Papo com Paroni | Memento Mori

Publicado em: 16/03/2017

Mauricio Paroni, especial para a SP Escola de Teatro

 

Encanto-me com a conversação, arte fundamental das relações humanas civilizadas. Ela nos diferencia dos animais selvagens – mesmo que haja humanos muito menos civilizados que aqueles, quanto à convivência neste mundo. Para ser arte, precisamos de duas simples categorias: a palavra (sobre isso trataremos no próximo artigo) e a consciência racional da morte. Procuro as duas, sistematicamente, na arte. 

 
Amo ensejar – em palestras, espetáculos, filmes e até nestes artigos – o que chamo de Memento Mori: uma relação teatralizada no limite entre a convencionalidade e a performance. Estamos longe, aqui, da falsa dicotomia narração versus performance. É narrativa por ser performática.
 
O termo Memento Mori significa: “Lembre-se de que você é mortal”; ao pé da letra, “Lembre-se da morte [de si]”.  Entre as classes populares romanas, ainda se diz que essas eram as palavras constantemente sussurradas pelo escravo que sustentava, nos triunfos, uma coroa de louros sobre a cabeça do filósofo e imperador romano Marco Aurélio (121-180 d.C.). Não foi acaso que este tenha sido o único imperador a ver também um ser humano num escravo.
 
***
 
Costumo utilizar três movimentos numa relação dialógica: 1. Enunciação de convicções íntimas diante do público interlocutor (ou enunciação da figura simbólica dos atores, se estiver em questão um evento teatral): 2. Textualidade convencional; 3. Valoração pessoal dos elementos participantes por meios expressivos que variam da confissão à máscara social.
 
Um Memento é diferentemente conduzido de acordo com cada interlocutor. Se ocorrer no teatro: conduzido pelo diretor, codiretor ou pelo dramaturgo do texto originário. Para ser um Memento Mori, o evento teatral deve induzir a um percurso de satirização do destino de todos os presentes em direção à morte. A orientação do Memento será cômica, provocativa e respeitadora do sossego físico do espectador. Tal sinopse inicial do condutor contribuirá para a compreensão do que foi vivido no percurso com os artistas presentes. Entretanto, estes não deverão fechar a obra num fastidioso caráter de tese ou numa demonstração do seu aspecto performativo.
 
Na atualidade, a fruição fechada da arte incentiva os seus realizadores a se distanciarem da tradição artesanal em nome de um intelectualismo falacioso. Promove simulacros enganosos em lugar de simulação renovadora.
 
Portanto, o condutor falará diretamente ao público antes da representação. Falará – não escreverá, em programas cheios de propaganda que ninguém tem a paciência de ler – sobre a dívida contraída com a própria identidade, autores, temas e textos dos quais partiu a criação. O interlocutor administrará tal dívida. E nos livraremos, todos, da aborrecedora literatice falada que assola muito o teatro.
 
Esta é minha utopia pessoal.
 
***
 
Por enquanto, bastante pragmático, transcrevo uma meditação do imperador Marco Aurélio (*):
 
“Lembra-te sempre de todos os médicos, já mortos, que franziam as sobrancelhas perante os males dos seus doentes; de todos os astrólogos que tão solenemente prediziam o fim dos seus clientes; dos filósofos que discorriam incessantemente sobre a morte e a imortalidade; dos grandes chefes que chacinavam aos milhares; dos déspotas que brandiam poderes sobre a vida e a morte com uma terrível arrogância, como se eles próprios fossem deuses que nunca pudessem morrer; de cidades inteiras que morreram completamente, Hélice, Pompeia, Herculano e inúmeras outras. Depois, recorda um a um todos os teus conhecidos; como um enterrou o outro, para depois ser deposto e enterrado por um terceiro, e tudo num tão curto espaço de tempo. Repara, em resumo, como toda a vida mortal é transitória e trivial; ontem, uma gota de sêmen, amanhã, uma mão cheia de sal e cinzas. Passa, pois, estes momentos fugazes na terra como a Natureza te manda que passes, e depois vai descansar de bom grado, como uma azeitona que cai na estação certa, com uma bênção para a terra que a criou e uma ação de graças para a árvore que lhe deu a vida.”
 
Acho que isso diz tudo.
 
———-
 
(*) cf. Nando Pereira, em Dharmalog.com

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