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Morte e desencantamento inspiram o Teatro Faces

Nesse texto da série de entrevistas com importantes coletivos teatrais de todo o Brasil, entrevistamos o Teatro Faces, de Primavera do Leste (MT). O grupo, criado em 2005, é marcado pela altíssima inventividade de suas performances e pela consistente articulação artístico-política que estrutura seus projetos e discursos.

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Entre suas atividades, mantém a Escola de Teatro Faces (método de ensino utilizado nas aulas da Escola Municipal de Teatro de Primavera do Leste); Faces Jovem (grupo fundado em 2010 e formado por jovens que se destacaram nesse projeto artístico-pedagógico); Faces Filmes (produtora cinematográfica independente) e Faces Dramaturgia (grupo de estudos).

Até hoje é formado pelos mesmos integrantes, desde a primeira formação, e, entre suas investigações cênicas, tem pesquisa sobre a morte e seus desencadeamentos, seja em trabalhos para público infantojuvenil ou adulto.

Cena do espetáculo “Boé”. Foto: Camila Vedoveto/Divulgação.

SP ESCOLA DE TEATRO – Quais são os principais processos criativos do grupo?
TEATRO FACES – Somos um grupo diverso, de nove artistas ainda mais diversos. Acreditamos, então, que existam processos dentro dos mais de 20 trabalhos que construímos nesses mais de 15 anos de história que nos aproximaram de nossos públicos e novos territórios. Em nosso repertório para infância e juventude tivemos: “A Fábrica de Brincadeiras” (de 2007, e ainda em cartaz), “O menino e o céu” (uma tragédia para infância e juventude, de 2008, sendo que a reestreia estava marcada para março), “Balé número 16” (2006-2010; 2016-2018) e “Pedro Masalartes e o couro Misterioso” (de 2010, e ainda em cartaz). E para o público adulto: “Cabaré ’20ver coração'” (2012-2016, sobre a história de formação da região de Mato Grosso), “Arlequim Servidor de dois Patrões” (2009 – 2018, uma releitura através das festas populares mato-grossenses) e “Boé” (de 2014, e ainda em cartaz).

SP ESCOLA DE TEATRO – Como funcionam a elaboração dramatúrgica, a criação plástica e sonora e a composição da cena como um todo?
TEATRO FACES – Todo o processo do grupo é colaborativo. Apenas em “Boé” tivemos uma experiência coletiva de criação. Vivemos o grupo em sua essência, além dos palcos. A dramaturgia por vezes surge de jogos de cena, às vezes é escrita de acordo com o interesse do grupo, ou apresentada e partimos para nossa leitura desse texto. Os atuantes de Primavera do Leste iniciam sua vida no teatro muito cedo, alguns com cinco anos, outros com sete. Alguns acabam verticalizando seus conhecimentos em figurino, adereços, cenário, iluminação, produção, direção, dramaturgia… Então, geralmente dentro do grupo, as funções são divididas de acordo com o interesse e, a partir daí, há um extenso jogo de criação particular em contato com as percepções coletivas. O que é cena, o que vai para cena, geralmente são os desencadeamentos desse contato. Somos mestiços e nossa poética também o é.

Cena do espetáculo “Boé”. Foto: Camila Vedoveto/Divulgação.

SP ESCOLA DE TEATRO – Conseguiriam elencar alguma referências estéticas (sejam literárias, teatrais etc.) que foram/são importantes ao grupo?
TEATRO FACES – A infância, o território e os desencadeamentos do contato são nossas fontes recorrentes. Estamos em um Estado com três grandes Biomas: A Floresta Amazônica, o Cerrado e o Pantanal, e temos um processo histórico incrível, temos manifestações da cultura popular, tesouros que a coloniedade não teve forças para destruir. Somos um grupo do interior de Mato Grosso, fomos ensinados no princípio a falar com sotaque paulista ou carioca porque o nosso sotaque não cabia no teatro, fundamos uma escola em 2010 que já chegou a atender 1% da população, ou seja, mais de 600 pessoas. Desenvolvemos métodos, exercícios e nossa própria dramaturgia enquanto muita gente tentava nos dizer que estávamos no caminho errado do teatro. Nossa estética bebe muito das festas populares e da arquitetura diversa das mais variadas comunidades que formam Mato Grosso; principalmente as comunidades indígenas e seu imaginário: Festa do Congo, O Chorado, O Siriri… E somos muito orgulhosos de termos inúmeros dramaturgos e jovens desde muito cedo interessados na dramaturgia. Wanderson Lana recebeu o prêmio Funarte, em 2018, e ficamos imensamente felizes porque esse é um reconhecimento não apenas para ele, mas para todo esse nosso trabalho de fomento que vem desde 2005.

SP ESCOLA DE TEATRO – Como o coletivo tem se estruturado para enfrentar a pandemia?
TEATRO FACES – Continuamos nos encontrando todas as semanas e discutindo o tempo presente e desenvolvendo ensaios para o ambiente virtual. Por sermos de uma cidade de 60.000 habitantes, conseguimos nos encontrar em supermercados, farmácias… Mas sentimos imensamente a falta da presença, do jogo de cena, de sentir a energia do outro durante uma discussão. Sabemos do momento delicado para a saúde pública e esperaremos até ser seguro para todos. Essa semana apresentaremos um estudo sobre o que fazemos para vencer nosso medo e depois continuaremos… como um grupo diverso que somos, como um grupo de teatro, como um grupo de amigos.




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