Sinhá Não Dorme: Em tempos de necropolítica, quem tem sono é livre

Por Viviane Pistache*

“Escuta a filosofia da morte, imponente, cavalgando sobre um quadrúpede esguio. A morte segue trotando, linda, poderosa, mantra da matéria.” In: Congresso Internacional do Medo, Grace Passô.

Em tempos de pandemia e desgoverno genocida, o teatro virtual tem sido uma possível dose de alento, ainda que seja para encararmos pesadelos historicamente repaginados. Essa é uma aposta da peça Sinhá não Dorme , exibida 1ª Mostra Aldir Blanc na SP Escola de Teatro , com curadoria do crítico e dramaturgo Miguel Arcanjo e da Escola SP de Teatro. O espetáculo tem autoria e protagonismo da afinadíssima dupla Glória Diniz e Roberta Valente, que encarna um casal de ex-namoradas que discutem a relação enquanto tentam encobrir um crime.

Sinhá não Dorme rememora chagas históricas de uma sociedade escravocrata retratada em Onda Negra e Medo Branco , de Célia Maria Marinho de Azevedo, que expõe uma branquitude apavorada com qualquer ensaio de liberdade negra e ainda goza com os traumas que assombram a negritude.

E enquanto a sinhá não dorme, a mucama também sofre insônia. Assim, matar a Sinhá emerge como um ato de legítima defesa, assumindo as consequências trabalhosas em suas múltiplas dimensões; pois nem sempre nasce
uma branca aliada na luta anti-racista para cada sinhá que morre. No entanto, nesse caso o crime ainda compensa, se o sono assoma como um reduto possível de liberdade para a condição de escravizada.

De modo satírico, o rapper Killer Mike testou essa hipótese num episódio da série que desenvolveu para a Netflix intitulado “Novo Jesus”, que seria a promessa de um Messias negro e humano que libertaria os povos negros historicamente escravizados com a criação de uma religião em que dormir seja simplesmente um ato revolucionário. O sono é um reduto que o capitalismo disputa tenazmente, conforme Anthony Rodrigues desenvolve em 24/7 – Capitalismo Tardio e os Fins do Sono. Numa sociedade hiperconectada em que estamos a um click das pessoas, a
pandemia escalonou a infodemia, a produtividade seja dolosa ou culposa, bem como o desemprego a níveis avassaladores.

Plenamente consciente disso, Sinhá Não Dorme tensiona esses fatores com as telas/plataformas que dispomos enquanto sobrevivemos, assumindo que baixamos nossas expectativas de modo que ansiar por mais do não morrer, beira a utopia. Mas Roberta e Glória ainda perseguem um sonho que mulheres negras há tempos reivindicam: o direito ao gozo pleno e se amarem como iguais e foda-se se isso soar narcisista, pois só recentemente achamos bonito o que é espelho, mesmo que seja numa tela de zoom. E se já temos a bússola de que “quando uma mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela”, imagina então quando ela gozar, relaxar, dormir e sonhar? Ao que parece, até o sistema capitalista já entendeu que uma preta que goza é perigosa e talvez por isso a sinhá segue insone.

Viviane Pistache* é roteirista e crítica de cinema com passagem pelo departamento de desenvolvimento de roteiros da  O2 Filmes. Doutoranda em Psicologia e Cinema pela USP. Graduada em Psicologia pela UFMG. Formada em Roteiro e Direção pela Academia Internacional de Cinema de São Paulo AIC/SP

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