Referencial para a Cena

Publicado em: 05/10/2012

“São Paulo: Maio de 2006 – A Ação do PCC na Cidade” é o tema que serve de material para o desenvolvimento das propostas do Módulo Amarelo da SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco. Os aprendizes que fazem parte deste período tiveram, na terça-feira (2), a oportunidade de conversar com uma especialista no tema: a socióloga e Profa. Dra. Camila Nunes.

 

Abrindo os trabalhos do segundo Experimento deste Módulo, o colóquio serviu como suporte teórico para as investigações cênicas dos aprendizes. “Ao contrário do que fazíamos antes, com palestras no final dos sábados, em que as salas eram abertas, resolvemos iniciar a semana do Experimento com um convidado”, explicou Joaquim Gama, coordenador pedagógico da Escola.

 

Camila é graduada em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo (USP) e autora da tese de Doutorado “Da Pulverização ao Monopólio da Violência: Expansão e Consolidação do Primeiro Comando da Capital (PCC) no sistema carcerário paulista”. Além disso, já participou de trabalhos voluntários em casas de detenção e, no Mestrado, pesquisou a conversão de presos ao evangelismo no sistema prisional de São Paulo.

 

A conversa teve como mote a formação do PCC e a sua atuação ao longo das décadas na cidade. A palestrante começou contextualizando a situação da organização que, segundo ela, detém o controle de 90 a 95% das 152 unidades prisionais de São Paulo. “O tamanho desse sistema aqui é absurdo”, observou.

 

O surgimento do PCC aconteceu em 1993, no anexo da Casa de Custódia de Taubaté, que abrigava presos de alta periculosidade. Os fatos históricos que levaram à sua criação, porém, são identificados na década anterior, de acordo com Camila.

 

Em um cenário de extrema euforia pelo fim da ditadura militar no País, Camila lembrou que São Paulo também vivenciava a agenda de ampliação dos direitos humanos, aplicada pelo governador André Franco Montoro com o objetivo de coibir a ação violenta. A partir de 1985, vários setores da sociedade começavam a fazer forte oposição a essa política. “A partir de então, há um retrocesso autoritário”, destacou Camila.

 

Os reflexos da cobrança por um tratamento mais rígido por parte da polícia começaram a ser vistos já em 1987, com o massacre de 29 presos. Dois anos depois, em uma tentativa de fuga do 42º DP, mais 18 foram mortos asfixiados. 

 

 

Camila durante a palestra (Foto: Arquivo SP Escola de Teatro)

 

 

O “ápice” dessa tensão, segundo a pesquisadora, foi alcançado em 1992: o massacre do Carandiru que, coincidentemente, completava 20 anos anteontem.

 

No dia 2 de outubro daquele ano, 111 presos foram executados. “Não foi um evento isolado. O massacre do Carandiru é parte do retrocesso autoritário que teve início na década de 1980”, afirmou Camila, completando que “a criação do PCC em 1993 também não é coincidência”.

 

A Profa. Dra. destacou, ainda, que, apesar de se tratar de uma organização criminosa, o PCC adota um discurso de legitimação “calcado na luta contra a opressão do Estado” e que, se esse discurso não fizesse sentido, o grupo não teria essa força com a população carcerária. 

 

A partir de 1995, o número de rebeliões, resgates e fugas “cinematográficas”, inéditas até então no Brasil, “explodiu”. Essas reivindicações tornaram-se cada vez mais prolongadas e foram frequentes até 2000, sem que o governo admitisse a existência do Partido. Foi apenas em 2001, com uma mega-rebelião que abrangeu 29 unidades prisionais, que o PCC expôs publicamente sua existência. 

 

Daquele ano até 2006, o PCC saiu um pouco de cena e se organizou em silêncio, percebendo que conflitos diretos não trariam grandes benefícios à organização. Até que o ano eleitoral proporcionou o cenário perfeito para ações de seus membros com intenções políticas. A gota d’água foi a transferência de presos para penitenciária de segurança máxima, sob condições precárias durante a viagem.

 

Esses, entre outros fatores, acarretaram no “dia em que São Paulo parou”, que teve início em 12 de maio e seguiram até 14 de maio de 2006, a maior onda de violência contra a força de segurança no Estado. Mais de 400 pessoas morreram nesses combates.

 

A partir daí, há uma nova estabilização ou acomodação, com as lideranças do PCC proibindo o uso da violência física nas manifestações. Nesse período, houve também redução dos homicídios na cidade.

 

Novas investidas da organização só voltaram a ser identificadas em junho deste ano. “Acho que agora o PCC não vai optar por gerar uma crise muito grande. Creio que presenciaremos uma guerra menos intensa”, supôs Camila.

 

Ao abrir as perguntas para o público, a convidada respondeu a mais uma série de questões sobre a atuação do Partido. O material do colóquio poderá contribuir para a criação do segundo Experimento do Módulo Vermelho da Escola, cujos trabalhos serão mostrados ao público neste sábado (6), durante o Território Cultural.

 

 

Texto: Felipe Del

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