Papo com Paroni | Uma distopia real – Futebol do teatro

Publicado em: 05/12/2016

Maurício Paroni de Castro, especial para a SP Escola de Teatro

 

Distopia não é um gênero teatral ou literário, mas uma criação intrínseca a uma utopia; esta contém o seu oposto e vice versa. Vista como arte genérica, reduz a dura realidade do sofrimento humano à tentadora elaboração estética sepultada numa metodologia vazia.

 

Um recente fato distópico comoveu a todos nós: o desastre aéreo da equipe de futebol chapecoense. Ocorreu entre gente que superou dificuldades imensas. A distopia vivida por todos os envolvidos pode ser apreendida esteticamente por pelo menos cinco versões que nada têm a ver com códigos genéricos.

 

I – Irreversibilidade kafkiana

 

No dia seguinte ao fato horribilis, pus-me a assistir ao videoteipe da partida que qualificou o time da Chapecoense para a final em Medellín, na Colômbia, onde houve o acidente que matou quase todos os que a disputaram. A cada passe certo correspondia uma exultação de alegria nas arquibancadas. 

 

Em particular, há o momento em que o goleiro Danilo Padilha defende, no derradeiro minuto e em cima da linha do gol, um chute à queima-roupa do adversário. Comemorada como um milagre, aquela mesma defesa selou o destino responsável pelo desfecho do drama. Não o chamo de tragédia porque poderia ter sido evitado – o drama – se o piloto, sua companhia e os organizadores não forçassem um voo temerário cujo o plano de voo não comportava qualquer tipo de contratempo, fosse este humano, meteorológico ou técnico. Os passes – ou passos – chancelaram jogadores, técnicos, aviadores e jornalistas para o voo mortal a Medellín. 

 

Do lado silencioso do mistério da existência, uma senhora muito conhecida também dava passos – ou passes – para apanhar aquele voo. Carregava consigo a sua foice. Invisível e igualmente em silêncio, também caminha em nosso encontro, numa surpresa anunciada. É mera questão de tempo verbal. 

 

Kafka talvez descrevesse metaforicamente essa distopia como uma deliberada ignorância do silêncio da morte causada pelo utópica esperança de aplausos da plateia. Uma auto-sabotagem poética, segundo o cineasta italiano Pier Paolo Pasolini (1922-1975): “Cada gol é sempre uma invenção, uma subversão do código: cada gol é fulguração, espanto, irreversibilidade.” (*)

 

II – Inelutabilidade Beckettiana

 

Aquele desastre irreversível trouxe a metáfora do Nada – Nihil, categoria de pensamento – a estádios lotados de gente comovida. No funeral coletivo do campo da Chapecoense foi reverenciada uma espécie estranhada de democracia. Um trecho de um artigo do jornalista Mauro Betting fala sobre isso:

 

“(…)

 

Nada criado pelo homem congrega mais que a atividade que a talibancada desagrega e despedaça em nome da intolerância da cor única, da falta do pensamento único, da Verdade Suprema que é o sumo, cume e cúmulo da falta de civilidade. 

 

O futebol é a melhor imperfeição criada pelo homem. Metáfora para tudo. Mas nem ele consegue explicar o elo que existe agora entre Chapecó e Colômbia. Os clubes que usarão nas próximas partidas o símbolo da Chape no peito. A Ponte Preta que ficou verde por ela e o Guarani que ficou negro como o Palmeiras que viu o maior rival Corinthians se pintar de verde de Chapecoense. 

 

Mas será que só na tragédia somos solidários? Não podemos ser também mais minimamente respeitosos em outros tratos e trajes? Não é preciso aplaudir o gol rival. Mas é necessário entender que o jogo é o mesmo. As regras iguais. Que alguém precisa perder para a gente ganhar. É preciso saber vencer e também perder. E muitas vezes empatar”. (**)

 

A utopia da solidariedade diante da dor comum entre Chapecó e Medellín é o reverso do fascismo distópico do “Viva la muerte!” na Espanha franquista. A democracia contém a ditadura na mesma medida. É um aspecto eminentemente beckettiano que precisa estar sempre em evidência; é Beckett pela ausência, por aquilo que não se pode representar, pelo que só se pode viver metaforicamente. Ninguém reverte a morte que a nós acomuna.

 

III – Estética Brechtiana 

 

Além da responsabilidade criminal dos operadores institucionais e das empresas envolvidas, comparece um aspecto formal brechtiano, uma ironia factual que aproxima o desastre ao percurso de Galy Gay, de Um Homem é um Homem: o sujeito comum que sai de casa para comprar um peixe, não se atreve a dizer não a quem quer que seja e acaba protagonista vivo – não, por isso, sobrevivente – de seu próprio funeral.

 

IV – Historicismo cinematográfico

 

Um distanciamento político nos aproxima desse desastre ocasionado “por pane seca”, por conflitos de interesses, públicos ou privados; pela ganancia de empresários associada à conivência de autoridades organizativas e governamentais. 

 

É oportuno observarmos a abordagem estruturalmente distópica do roteiro do filme Mephisto (Oscar de melhor filme estrangeiro de 1982). Trata-se da adaptação do romance homônimo de Klaus Mann (1906-1949) dirigida pelo cineasta húngaro István Szabó e estrelada pelo austríaco Klaus Maria Brandauer. 

 

O romance foi escrito em 1936. É um retrato mal disfarçado de seu ex-cunhado, o ator Gustaf Gründgens.  Utiliza a trama de Mefistófeles e Fausto para narrar que ele se construíra como o intérprete-modelo do drama de Goethe: abandonou a própria consciência ao entrar para o Partido Nacional-Socialista com o fim de se aproximar do ministro da propaganda Joseph Goebbels (1897-1945). O protagonista acaba desesperado num estádio vazio onde se prospecta um megaespetáculo do regime nazista.

 

Distopia da distopia, o filho adotivo de Gründgrens acionou a Justiça para proibir a reimpressão após a primeira edição alemã na década de sessenta. Depois de sete anos de batalha legal, o Supremo Tribunal alemão proibiu o trabalho.

 

V- Epilogo Infinito

 

A letra é V (o algarismo latino correspondente a cinco), mas deveria ser grafado ∞ (do latim infinítu); infinitas são as distopias contidas no cerne da vida neste mundo. Para ficar na poesia – brasileira – e não na prosa – europeia -, o poeta maranhense Ferreira Gullar (1930-2016) comparou a arte a uma alquimia que serve para transformar o sofrimento em alegria. Não é um mero exercício idealístico. Ele dizia que não sofremos literalmente os sofrimentos de um drama de Shakespeare, mas nos alegramos com a beleza poética daquilo que vemos representado. “A arte existe porque a vida não basta”; é uma alquimia utópica que inclui a distopia de os pesadelos artísticos poderem virar realidade. 

 

 ————-

(*) PASOLINI, Pier Paolo. O gol fatal. Folha de São Paulo, Caderno Mais!, 6 mar. 2005, p.4-5. [Tradução de Maurício Santana Dias; título original: Il calcio ‘è’ un linguaggio com i suoi poeti e prosatori].

Texto escrito pouco depois da copa vencida pelo time de sonhos de Pelé e companhia, ao descrever a diferença entre poesia, prosa e a literatura através da metáfora do futebol. Editei trechos publicado pela folha de Sao Paulo; a integra do artigo se encontra aqui: 

 http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs0603200506.htm

(…)

O que é uma língua? “Um sistema de signos”, responde do modo hoje mais exato um semiólogo. Mas esse “sistema de signos” não é apenas, necessariamente, uma língua escrita-falada (esta que usamos agora, eu escrevendo e você, leitor, lendo).(…)

Os “sistemas de signos” podem ser muitos. Tomemos um caso: eu e você, leitor, estamos numa sala onde também estão presentes [o jornalista e ex-porta-voz do presidente italiano Alessandro Pertini, Antonio] Ghirelli e [o jornalista esportivo da Itália Gianni] Brera, e você quer me dizer algo sobre Ghirelli que Brera não deve ouvir. A situação impede que você me fale por meio do sistema de signos verbais, e então é preciso recorrer a um outro sistema de signos, por exemplo, o da mímica; aí você começa a revirar os olhos, a entortar a boca, a agitar as mãos, a ensaiar gestos com os pés etc.

Você é o “cifrador” de um discurso “mímico” que eu decifro: isso significa que possuímos em comum um código “italiano” de um sistema de signos mímico.

(…)

O jogo de futebol também é um “sistema de signos”, ou seja, é uma língua, ainda que não-verbal. 

(…)

Mas vamos ao futebol.

O futebol é um sistema de signos, ou seja, uma linguagem. Ele tem todas as características fundamentais da linguagem por excelência, aquela que imediatamente tomamos como termo de comparação, isto é, a linguagem escrita-falada.

(…) toda língua se articula em várias sublínguas, cada qual com um subcódigo.

Pois bem, com a língua do futebol também é possível fazer distinções desse tipo: o futebol também possui subcódigos, na medida em que, de puramente instrumental, se torna expressivo.

Há futebol cuja linguagem é fundamentalmente prosaica e outros cuja linguagem é poética.

Assim, justamente por razões de cultura e de história, o futebol de alguns povos é fundamentalmente de prosa, seja ela realista ou estetizante (este último é o caso da Itália); ao passo que o futebol de outros povos é fundamentalmente de poesia.

Há no futebol momentos que são exclusivamente poéticos: trata-se dos momentos de gol. Cada gol é sempre uma invenção, uma subversão do código: cada gol é fatalidade, fulguração, espanto, irreversibilidade. Precisamente como a palavra poética. 

(…)

Quem são os melhores dribladores do mundo e os melhores fazedores de gols? Os brasileiros. Portanto o futebol deles é um futebol de poesia -e, de fato, está todo centrado no drible e no gol.

A retranca e a triangulação é futebol de prosa: baseia-se na sintaxe, isto é, no jogo coletivo e organizado, na execução racional do código. O seu único momento poético é o contrapé seguido do gol (que, como vimos, é necessariamente poético). Em suma, o momento poético do futebol parece ser (como sempre) o momento individualista (drible e gol; ou passe inspirado).

O futebol de prosa é o do chamado sistema (o futebol europeu). 

(…)

O futebol de poesia é o latino-americano. Esquema que, para ser realizado, demanda uma capacidade monstruosa de driblar (coisa que na Europa é esnobada em nome da “prosa coletiva”): nele, o gol pode ser inventado por qualquer um e de qualquer posição. Se o drible e o gol são o momento individualista-poético do futebol, o futebol brasileiro é, portanto, um futebol de poesia. Sem fazer distinção de valor, mas em sentido puramente técnico, no México [em 1970] a prosa estetizante italiana foi batida pela poesia brasileira. 

 (**)

http://maurobeting.blogosfera.uol.com.br/2016/12/01/a-mais-linda-partida-nao-teve-bola-e-nem-times-apenas-o-espirito-do-jogo/ 

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