Papo com Paroni | Sombras de Shakespeare

Publicado em: 10/02/2014

* por Maurício Paroni de Castro, especial para o portal da SP Escola de Teatro

 

A expressão humana gramatizada no teatro de Shakespeare é um dos grandes responsáveis pela importância central da língua inglesa na História Contemporânea. Obviamente, um autor de tal calibre não pode surgir sem um contexto socioeconômico favorável, sem um Estado necessitado de uma nova gramática de poder, ou sem a amplidão artesanal de seus artistas em simbiose com a expansão existencial de seu público. Entretanto, detalhes jazem à sombra das luzes de tais evidências. Papel histórico fundamental teve a descrição das vicissitudes cotidianas de pessoas comuns.

 

Na pintura, por exemplo, é sempre muito dificultoso encontrar a iconografia do vestuário popular, pois quem era retratado pagava um caro preço aos pintores; estes, aliás, eram profissionais que precisavam sobreviver. Muitos pintores, como os flamengos, retrataram o povo, mas a prática foi uma exceção à regra.

 

No período shakespeareano, as canções populares eram compostas por menestréis em meio à gente comum. Reapropriadas em seguida por bobos de corte, transmitiam todas as notícias de interesse popular direto. Após a estabilização política que se seguiu à Guerra das Duas Rosas (*), uma vertiginosa expansão comercial nas cidades inundou freguesias consuetudinariamente ainda imersas na Idade Média com novidades e propagandas de produtos. Eram divulgadas ideias e invenções que sepultavam um passado que obrigava a consumir os produtos das corporações de ofício medievais – algo como os automóveis nas sociedades neo-emergentes de hoje serem substituídos por um transporte limpo.

 

As fofocas sobre poderosos, ainda que punidas e proibidas pelos censores (**) também foram fundamentais para o redimensionamento dos reis e nobres do governo a seres humanos. Se, por um lado, até hoje tais fofocas sobre amantes de governantes anglo-saxões os pulverizam não pelo seu oficio, mas por um moralismo politicamente inepto, pelo mesmo motivo as teorias de direito divino tiveram vida dura naquela cultura. Shakespeare, Thomas Kid, Ben Johnson, Christopher Marlowe & Co. jamais poderiam escrever o que escreveram fora desse substrato cultural, representado em textos que foram pouco transcritos em in quartos e in fólios (***) por terem sido transmitidos verbalmente.

 

Há um caso extremo: nenhum texto teatral da época descreveu tão bem aquele mundo popular como “A lamentável e verdadeira tragédia de M. Arden de Faversham em Kent.” Anônimo, acabou classificado no Shakespeare Apocrypha (Apócrifos de Shakespeare), o famoso conjunto de peças e poemas que lhe foram atribuídos mas questionados.

 

Escrita provavelmente entre 1587 e 1597, a peça narra um acontecimento de uns 40 anos antes, conhecido como o homicídio de Arden: um proprietário de terras foi assassinado pela jovem mulher Alice e seu amante Mosby. Ela decidira assumir o amante diante do próprio marido, para depois fazê-lo assassinar por comparsas. Um deles, Black Will, tem esse nome por uma ironia não casual a Shakespeare. A seguir, a cena em que lamenta a própria reputação posta em jogo porque não o conseguiu assassinar. Não há grande período teatral separado de seu público. Veja-se como o trecho descreve a tensão social pela segurança, muito parecida com a que ainda hoje estamos imersos.

 

Black Will

Mestre Greene, desde quando aconteceu de eu levar tanto tempo assim para matar um homem?… você sabe, Greene, que faz já doze anos que eu vivo em Londres, onde eu fiz andar de muleta mais de um sujeito que não tenha me dado passagem e que muitos outros tiveram que remendar o nariz com prata só por ter dito “olha o Black Will!”  Quebrei tantas lâminas de faca quanto você quebrou nozes… (…) O bordéis me pagavam percentagem: não tinha puta oferecida na janela que não fizesse programa em acordo comigo.  Teve dono de taverna que levou um furo de espada na bochecha para cada ofensa que lhe escapou da boca e depois foi pendurado pelas orelhas até que toda a cerveja que bebeu não lhe tivesse vazado pelo mesmos furos. Na Thames Street, a carroça de um cervejeiro quase me passou por cima… quietinho, quietinho, fui atrás do sujeito e quebrei na cabeça dele todas as traves com as respectivas contas dos clientes penduradas. Por falar em pendurar, junto com os meus comparsas, pegamos um guarda noturno que estava de serviço e o empalamos numa vara. Quebrei o focinho de um sargento com o seu próprio cacetete. Só confio na minha espada e no meu escudo. Todos os taverneiros de quinta categoria que já de manhã estavam na porta com o copo na mão me diziam “Vossa Senhoria gostaria de beber um gole?” E quem fugisse a essa obrigação podia ficar certo que teria o anúncio da porta derrubado, assim como seriam levadas as venezianas logo na noite seguinte. Para finalizar: o que é que eu não fiz? Mas eu não consigo fazer isso. Sem dúvida ele escapou por puro milagre.

(tradução e adaptação de Maurício Paroni de Castro)

 

(*) A guerra civil ocorrida por três décadas na Inglaterra do século XV entre as famílias York (rosa branca) e Lancaster (rosa vermelha). Ricardo, duque de York, uniu-se a outros senhores da guerra pela derrubada de Henrique VI do trono. Com a morte de Ricardo em batalha, o vencedor, Tudor, coroado como Henrique VII, pôs fim ao conflito, ao se casar com Isabel de York, unindo as duas famílias.

(**) Shakespeare e seus contemporâneos foram muitas vezes inquiridos por seu trabalho, às vezes com terríveis consequências. O governo não censurava as piadas, mas eram muito preocupados com levantes políticos e infrações religiosas. Dramaturgos eram gente suspeita por poderem plantar ideias de forma sutil às massas. Qualquer peça tinha de ser aprovada para a encenação pelo Master of Revels (mestre das festas), que nelas procurava qualquer ideia de sedição possível.

(***) Do latim, literalmente significa “na folha” – termo técnico de encadernação que é usado para indicar um livro cujas folhas impressas foram dobradas uma vez ao longo do lado mais curto, perfazendo quatro lados.

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