“Teatro precisa se unir e lutar”, diz Guilherme Bonfanti

Publicado em: 22/06/2020

Um dos mais importantes iluminadores do teatro brasileiro contemporâneo, com trabalho em forte diálogo com a cidade no Teatro da Vertigem, Guilherme Bonfanti, coordenador do curso de Iluminação da SP Escola de Teatro, acompanha com atenção dos desdobramentos dessa quarentena para a atividade teatral. 

Nesta entrevista ao jornalista Miguel Arcanjo Prado, o paulista de Leme de 63 anos compartilha como encara este período de pandemia, fala sobre o ensino online, conta como foi crescendo na profissão e ainda dá dicas a quem deseja seguir esta profissão ou mesmo apenas fazer uma boa iluminação nas lives, que se tornaram cada vez mais populares nesta quarentena. 

Defensor do teatro de grupo, ele ainda revela o que deseja neste momento e pede união da classe teatral e luta por maiores incentivos governamentais. 

Leia a conversa:

Miguel Arcanjo Prado – Como você tem encarado este período da quarentena?

Guilherme Bonfanti – No começo, foi muito difícil. Tenho dois filhos, Camilo Bonfanti, já adulto que vive com sua companheira Luiza Conti, e Maria Piedade, 17 anos, faz 18 agora dia 19 de junho, em plena quarentena. Se 18 anos é importante, imagine a memória de ser no meio da pandemia. Bem, no início decidimos, que ficaria sozinho, para termos certeza que estávamos bem. Aí foi difícil, ficar mais de dez dias sozinho, absolutamente isolado, sem ver minha filha, meu filho e amigos. A solidão sempre me assustou. Me separei de Marisa com 28 anos de vida juntos, mas creio que no meio disto tudo descobri que poderia estar sozinho. Ficar sem o exercício de minha profissão, criar luz, tem sido o mais difícil. Descobri, logo no início, que deveria dar tratos a uma ideia antiga de pesquisa sobre a luz no Brasil e ai criei o Lighting Studio e no dia 26 de março iniciamos uma série de entrevistas com profissionais de luz, que já está na sua 32ª entrevista. Isto me preencheu completamente. Todas as terças e quintas tenho entrevista, tem sido conversas muito boas. Aí as coisas foram se ajeitando. Me pergunto agora como será voltar ao convívio social.

 

Miguel Arcanjo Prado – Qual você acha que deva ser o presente e o futuro do teatro?

Guilherme Bonfanti – O presente são as tentativas, legítimas, que estamos vendo. Acho que os atores são os que mais se afetam com a distância dos palcos. Ator precisa estar em cena e as tentativas têm sido interessantes de ver. O trabalho feito pelo Magiluth, Paixões da Alma com Claudia Missura, o trabalho do Matheus Nachtergaele e tem a estreia do Satyros que ainda não pude ver. Creio que são as possibilidades de estar “em cena” que estamos descobrindo. Se no futuro será isso, eu não creio. Acho que a presença ainda é uma necessidade do teatro. Não podemos negar que o virtual entrou forte em nossas vidas, mas não creio que seguiremos assim. Devemos ter um período em que as coisas serão híbridas e acho que muitos irão incorporar esta possibilidade, do virtual, mais fortemente. Fico pensando no Teatro da Vertigem, grupo do qual faço parte, como seria um site specific virtual, perder a experiência de estar dentro do Rio Tiete, sentir o cheiro, ver a água, ou ir para as ruas do Bom Retiro e caminhar à noite com o bairro deserto. Acho que estas experiências não acontecem no virtual, ainda não podemos prescindir da presença.

 

Miguel Arcanjo Prado – Como está sendo coordenar o curso de Iluminação da SP Escola de Teatro de forma online? 

Guilherme Bonfanti – Tem sido difícil, achamos algumas possibilidades que já havíamos trazido pro curso. Exercícios de observação da luz natural, aulas de software, e o Lighting Studio virou atividade do curso também, o que enriqueceu a discussão sobre processos criativos, estética e o entendimento do que é criar. O problema, como dissemos em reunião, foi ter trocado o pneu do carro em movimento. Creio que estamos aprendendo. A pandemia os afetou bastante os estudantes, e muitos têm problemas com conexão, o que dificulta a participação. Creio que temos que entender mais esta linguagem e que alguns conteúdos não cabem no virtual.

 

Miguel Arcanjo Prado – A quem ficou paralisado nesta pandemia, o que você tem a dizer?

Guilherme Bonfanti – Que temos que ter muita calma e buscar alternativas para conseguir lidar com a frustração, o medo e as incertezas. Não se isolar, buscar os amigos e amigas, conversar, trocar, buscar estar em movimento, com sua vida doméstica e com as possibilidades de resolver aquilo tudo que ficou parado. Temos que entender que isto tem um ciclo e vai acabar.

 

Miguel Arcanjo Prado – Tem muita gente fazendo lives e teleconferências hoje em dia. Qual dica você daria como especialista em iluminação?

Guilherme Bonfanti – Acho que é importante olhar pro ambiente onde você está e pensar nas possibilidades. Que horas isso vai acontecer, quais recursos tenho nas mãos, como posso criar uma ou duas situações diferentes, como posso tratar o ambiente e criar planos? Pensar nos recursos que tenho nas mãos, sempre lembrando que aquele plano que não tem luz passa a ser nada, então, sempre tente expandir a imagem para o espaço, não só em você.

 

Miguel Arcanjo Prado – Quem foram seus grandes mestres?

Guilherme Bonfanti – Engraçado esta pergunta, pois nas entrevistas percebi esta presença forte do mestre em algumas gerações. Creio que tive uma pessoa com quem trabalhei que foi muito importante pra mim: a Cibele Forjaz, mas não a colocaria como mestre, pois estávamos descobrindo a luz juntos. Ela vindo da universidade e eu na técnica. Mas creio que meu caminho foi solitário e como encontrei Antonio Araújo logo no começo de minha trajetória, acabou que o próprio Vertigem foi me colocando em situações em que fui obrigado a estudar, pesquisar e fazer frente aos desafios. Depois de um tempo, me encontrei com Paulo Mendes da Rocha, que me levou pra fazer as Bienais e alguns projetos de arquitetura, aí também pude aprender. Creio que meus mestres não são da minha área, mas de áreas que fui trabalhar e a partir do convívio e de perceber como entendem a luz me fizeram pensar sobre o uso dos equipamentos, as questões ligadas à estética, atmosferas e o sentido de usar a luz aqui ou ali.

 

Miguel Arcanjo Prado – O que mudou para melhor na iluminação desde que você começou? E o que era melhor quando começou e a seu ver piorou?

Guilherme Bonfanti – Não vejo pioras, vejo somente melhoras. No campo tecnológico só tivemos avanços, no campo da formação idem e no campo ético ainda patinamos. O avanço do teatro de grupo foi muito positivo para quem faz luz e está ligado a um grupo, pois tem a possibilidade de ter um trabalho continuado pesquisar e experimentar. Aí sim a luz dá saltos e avança na linguagem, por isso, considero o trabalho de grupo um aliado à iluminação. O avanço tecnológico permitiu aumentar as possibilidades de criação e uma diminuição de tempo de preparação/montagem para a luz. Surgiram softwares de desenho, 3D, possibilidade de pré-gravação, possibilidade de se preparar melhor para o trabalho no local de montagem. O que sinto que falta mudar é um olhar mais generoso para o novo, ainda existe muita dificuldade de absorver os avanços tecnológicos. O teatro, na luz, ainda é muito conservador e tem receio desta mudança que está em curso.

 

Miguel Arcanjo Prado – O que é indispensável a um bom iluminador?

Guilherme Bonfanti – Creio que uma cultura geral. Existem os conhecimentos específicos dos equipamentos, softwares, mas isso se aprende ou você pode ter parceiros que dominam. A questão do conhecimento geral é fundamental. Como lidar com imagem, estética, se você não frequenta cinema, artes visuais, shows, fotografia, óperas e o próprio teatro, sem falar em filosofia, literatura, sociologia. Penso que quem se dedica à criação faz uma opção pelo viés artístico da profissão, então, é preciso ter uma visão de mundo, estar antenado com o que acontece e ter opinião. Além disso, tem a questão do olhar, da observação aguçada para o dia a dia. Na nossa área não existe um desligamento, estamos o tempo todo captando, visualmente, imagens e criando repertório.

 

Miguel Arcanjo Prado – O que você deseja neste momento ao teatro brasileiro e aos seus profissionais?

Guilherme Bonfanti – Que continuemos organizados, que ninguém desista de lutar para pressionarmos os governantes a mudar esta situação da ausência de incentivos. Acho também importante não se abater. Veja o quanto avançamos com o movimento Arte contra a Barbárie. Acho que o caminho é continuar fortalecendo o teatro de grupo. Isso movimenta a linguagem, cria atritos interessantes. Acho que não temos saída se não nos unirmos e lutarmos.

 

CULTURA EM CASA

Assim como outros equipamentos, a SP Escola de Teatro criou uma programação especial na internet para oferecer ao seus seguidores. Assim, está disponível uma série de conteúdos multimídia, como vídeos de espetáculos e de palestras e bate-papos de nomes como as atrizes Fernanda Montenegro, Nathalia Timberg e Denise Fraga, a monja Coen, a escritora Adélia Prado e o pastor Henrique Vieira, além de cursos gratuitos a distância.

O acervo ainda inclui filmes produzidos pela Escola Livre de Audiovisual (ELA) – iniciativa da Associação dos Artistas Amigos da Praça (Adaap), gestora da SP Escola de Teatro – em parceria com instituições internacionais, com a Universidade das Artes de Estocolmo (Suécia).

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