Papo com Paroni | Strindberg, Camus, Schumann: um acesso

Publicado em: 24/03/2014

* por Mauricio Paroni de Castro, especial para o portal da SP Escola de Teatro

 

Falamos do papel fundamental do artesanato para a obra de arte de palco. Mas sem uma biografia – ou melhor, sem uma autobiografia – comprometida com a urgência de comunicação do drama que é existir neste mundo, não há dignidade nesse palco. Digam-no o fascismo do Big Brother, ou a inautenticidade dos pobres atores obrigados, pela sobrevivência, a propor a pior expressão de si em comerciais de TV, ou mesmo as caretas pseudocômicas sem uma mínima razão que seja fundada num substrato de diálogo com o mundo que se pretende derruir.

 

Comparemos tais horrores a presumíveis horrores biográficos. Adotemos como exemplo um sujeito que nasceu da relação entre um pai pequeno-burguês com a sua empregada doméstica. Que da mãe se envergonhava e o pai odiava por isso. Um adolescente, dedicado à ascese, que tinha um temperamento tímido e submisso. Apesar disso, mais tarde tornou-se anarquista e rebelde. Tentou muitas profissões, foi cirurgião falido, ator tímido que não consegue falar, telegrafista, estudioso da língua chinesa, jornalista, crítico, arquivista, e divorciado por três vezes. Acumulou quatro ou cinco tentativas de suicídio. Artista, desprezava a arte e a considerava mera propaganda de ideias morais.

 

Esse sujeito era o dramaturgo, poeta e escritor sueco August Strindberg (1849-1912). Ao comunicar-nos diretamente a sua angústia existencial, fez a sua revolução formal e social, mesmo sem ter causado uma ruptura. Talvez até por isso. Sua autobiografia “Inferno” une metafísica, drama, ficção e futurologia numa coisa só. “Senhorita Julia” parece escrito para denunciar a condição da maioria das domésticas brasileiras (mas não só delas). Sexismo, pobreza, falta de acesso ao estudo, à saúde, a um projeto de existência. O dramaturgo suíço Friedrich Dürrenmatt (1921-1990), o atualizou à condição de todas as mulheres com um radiodrama memorável.

 

***

 

Ivam Cabral afirma que a acessibilidade está no DNA dos procedimentos educativos da SP Escola de Teatro. Não emprega a palavra inclusão a quem simplesmente precisa de acesso. Com a assertiva, liga as duas pontas da corda: artesanato e autobiografia, responsáveis por levar o artista à expressão de si, de seu meio social, de seus semelhantes e de seus anseios de cidadania e participação.

 

Dias atrás, na Praça Roosevelt, um rapaz africano foi aconselhado a ter a coragem de se dirigir informalmente à Escola para ali realizar a comemoração do dia nacional de seu país natal. Então, representou, sem filtros, o seu país e a sua cultura, a quem nós tanto devemos. A recepcionista – transexual – forneceu-lhe, sem cerimônias, todas as indicações necessárias, além de adverti-lo que precisaria de ajuda para as exigências, instâncias legais e burocráticas. Todos sabemos da relação entre o Estado brasileiro e negros e transexuais.

 

Luta perdida ou não, esse diálogo é a expressão da acessibilidade que, cada vez mais, ocorre na Escola, numa afinidade eletiva não casual. Esta é uma das poucas instituições públicas no mundo onde um transexual não trabalha, com carteira assinada, para explorar a sua sexualidade. Pluralista, acima de ideologias, esta Escola cumpre o sonho biográfico de seus idealizadores: acesso à cultura para todos, por uma sociedade onde a diferença é riqueza cultural e não discriminação. O respectivo projeto educacional também segue esse passo.

 

Quando se menciona a intersecção entre autobiografia e arte, surge a questão da procura de sentido para ambas, e o senso comum nos grita a questão da felicidade. Questão ampla, senão infinita, impossível de ser minimamente exaurida nesta sede. São tantas respostas quanto o número dos habitantes deste planeta. Cada um projeta, realiza ou idealiza a sua.

 

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Tudo isso está muito próximo à biografia de escritor, jornalista, ensaísta, dramaturgo, ator, filósofo (e goleiro) franco-argelino Albert Camus (1913 – 1960). Filho de um pai analfabeto, crescido numa pobreza honrada pelo esforço sobre-humano da mãe, costureira. Chegou ao premio ao Prêmio Nobel de Literatura de 1957, a ele atribuído “por sua importante produção literária, que, com seriedade lúcida, ilumina os problemas da consciência humana em nossos tempos”.

 

Albert Camus

 

Trecho de “Calígula”, peça escrita por Camus em 1938:

 

“Eu queria a lua.”

 

Calígula: o amor ao impossível. O mito de Sísifo: A utilidade atribuída à vida e à dimensão do absurdo dado por ele mesmo. Condenado a empurrar uma pedra que recai eternamente no vale, Sísifo é o homem que tenta dar sentido à sua existência através das ilusões e paliativos, esquecendo-se de estarmos todos “condenados à morte”. Exclui o absurdo e vive na ilusão de dar um sentido à vida, até que inevitavelmente morre.

 

Trechos da obra de Camus:

 

“A verdade, como a luz, cega. A mentira é um crepúsculo que valoriza todos os objetos.”

“Se o mundo fosse claro, a arte não existiria.”

“Os homens morrem e não são felizes”.

 “Respiro a única felicidade que sou capaz – uma consciência atenciosa e cordial. Passeio o dia todo(…) cada ser que encontro, cada cheiro dessa rua, tudo é pretexto para amar sem medida. Jovens mulheres supervisionam uma colônia de férias, a trombeta do vendedor de sorvetes, as barracas de frutas, melancias vermelhas com caroços negros, uvas translúcidas e meladas – tantos apoios para quem não sabe ser só. Mas a flauta ácida e terna das cigarras, o perfume de águas e de estrelas que se encontram nas noites de setembro, os caminhos aromáticos entre as árvores de pistache e os juncos. Tantos sinais de amor para quem é forçado a ser só.”

 

***

 

Robert Schumann (1810-1856) tentou realizar a utopia e a união entre arte e felicidade.

 

“Antigo ditado: Qualquer que seja a idade, felicidade e dor estão misturadas: mantenha-se fiel à alegria, e, com coragem, esteja pronto para a dor.”

 

Robert Schumann

 

Esta epígrafe estava numa edição d’O Davidsbündler (Liga dos irmãos de David). Era uma sociedade de música criada em escritos por Robert Schumann para defender a causa da música romântica contra seus detratores. É meio ao estilo de Fernando Pessoa, pois em parte reais, em parte heterônimos, defendia suas ideias sobre o romantismo contra os “filisteus” da música e louvava sua amada Clara Schumann. Seus dois principais membros, Florestan e Eusébio, eram respectivamente os lados extrovertido e introspectivo de sua personalidade. Schumann também dedicou sua “Davidsbündlertänze” aos seus membros.

 

Apesar da vida curta, foi o compositor mais representativo da música romântica, protagonista numa geração de mestres como Chopin, Liszt, Wagner e Mendelssohn. Era filho de um rico editor, que vivia a tragédia do suicídio de sua irmã. Estudou Direito em Leipzig e Heidelberg e piano sob a orientação de Friedrich Wieck. Um acidente paralisou alguns dedos da mão direita; forçado a interromper sua brilhante carreira de intérprete, restou-lhe a composição. Conseguiu casar-se com sua paixão de juventude, Clara Wieck. Tornou-se diretor de música e concertos em Düssendorlf. Quando os sinais de desequilíbrio mental se agravaram, tentou o suicídio atirando-se no Rio Reno. Passou os seus últimos anos numa clínica perto de Bonn, assistido por sua esposa e os amigos Brahms e Joseph Joachim.

 

Cultíssimo, profundamente ligado à poesia e à filsofia, Schumann inspirava-se na literatura. Propôs a correspondência entre forma e intuição fantástica, como em “Carnaval ” (seja feliz ao ouvi-lo por Claudio Arrau em vídeo no Youtube) e nos Liederen “Amor de Poeta” (Diechterliebe, texto de Heinrich Heine, aqui por Dieskau e Horwitz. Este merece um programa especial do Palavra em Cena, pela beleza absoluta do conjunto sonoro e poético.

 

***

 

“Ser ou não ser: Eis a questão.

(…)

Quem sofreria os relhos e a irrisão do mundo, o agravo do opressor, a afronta do orgulhoso, toda a lancinação do mal-prezado amor (…) Quando alcançasse a mais perfeita quitação com a ponta de um punhal?” (*)

 

Tais ponderações de Hamlet sobre a morte e a existência são parecidas às de Schumann e de Camus. Como todo romântico, Schumann idealiza a felicidade; ao contrário, o Sísifo de Camus vê a impossibilidade de alcançá-la. Schumann tenta o suicídio por seu idealismo romântico. Strindberg faz o mesmo pela ausência desse ideal. Camus diz que a questão séria da filosofia é o suicídio.  Ainda bem que temos a arte e a busca da felicidade e da evolução social em alternativa ao suicídio, certo? Mas cuidado: a morte chega sem a esperarmos. A felicidade também. Como a arte.

 

(*) Tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos

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