Papo com Paroni | Um anjo contra o limbo

Publicado em: 17/03/2014

* por Mauricio Paroni de Castro, especial para o portal da SP Escola de Teatro

 

Com Paulo Goulart, progride no tempo a ausência de mais uma tradição do teatro convencional: as famílias de profissionais do palco. Nossa arte não sobrevive sem o dia a dia, e as famílias de teatro disso tiravam vantagem. As ditaduras sempre souberam muito bem da coisa, e quebraram tal dia a dia pelo operato sutil e diabólico de uma censura, quando não estatal, econômica. A família de Goulart é exemplo de resistência, ao viver e lutar contra essa condição, no passado sob a censura estatal militar e, no presente, econômica. O teatro viável economicamente é só o de fim de semana – ou o musical. Mesmo estes, com pesados aportes de dinheiro público.

 

Há algo mais nessa resistência. Além da óbvia paixão pelo palco, a morte do ator revelou uma espiritualidade familiar muito superior àquele clichê – Deuses do teatro – que a maioria dos enunciadores que os têm prontos para a facebooklândia fúnebre nem saberia citar os nomes.  

 

***

 

Passado, presente e futuro travam uma batalha infinita na mais impermanente das artes: o teatro. Este, paradoxalmente, funda sua eternidade na efemeridade humana. Mesmo aquelas formas mais convencionais, que não prescindem do texto fixado no papel, só existem enquanto teatro ao transferirem, durante os espetáculos, o seu suporte principal ao ator e ao público.

 

Confundimos o teatro e a vida. O teatro e a morte. O teatro e o tempo. Na Idade Média árabe, o teatro sequer era concebido enquanto reprodução artística de uma forma diferente do mero cotidiano. Não por acaso, Pirandello, o dramaturgo da terra mais árabe do Ocidente, a Sicília, trabalhou sobre o drama da dissolução da personalidade na improvável trama do dia a dia.

 

Uma fictícia “morte do teatro” parece aproximar-se, inelutável. Mas há quem sopre um viés de ordem e oxigênio nessa confusão para demonstrar a falácia. Refiro-me ao intelectual que, na primeira metade do século XX, escreveu sobre a reprodução da arte, ao associá-la a uma singular visão messiânica: Walter Benjamin (1892-1940). Sobre o desparecimento das coisas e existências através do progresso e do tempo, deixemos que ele mesmo se pronuncie neste trecho do ensaio “Angelus Novus”:

 

“Há uma pintura de Paul Klee (*) chamada Angelus Novus. Mostra um anjo como que prestes a se afastar de algo que contempla fixamente. Seus olhos estão arregalados, sua boca aberta, suas asas estendidas. Isto é como Alguém imagina um anjo da história. Seu rosto está voltado para o passado. Onde nós percebemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma única catástrofe, a empilhar destroços sobre destroços e arremessa-los aos seus pés. O anjo gostaria de parar, acordar os mortos e cuidar do que foi destruído. Mas uma tempestade “sopra do Paraíso”; surpreendeu as suas asas com tal violência que o anjo não pode mais fechá-las. A tempestade o empurra irresistivelmente para o futuro, ao qual ele está de costas, enquanto o amontoado de escombros diante dele cresce na direção do céu. Essa tempestade é o que chamamos progresso.

[Tradução Mauricio Paroni de Castro]

 

Este era um quadro que ele sempre considerou o seu bem mais importante. Marxista de releituras sugeridas pela tradição judaica, Benjamin era, como o cineasta e esteta italiano Pier Paolo Pasolini, um crítico acérrimo da sociedade de consumo. Ambos atacaram o poder soviético e qualquer demagogia ou dogmatismo ideológico de partidos aos quais nunca se alinharam. Em 1940, para não ser capturado pelos nazistas, Walter Benjamin cometeu suicídio.

 

Através de fragmentos, notas e ensaios dispersos, execrava qualquer sistema exaustivo “determinador de sentido dentro do espaço das grandes cidades”. Um exemplo é “Rua sem saída” (Einbahnstrasse, 1928). Há, ali, como que um guia para o que e chamo de “cartografia emocional”. O meu atelier de pesquisa teatral, o Manufactura Suspeita, desenvolve este método há anos em seus espetáculos: a deriva. Um artigo sobre como esse percurso parte de Benjamin pode ser visto aqui.

 

***

 

Com os meios de comunicação presentes na história contemporânea, a difusão do consumismo industrial ficou radical. Nem o anacronismo da Coréia do Norte pode fechar-lhe as portas. Em suas teses sobre a Filosofia da História, a mística crítica de Benjamin desestrutura fundamentos do historicismo progressivo marxista, sucessor da visão cristã/paulina/linear tempo. Sua visão messiânica da história qual eterno desejo de redenção de um futuro para onde a Humanidade é levada, a despeito do tempo e do progresso, supera as tragédias e horrores do mundo.

 

Um artigo do Professor Alessandro Alfieri (**) traz uma excelente síntese descritiva da problemática contida no ensaio. Segundo a sua visão, “Angelus Novus” nos faz ultrapassar certas sedutoras fantasmagorias estalinofascistas que anestesiam qualquer pensamento crítico. As ruínas da história são mudas, não se justificam e não adquirem dignidade, por não passarem de meras histórias de sangue. Por esta razão, o Anjo da Klee parece angustiado. Há uma inversão da tradicional relação entre passado e presente: o passado é um fluxo de acontecimentos tão importante quanto o futuro, ao qual inevitavelmente somos empurrados. É como um “outro lado” do presente, resultante a partir dele. São como pequenos acontecimentos cujo lugar privilegiado é a metrópole moderna, que Benjamin amava flanar, onde a percepção contínua choque. A propósito, sugiro uma digressão a um artigo especifico que escrevi sobre teatro e ruínas urbanas, disponível no site Cronopios. 

 

***

 

O que temos a ver com isso? Observar e enfrentar esteticamente essa incessante agitação formal pode ensejar fugazes momentos de êxtase, as “epifanias de sentido”. Pode nos manter longe da mercantilização perpétua e inautenticidade de nosso improvável cotidiano consumista.  Faz-nos olhar através de fragmentos de tempo que revelam seus desvalores, além das alegorias de uma possível libertação.

 

Basta pensar em nossas cidades, que deixam escombros por onde “progridem”.  Naquele passado e na presente tempestade que “sopra no Paraíso”. Por que não estendermos a imagem de Klee, com os devidos “distinguos” para as intenções éticas e estéticas dos limbos criados e arquitetados pelas hidrofobias mais abjetas? Sugiro uma lista que o leitor pode  se divertir ao completar: neofascistas do big brother, modismos repentinos, pseudocríticos distribuidores de subvenções ideologizantes, renúncias fiscais organizadas por marketing de direita e de esquerda, efemeridades televisivas, consumo exacerbado, religiosidade de resultados, corrupção, demonização da sexualidade, confusão entre performance e escândalo autopromocional, hipocrisias coletivas, mercantilização da criança, misticismo empregatício, elogio institucional da ignorância, deseducação política, ditaduras, extermínios, guerra. Limbo. Morte civil. Um eterno amontoar-se de escombros.

 

 

(*) Ernst Paul Klee (1879 – 1940) foi um pintor de pai alemão e mãe músicos. Depois ocupar-se com música, poesia, pintura, finalmente, escolheu última forma de expressão para viver a uma das maiores experiências estéticas do século XX. A pintura Angelus Novus, de 1920, está no Jerusalém Israel Museum. Angelus Novus também foi uma famosa revista publicada de 1964 a 1971, sobre crítica e estética, editada por Cesare De Michelis e Massimo Cacciari, que foi Prefeito de Veneza.

(**) Alessandro Alfieri (Roma, 1982), cujo artigo resumi neste parágrafo, é ensaísta e crítico. Doutorado em Filosofia e Ciências Sociais da Universidade “Tor Vergata” professor de Estética na universidade “La Sapienza” de Roma publica ensaios sobre filosofia e cinema, e leciona na Itália e na Inglaterra. O artigo se Intitula Angelus Novus: O Anjo Redentor de Walter Benjamin – Tempo messiânico e imagem dialética”.

 

Bibliografia:

Walter Benjamin: “Theses on the Philosophy of History” (1940), traduzido para o português em “Iluminações” (1968, 1973). Introdução de Hannah Arendt.

Gersholm Scholem: “Walter Benjamin and his angel’, em: “On Walter Benjamin: critical essays and reflections (1988)”, editado por Gary Smith

 

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