A tensão pré-menstrual e o monumental tamanho das coisas

Publicado em: 05/12/2014

* por Sergio Zlotnic, especial para o portal da SP Escola de Teatro

 

1 – O monumental tamanho das coisas

Laura está comigo há dez anos. É uma paciente. Ela diz que – ao lado da desgraça – há certo prazer no desconforto das fases de tensão pré-menstrual. Sente-se hipersensível. Altas temperaturas. Não deixa passar batido absolutamente nada. As falas, comentários, traços de caráter, comportamentos, tiques dos outros… Tudo a incomoda tremendamente. Nenhum ângulo presta. O mundo é habitado por pessoas desaforadas! O inferno são os outros, sim, mas apenas três dias por mês. Mesmo quando não é incômodo, qualquer “input” provoca turbulência – estímulos recebidos com sensibilidade máxima. Há uma lupa aumentando todas as coisas. Cor de rosa ralo e aguado, por exemplo, é imediatamente percebido como vermelho sangue.

 

Ou então, quem sabe?, nesses dias de exceção, Laura enxerga os estímulos como eles realmente são, sem atenuá-los, lúcida por um instante do monumental tamanho das coisas. Nada é desprezado ou amortecido, o que quer dizer que Laura está mais viva do que nunca. Dramaticamente pronta a reagir. Apta a sentir/registrar/responder. Pá-pum! Nenhum detalhe escapa de sua percepção e cada fato minúsculo é de fundamental importância. Um hálito, um olhar. Faíscas que podem detonar uma reação atômica. Laura engoliu um aparelho de alta precisão da NASA. Seus ponteiros acusam a menor das presenças.

 

Entretanto, paralelo à irritação, na TPM, o mundo se reapresenta a Laura. É a chance de revisitá-lo numa espécie de maravilhamento trágico. Tudo é tomado em sua primeira vez, como se nunca antes tivesse acontecido. Diz ela: “Eu não tenho nenhuma casca ou película de proteção! Na tensão pré-menstrual, sou Clarice Lispector!”. Ótima definição, em silêncio eu penso. Certamente é insuportável ser Clarice Lispector mais que três segundos na vida inteira, mesmo com um cardiologista plantado ao nosso lado… Explico.

 

2 – Acreditar chorando

Em fila, bem na porta de entrada, alojadas na extremidade perceptiva do psiquismo de cada um de nós, há cargas de inédito que, pela singularidade, têm potencial para nos esmagar, se ousarmos percebê-las. Cuidado! Cutucada sem escudo, a verdade é mortal. Toda cautela é pouca!

 

Há muitos recursos e armas para que a gente amorteça o mundo, para tornar suportável habitá-lo. A rotina é uma dessas armas. O hábito, outra. Hierarquias. Ordens. Rituais. Lógicas. Esquemas. PowerPoint. Excel! E há muitas armas mais. Anestesiamo-nos diariamente (coisa que Lispector surpreendentemente não faz). De outro modo, sem anestesia, enlouqueceríamos diante da intensidade de tudo. Diante da transitoriedade de tudo. Diante do fato de que ninguém se banha duas vezes no mesmo Nilo… Diante do fato, enfim, de que a vertigem é sempre maior que a linguagem.

 

Em “A hora da estrela”, Lispector escreve: “Não se pode dar uma prova da existência do que é mais verdadeiro, o jeito é acreditar. Acreditar chorando”.

 

Note-se aí, justamente, na essência, a ideia de “suspensão da descrença”! Para os artesãos do teatro, esse seria o ideal de plateia. A plateia que todos desejamos: que se coloca sem pele e acredita piamente em tudo o que vê. E que acredita chorando. Uma plateia em permanente TPM…

 

Devemos erguer um cálice de vinho e um busto em homenagem ao espectador desconhecido! Traumatizável. Poroso. Enganável. Aquele que se deixa afetar pelo que se passa no palco. Não é esse o jogo que o teatro propõe? Dissolver as defesas é a condição para fruir as produções do campo das artes, em quaisquer de suas modalidades, não só no teatro…

 

Mas não seria essa também a posição dos artistas que criam? De modo que possam surpreender-se com os achados – e descobrir algo que não sabiam previamente? Há algo mais estéril do que descobrir em nossas pesquisas aquilo de que já sabíamos de antemão?! Os deuses do teatro só dão poder àquele artista que se deixa machucar, que se deixa conduzir por uma curiosidade maldita, que o leva a perscrutar o além, o susto, o proibido, o secreto, desafiando assim as verdades… Nos processos criativos, há um labirinto de perigos. Nesse percurso torto, o trauma é mais que mero tempero…

 

Se a situássemos num mapa, a criatividade ocuparia uma posição de borda. Uma zona difícil de sustentar, obrigando aquele que cria a experimentar o limite do abismo. Estando assim na iminência de cair, de errar, de se desestabilizar. De se perder. Alojado no desconforto. 

 

Para encontrar a potência criativa, o teatro se põe em crônica TPM. Criadores, espectadores, atores, atrizes, iluminadores, sonoplastas, diretores, dramaturgos, figurinistas, cenógrafos, todos juntos, sintonizando os canais mágicos da tensão pré-menstrual, aquela que cutuca a verdade sem pele nem escudo protetor. Salto triplo mortal…




 

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