complementa.

A relação do grupo com a Roosevelt, porém, não se limita ao espaço físico da sede, mas já rendeu temas e panos de fundo para espetáculos, além da criação do festival Satyrianas – mostra de artes que acontece anualmente, há 19 edições, com 78 horas initerruptas de apresentações.

Ivam Cabral e Rodolfo García Vázquez também são responsáveis pela criação da SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes Palco, instituição ligada à Secretaria de Cultura e Economia Criativa de São Paulo, com sede também na praça.

CONTRIBUIÇÃO ÀS ARTES CÊNICAS

A curadora de teatro e uma das juradas do Prêmio Shell de São Paulo, Lúcia Camargo, foi uma das pessoas a acompanhar o surgimento e crescimento d’Os Satyros. Atual coordenadora de Extensão Cultural da SP Escola de Teatro e ex-secretária de Cultura do Paraná, ela afirma que a história da companhia é pautada pelo pioneirismo e pelo intuito de modificar cenários sociais marcados pela exclusão.

“Os Satyros tem um peso importante na cena teatral nacional porque apresentou para o público espetáculos com dramaturgia e atuações arrojadas, além de ter aberto caminhos para discussões hoje bastante importantes. Discussões de gênero e sexualidade, por exemplo, sempre foram assuntos presentes no trabalho da companhia”, observa Camargo.

“Outra contribuição d’Os Satyros para o cenário artístico é o envolvimento com projetos sociais”, acrescenta. “Desde que eles surgiram essa preocupação é permanente. Ele fizeram isso em Curitiba, fazem na Praça Roosevelt e no bairro do Brás, em São Paulo, e fizeram até mesmo durante uma residência artística no Palácio das Artes, em Belo Horizonte, quando passaram pela capital mineira com Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues.”

Além disso, nos últimos anos Os Satyros tem investido em produções para o cinema. A companhia já lançou dois longas metragens: “Hipóteses para o Amor e a Verdade” e “A Filosofia na Alcova”.

Os Satyros produziram mais de 100 espetáculos, se apresentaram em 20 países e, das mais de 100 nomeações, receberam 53 prêmios – incluindo os maiores do teatro brasileiro, como APCA, Shell e Mambembe.

INQUIETAÇÃO ARTÍSTICA

Apesar de um percurso de êxito nos palcos do país, a companhia mantém a preocupação constante com a inserção de novos elementos cênicos em seus espetáculos. Assim ocorre com “Mississipi”, uma das peças d’Os Satyros com pré-estreia marcada para Curitiba neste ano – e que entra em cartaz no Sesc Consolação a partir de 20 de abril.

“A peça aprofunda temas que nos são muito caros. Trazer visibilidade nos palcos àqueles que são ignorados e desprezados é uma responsabilidade do teatro. Desde a nossa chegada à Praça Roosevelt essa questão se tornou fundamental para nós, tanto do ponto de vista político quanto estético”, adianta Rodolfo García Vázquez. “Apesar de apresentar temáticas presentes em outros trabalhos nossos, continuamos a ser curiosos e sedentos pela investigação. Vamos trazer vários elementos novos ao nosso trabalho, entre eles o teatro karaokê, conceito de um espetáculo com elementos musicais, partindo de canções bregas dos anos 1970”, explica.

Os Satyros é um grupo precursor em muitas discussões e avanços não só do teatro como da sociedade brasileira, sobretudo aquelas referentes à liberdade de gênero e sexualidade, destaca o crítico Miguel Arcanjo Prado. Ele pontua como um marco na história da companhia a entrada da atriz cubana Phedra D. Córdoba (foto ao lado) para seu elenco principal, “bem antes da discussão sobre representatividade trans ser a pauta da vez no cenário artístico e nos meios de comunicação de massa”.

“Phedra, uma diva cubana transexual com farta experiência no teatro de revista latino-americano, inclusive com passagem pelo célebre teatro da Calle Corrientes [avenida boêmia da capital argentina], em Buenos Aires, e pela noite gay gloriosa de São Paulo nos anos 1970 e 1980”, frisa Prado, “foi transformada no coração nevrálgico da companhia, posto que ocupou com glória até sua morte em 2016”. “Phedra, de um certo modo, é uma figura que representa, e muito, o teatro feito pelo Satyros ao longo destes 30 anos: um teatro despido de preconceitos ou de uma visão elitista do palco, que busca abraçar o diverso como norma e o novo como seu maior motor locomotivo. Por isso, trintão, o Satyros segue com seu frescor vanguardista de um adolescente que jamais se conforma com o status quo.”




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