Espetáculo Tormento exercita novas linguagens para poder contar uma boa história

Por Luiz Vieira *

Uma nova linguagem está surgindo no meio artístico por conta da pandemia imposta pelo novo coronavírus. É teatro? É TV? Cinema? Talvez um exercício de todas essas três juntas potencializadas pela vontade de contar uma boa história. Mas claro, isso fica muito mais interessante quando se tem um elenco entrosado e disposto a produzir. Tormento, espetáculo da Clotilde Produções Artísticas (SP), nos convida a descer ao inferno e sentir algum tipo de empatia pelas desgraças humanas após a morte – ou rir delas.

Inspirado na peça teatral Entre Quarta Paredes, de Jean-Paul Sartre, escrita em 1944, e obras de artistas como David Linch, José Mogica Marins, Matisse e Marilyn Manson, Tormento é resultado de improvisos e processos artísticos organizados em um texto que dialoga com questões históricas atuais.

Com um elenco de peso que se divide entre Rio de Janeiro, São Paulo e Curitiba, composto pelas atrizes Fernanda Viacava, Rosana Stavis e o ator Márcio Mariante, a narrativa do espetáculo virtual começa em um local estranho, mas, ao mesmo tempo, familiar, e com uma noção de tempo bastante dúbia, sem o menor consenso entre as três personagens que estão numa espécie de cativeiro sendo filmadas e recebendo orientações de uma voz em off.

A dramaturgia e direção de Eucir de Souza é extremamente inteligente e usa a plataforma Zoom a favor da sua história. A direção de imagem fica por conta de André Grynwask, que propõe uma estética e edição à la Big Brother Brasil, porém distópico. Eneida de Souza assina a produção do espetáculo.

Espetáculo Tormento. Foto: Reprodução

A sinopse não entrega muito, contudo, o interessante do enredo é, de certo modo, o mistério. Duas mulheres e um homem. Condenados. Trancados. Forçosamente conectados a uma reunião on-line. O que aconteceu? Por que eles estão assim? Nus. Abandonados. Estão mortos? Que lugar é esse? Quem são eles e como chegaram até aí?

Aos poucos, a narrativa vai nos dando algumas pistas do que realmente aconteceu com José Garcia, Rosa – personagem inspirada na história da pastora e deputada federal pelo Rio de Janeiro Flordelis, segundo a atriz Fernanda Viacava – e Stella Saparolli.

José Garcia apresenta-se como empresário da saúde e administrador de clínicas particulares e públicas, onde desviava dinheiro destinado à compra de insumos como máscaras e álcool gel. Morreu por esquecer de usá-los em si próprio durante a pandemia.

Rosa, uma espécie de caça talentos, fazia trabalhos beneficentes em comunidades periféricas e oferecia books de graça às crianças, mas foi acusada de pedofilia e morreu asfixiada depois de duas delas deixarem o gás ligado enquanto ela dormia.

Já Stella é uma diva, uma estrela, nunca trabalhou. Amava sua vida de mulher rica e tratava seus funcionários como lixo. Agrediu uma de suas empregadas e nunca foi denunciada. Como poderia? Um dia pegou Covid-19 e foi abandonada por todos. Morreu sozinha.

Percebe-se, aqui e ali, as denúncias que o texto faz às monstruosidades cotidianas normalizadas por um sistema hipócrita, capitalista, sem pudor e sem valor ético. A última cena fecha com chave de ouro o espetáculo ao provocar o espectador colocando os três subalternos exaustos olhando fixamente para a tela do Zoom com um barulho de trem ao fundo. Ficam no ar algumas questões recorrentes: para onde vamos depois da morte? As consequências dos nossos atos aqui na terra nos levarão para o céu ou para o inferno? Qual trem poderemos pegar?

* Luiz Vieira é ator e jornalista, tem 25 anos, natural de Carbonita – MG. Veio para São Paulo com o objetivo de ser artista e influenciador cultural, buscando sempre levar conhecimento e informação àqueles que não se encontram dentro de bolhas sociais privilegiadas. É diretor e curador do site www.responderfazendo.com e do perfil @responderfazendo

O ator e jornalista Luiz Vieira, do @responderfazendo, um dos 12 comunicadores convidados da Mostra Aldir Blanc na SP Escola de Teatro - Foto: Edson Lopes Jr.

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