Opinião: A sinestesia do teatro na internet

Publicado em: 14/07/2020

POR MATEUS ARAÚJO

A pandemia despertou em alguns de nós a ferrenha discussão sobre a internet ser ou não um legítimo palco teatral. Este texto, porém, não se trata de pretensa defesa ou retórica negação do “teatro online”, porque, diante de tantas incertezas dos tempos de agora, talvez a última urgência com a qual devemos nos preocupar é em classificar as coisas.

É certo, entretanto, que a experiência do teatro feito na internet tem nos levado a caminhos curiosos.

Como se desafiar, na perspectiva da poética cênica, na criação de um teatro para a estrutura online? Em tempo de tantos “ao vivo” e videoconferências, estabelecer incomuns possibilidades narrativas parece ser um trunfo da virtualização.

No mês passado, na estreia de “A Arte de Encarar o Medo”, o diretor d’Os Satyros, Rodolfo García Vázquez, comentou que a maior dificuldade para criar a montagem, encenada no Zoom, “foi entender o suporte sobre o qual íamos trabalhar, entender seu potencial e suas limitações”. “Passamos grande parte dos ensaios das primeiras semanas tentando assimilar todos os desafios tecnológicos.”

Foi preciso romper com o analógico para mergulhar no digital, complementou o ator e dramaturgo Ivam Cabral. “Então, encontramos todas as dificuldades que a tecnologia pode trazer. Tivemos que driblar, desde conexões precárias de internet, até as dificuldades na construção de nossos cenários e figurinos.”

Cena de ‘A Arte de Encarar o Medo’, d’Os Satyros. Foto: André Stefano/Divulgação

ONÍRICO

Em maio, quando participei do experimento “Tudo o que Coube numa VHS”, cheguei a escrever sobre a sagacidade que o grupo Magiluth empreendeu para nos possibilitar uma vivência cênica através da subversão da mídia. Durante 30 minutos, o artista  conduz o interlocutor pela história de dois homens atravessada por agruras do destino.

Eles trocam mensagens de texto, enviam músicas, assistem a vídeos e nos colocam como espectadores ativos nesta comunicação. Nós recebemos, lemos, ouvimos e assistimos a tudo também. Vamos, nessas interações, montando nós mesmos um quebra-cabeça sobre aquela relação. O que eles são ou foram, se estão juntos ou separados, se são reais ou não, cabe a você decidir.

Não é uma live nem uma peça. Despretensiosamente, o Magiluth nos leva a um exercício de atenção à narrativa e de experimento múltiplo das plataformas (inclusive a sonoplastia, personagem fundamental desta engrenagem), que subverte o sentido de ‘dependência’ tecnológica da arte no contexto adverso para tornar o dispositivo elemento da história, como pontuei.

Em entrevista ao Jornal do Commercio, o ator Giordano Castro explicou que o grupo não queria fazer lives, porque esse recurso destoa da linguagem magiluthiana. “Foi então que vimos que o mais interessante seria se entendêssemos esse momento, quais as plataformas que nos sustentam, como nos comunicamos agora, que é a partir desse cruzamento de mídias. Enquanto estou conversando com fulano, ouço música, recebo um direct no Instagram etc.”

INCOMPLETUDE PROPOSITAL

Recentemente, voltei a ter uma experiência interativa pelo teatro virtual, desta vez com o Clowns de Shakespeare. “Clã_Destino” me fez lembrar bastante do experimento do Magiluth, justamente pelo jogo da recepção. A história é de uma viagem clandestina, com guerrilheiros mascarados fugindo da perseguição de inimigos para viverem num espaço onde há música e poesia, simulacro do paraíso apesar da peste. Com uma senha e uma ligação telefônica, entramos na empreitada.

A estranheza, os códigos e os ruídos da comunicação tecnológica reafirmam a todo instante a teatralidade, mas sem interferir na cumplicidade que estabelecemos com aquelas personagens. Na sala de bate-papo, tornamo-nos todos também fugitivos.

O diretor Fernando Yamamoto é bastante pragmático ao explicar que a criação deste trabalho dos Clowns parte, necessariamente, do pressuposto de que aquilo não é teatro. “Mas o desejo é tentar criar equivalências que consiga gerar alguma sensações, um gostinho do teatro. Obviamente sabendo que não é possível de fazer teatro. Podemos fazer algumas coisas — mais legal, menos legal — sem jamais devemos perder de vista o lugar do teatro presencial”, frisa, em entrevista à SP Escola de Tearo.

A criação de evidências à qual ele se refere passa pela exploração mais intensa do sincretismo de sentidos, para gerar, segundo Yamamoto, “uma sensação mais próxima da relação presencial do teatro, e, nesse sentido, de alguma forma, tentar usar as plataformas virtuais a nosso favor, tentar subvertê-la”.

Mais do que assistir, esse teatro nos desperta pelos estímulos de outros campos sensoriais. A audição, sobretudo. É interessante pensar assim quando vivemos numa era de tanta evidência visual, da explosão da vaidade diante do espelho-não-espelho que virou uma câmera de celular. Ser guiado pelo outro por meio da voz e do texto, por exemplo, subverte uma lógica mecânica e propõe, ainda que por minutos, regredir a princípios essenciais da nossa existência. A sugestão sinestésica amplia nossas leituras.

Daí, por exemplo, não se propor uma experiência audiovisual, amarrada, mas conectada com a característica efêmera, conscientemente improvisada e imperfeita. “A incompletude é uma coisa que a gente tenta provocar no público ao longo da experiência”, concorda o diretor.

A sensação que tenho é a de imergir em sonhos. Não é à toa que as histórias se construam em um campo distópico – n’Os Satyros, na projeção do tempo futuro, no Magiluth, despertado pelo saudosismo, e nos Clowns, uma ode à carnavalização libertária tão presente nas culturas latino-americanas. No caso destes dois últimos exemplos, para mim, com um filtro a mais: tratam-se de artistas nordestinos, como eu, pulsando aqui subjetividades geográficas.

Talvez não valha a pressa para estabelecer definições teóricas e postulados sobre o tal “teatro online”. O que vale, sim, é reconhecer a disrupção trazida pela aventura virtual do ouvir-ver, uma tradução das nossas angústias momentâneas. Se datada, isso só o futuro dirá. Por ora, é excepcional.

CULTURA EM CASA

Assim como outros equipamentos, a SP Escola de Teatro criou uma programação especial na internet para oferecer ao seus seguidores. Assim, está disponível uma série de conteúdos multimídia, como vídeos de espetáculos e de palestras e bate-papos de nomes como as atrizes Fernanda Montenegro, Nathalia Timberg e Denise Fraga, a monja Coen, a escritora Adélia Prado e o pastor Henrique Vieira, além de cursos gratuitos a distância.

O acervo ainda inclui filmes produzidos pela Escola Livre de Audiovisual (ELA) – iniciativa da Associação dos Artistas Amigos da Praça (Adaap), gestora da SP Escola de Teatro – em parceria com instituições internacionais, com a Universidade das Artes de Estocolmo (Suécia).

#culturaemcasa #teatroemcasa

 

MATEUS ARAÚJO é analista de Comunicação da SP Escola de Teatro. Jornalista, pesquisador, crítico de teatro e mestre em Artes Cênicas pela Unesp.

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