Aprendiz em Foco | Vanessa Medeiros

Publicado em: 13/02/2014

Era o dia da chegada dos materiais escolares. Vanessa, uma das alunas daquela turma da 2ª série, não tirava os olhos de um entre todos os objetos. Na capa, o título – Livro de Redação – mostrava algo inédito para ela e exercia uma forte atração sobre seus olhos e sua mente, tão jovens quanto ávidos por respostas. Foi naquele dia que a pequena garota de 8 anos decidiu o que queria ser quando crescer.

 

Do início simbólico da vida de escritora até hoje, Vanessa Medeiros, aprendiz de Dramaturgia da SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco, já desenvolveu longamente sua paixão: é “escritora” de notícias, reportagens e críticas, de peças teatrais, de séries de televisão, de filmes e de tudo mais que lhe vier à cabeça.

 

Formada em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero, Vanessa conta que procurou o curso de comunicação social no anseio de construir uma carreira “estável” fazendo o que mais gostava, ainda que depois tenha percebido que “escrever é apenas a última ponta do jornalismo”. 

 

Obstáculos à parte, diz ter se apaixonado pela área e exerce a profissão desde 2006. Já fez vários trabalhos como freelancer e atuou em diversos veículos, como UOL e R7, sempre lidando com cultura. Nesse caminho, especializou-se em TV; principalmente em séries. Atualmente, trabalha na revista Monet, no site Casal sem Vergonha e mantém o blog Temporada de Séries.

 

Para Vana, como costuma ser chamada, escrever é um hábito quase tão fundamental quanto respirar. Hoje, aos 26 anos e carregando considerável experiência, dedica-se a investigar linguagens e desvendar narrativas. “Sempre gostei de ficção. Descobrir como funciona uma narrativa e explorar modelos novos são coisas que me interessam”, comenta. Também participou de cursos de roteiro e, depois de um tempo afastada, agora está escrevendo um projeto de série de TV.

 

Uma área da qual Vana ficou longe por ainda mais tempo foi o teatro. Lá atrás, ainda no colegial, ela atuou como atriz em peças montadas na escola, além de ter escrito “algumas coisinhas” que o grupo fazia. A distância do palco começou a incomodá-la até se transformar em desespero. Afinal, o teatro sempre foi para ela um suporte artístico. “É com a linguagem do teatro que sei me expressar como artista”, revela.

 

Foi em meio a essa “crise” que ela decidiu largar o emprego fixo e retornar correndo para o teatro. Voltou a escrever pra valer no ano passado e, em junho, após receber recomendações de amigos que ainda estavam na área, prestou o Processo Seletivo para o curso de Dramaturgia da SP Escola de Teatro e foi aprovada. Deu início aos seus estudos na Instituição no segundo semestre de 2013.

 

“Estou muito empolgada com o curso. Ter a oportunidade de passar dois anos estudando narrativa e ficção, ainda sem precisar pagar nada, é um sonho. Estou amando essa Escola”, afirma.

 

Muito mais que um curso voltado apenas ao ofício de dramaturgo, o conteúdo das aulas coordenadas por Marici Salomão equilibram teoria, técnica e prática e oferecem base de criação para outras mídias. E é exatamente isso que ela procurava. “Na Dramaturgia temos linguagens e possibilidades diferentes que se complementam. Por conta da minha trajetória, também não consigo parar de pensar no audiovisual”, conta.

 

Vana e o grande líder

Os frutos da passagem de Vana pela Escola não tardaram a chegar: amanhã (14/2), uma peça que ela escreveu em parceria com outros dois dramaturgos estreia em São Paulo. Todos os participantes do trabalho, da direção à sonoplastia, são aprendizes – atuais ou egressos – da Escola. 

 

Criado durante o Experimento do módulo Vermelho do ano passado, sob orientação de Cadu Witter, “Metápolis” retoma o teatro de rua que era feito por jograis e menestréis desde a Idade Média para investigar a relação entre uma comunidade e seu “grande líder”. Apresentada em plena Praça do Patriarca (em frente à Prefeitura), o espetáculo provoca os moradores da cidade a respeito do que este suposto líder vem fazendo com o poder que detém e joga luz em uma discussão que trafega “entre o pessoal o social”.

 

Assinado por ela, Alex Francisco e Filipe P., o texto ganha direção de Jonas Mendes e Paulo Araújo. As sessões estão marcadas para as próximas quatro sextas-feiras (14, 21 e 28/2 e 7/3), sempre às 18h e no mesmo lugar. 

 

Para dar continuidade à pesquisa instaurada no núcleo que se formou na Escola, os aprendizes criaram até um nome para o grupo: Cia. Trova 8. Vivendo sua primeira experiência dramatúrgica colaborativa, Vana aprova a parceria rasgando elogios aos colegas: “Fizemos um trabalho bem legal e o Experimento deu muito certo. É um núcleo incrível. Todos trabalharam em prol de uma investigação artística”.

 

Talvez por influência de sua formação, o teatro que mais agrada a aprendiz é aquele que, de alguma forma, dialoga com a realidade, sem perder de vista o apelo social que a pesquisa carrega – sua peça anterior era uma tragédia familiar.

 

A escolha do local e do público da encenação foram pensados minuciosamente com a ideia de reforçar essa característica. Centro de São Paulo, em frente à sede de um órgão público, num local por onde passa um sem-número de gente todos os dias – em sua maioria, trabalhadores. Vana ressalta que quando o processo foi aberto ao público durante o Experimento, houve boa recepção por parte de quem passava por ali e várias pessoas interagiram e participaram das cenas. E assim ela espera que seja novamente.

 

Na miscelânea de palavras que é a vida dessa mulher “ansiosa e que quer fazer tudo ao mesmo tempo”, ainda sobra espaço para sonhar em retomar o trabalho como atriz. E, quem sabe, aprofundar seu novo trabalho, uma “dramédia musical sobre tabu”, com o grupo de Cadu Witter. Ah, se possível, conseguir inscrever a Trova 8 em festivais e participar de editais. E dedicar mais tempo ao jornalismo. E às séries de TV, mais o cinema e a literatura.

 

E por que todas essas vontades haveriam de ser um problema? Se, para Vana, escrever “é a oportunidade de ressignificar o mundo através da dramaturgia”, que ele seja modelado como bem quiser a ponta de sua caneta.

 

 

Texto: Felipe Del

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