Papo com Paroni | Preconceito e crianças: criancismo

Publicado em: 27/01/2014

* por Maurício Paroni de Castro, especial para o portal da SP Escola de Teatro

 

Em 1989, ao vir para o Brasil de férias, horrorizei-me com sobrados sufocados por rochas de isopor das quais partiam simulacros de monotrilhos. Alguns deles ostentavam imagens de Xuxa em meio a simulacros de torres. Eram os bufês infantis, a estender os domínios de residências transformadas em pequenas fortalezas. Templos do horror, são projetados para um ritual de transmissão hereditária de frustrações adultas disfarçadas de festinhas. Vinte e cinco anos depois, os pingos nos is se colocaram ao ler “Criancismo: para enfrentar o preconceito contra crianças” (Childism: Confronting Prejudice Against Children), de Elisabeth Young-Bruehl.

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Vamos direto ao assunto. O que é criancismo? “Um sistema de crenças que constrói o seu alvo – a criança – como um ser imaturo, um produto de propriedade de adultos, usado para servir suas próprias necessidades e fantasias.” Crianças vistas como fantoches de propriedade de adultos, que fazem com elas o que quiserem. O preconceitocontra crianças não seria a única causa dos maus tratos a elas, mas conditio sine qua non para tal. Há a questão da estereotipização da infância, de como se força a criança a ter participação política direta, explorando-a, ao invés de ser educada para tal quando for adulta.

 

Embora Elisabeth Young-Bruehl escreve muito sobre os EUA, é superficial pensar que a problemática seja exclusiva dos EUA. Trata-se, muito mais, de um veemente libelo educativo mundial contra o medo dos adultos em relação às crianças. O começo dessa ideia central do livro se baseou na experiência da filha de Freud – Anna – com o relato das crianças sob os bombardeios da Segunda Guerra. (*) Passou a ensinar juízes e advogados a ouvirem as crianças para melhor instruírem processos judiciais, uma contribuição à melhora daquele mesmo liberalismo político de Tocqueville e cia., responsáveis pela Constituição Americana. Arendtiana (**), Elisabeth defende grupos sociais reprimidos, ao pugnar pelo aperfeiçoamento da democracia pela organização da sociedade, contra qualquer autoritarismo. É muito diferente dos mimos materialistas, da criação de nichos de mercado, dos hábitos de consumo ou das tentações autoritárias estatizantes que são propostas quais soluções pseudolibertarias, mas descambam num poder político acima do controle de quem criou.

 

Elisabeth Young-Bruehl

 

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Mais um ismo? Ainda que indutores de indesejáveis e eventuais generalizações, hoje seria impossível perceber o mundo que nos cerca sem o reconhecimento dos “ismos”. O leitor experimente pensar em si, em sua psicologia, em seu quotidiano, ou em seu projeto existencial sem algumas dessas palavras: cristianismo, protestantismo, machismo, realismo, feminismo, comunismo, modernismo, capitalismo, socialismo, analfabetismo, masoquismo, racismo, galicismo, ateísmo, budismo, cubismo, surrealismo, servilismo, e por ai afora. Estaria fora do mundo contemporâneo.

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A criação de uma palavra para o preconceito contra crianças é considerada fundamental pela autora. Consciente do problema, ela mesma se justifica. “Não precisamos mais de outra verborragia cientificossocial, não precisamos identificar mais novos problemas sociais, já os temos suficientemente. Por isso mesmo, precisamos de uma palavra que estimule uma reação à ideia de preconceito contra as crianças. Até pessoas que querem um mundo melhor para as crianças têm dificuldade em perceber tal preconceito. A palavra grega misopedia (mis=ódio – qual misoginia e misantropia) era empregada por Charles Dickens no século XIX. Procuravam salvar as crianças ‘boas’ da ‘crueldade’. As más a mereceriam, até, e Dickens sabia que havia algo errado nisso: ‘grupos que naturalmente devem servir as necessidades dos adultos’ eram como escravos, servos. Portanto, o termo tem mais a ver com outro tipo de ódio. A perseguição era diferente. Se fizermos uma analogia aos ismos, racismo, antissemitismo e sexismo, o ódio contemporâneo pode ser definido com mais exatidão. Ou seja, coloca-se a atitude enquanto preconceito: o preconceito como a racionalização de uma atitude.”

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Elisabeth continua:

“A história da palavra sexismo, cunhada em 1965, mostra o quanto era importante colocar sob o mesmo guarda-chuva conceitual diferentes atos, atitudes e instituições que tinham como alvo as mulheres enquanto grupo. Se entendermos que a violência doméstica e discriminação salarial contra as mulheres são a racionalização e a legitimação de um mesmo prejuízo, o sexismo, desenvolveremos modos para escrutá-lo e resistir ao mesmo. Sem um conceito de síntese, não se pode ver que pobreza infantil e abuso de crianças têm sua base racionalizada pelo preconceito contra as crianças.”

                                                                                           

Criancismo enfoca muitas formas diferentes de abuso e negligência infantis. Por quê?

– Por que nos recusamos a reconhecer o preconceito contra as crianças como um preconceito? Por que recusamos chamá-lo de preconceito se já nomeamos tantas outras formas de preconceito – racismo, sexismo, etarismo? Primeiro: em situações de terapia, as crianças abusadas e negligenciadas quando crianças ou adultos podem se sentir suficientemente seguras para contar suas histórias e falar sobre como veem seus agressores. Compreender as motivações de seus agressores é crucial para elas, levam o assunto direto a como internalizaram as motivações dos abusadores. Precisam ser curadas dessas internalizações, tanto quanto precisam ser ajudadas diante das condições externas que perturbam seu desenvolvimento. Mas – e esta é a segunda razão – as noções de abuso e negligência infantis, desde a criação, na década de 1960, creio que foram feitas de modo a não se ouvir a experiência da criança abusada e negligenciada. Estavam focadas numa tipologia dos atos sofridos; abuso físico, negligência, abuso sexual e abuso emocional foram classificados enquanto atos. As estratégias de tratamento e prevenção são organizadas em torno dessa tipologia até hoje. Isso tem sido muito prejudicial para as crianças. Não importa o que se pensa sobre os filhos! Importante é patrocinar o crescimento e desenvolvimento deles.

 

O preconceito contra crianças opera da mesma maneira que o sexismo?

– Todas ações contra um grupo-alvo são corretas, necessárias e normais. Nem todos os preconceitos são racionalizações de ações. Pessoas preconceituosas pensam que suas preconceitos são iguais, nem todas as pessoas são preconceituosas – não existe a personalidade preconceituosa. No livro, a autora enfatiza três tipos fundamentais de preconceito. Basicamente: pessoas que desejam se livrar dos membros de um grupo, manipulá-los para serem seus servos; enfim, apagar as suas identidades. As formas são, num certo grau, misturadas. O sexismo é, fundamentalmente, um preconceito do terceiro tipo, mas opera nas três formas. Esta é uma das razões por que tem sido tão difícil de identificar.

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Referências:

 

[1] YOUNG-BRUEHL, Elisabeth. Childism: Confronting Prejudice Against Children.  Yale University Press: 2012).  A autora nasceu em 1946. Cresceu na fazenda da família de sua mãe cidade de Newark, Delaware, onde seu pai, ex-fuzileiro naval, era professor de golfe. Após o colegial, foi para Nova York. Doutorou-se em Filosofia na New School for Social Research em cinco anos, orientada por Hannah Arendt. Amigos emigrados de Arendt pediram-lhe para escrever a biografia que apareceu em 1982: Hannah Arendt – For Love of the World. Por vinte anos, Elizabeth foi acadêmica e escreveu livros, mas um a atraiu para o mundo da psicanálise: Anna Freud – Uma Biografia. Fez a formação psicanalítica com Hans Loewald.  Em Dezembro de 2011, faleceu subitamente de uma embolia pulmonar. O jornal canadense Globe and Mail publicou um obituário muito informativo, aqui disponível:  http://elisabethyoung-bruehl.com/globe-and-mail-obituary/


[2] Em 1941, em resposta ao sofrimento social e emocional enfrentada pelos filhos de tempo de guerra da Europa, Anna Freud fundou em Hampstead um refúgio para uma centena de crianças desabrigadas pelos bombardeios alemães. Era uma residência para crianças consideradas meros “problemas de aquartelamento”, pois ou não podiam ser evacuadas sem suas mães ou tinham dificuldades na adoção. Além da típica prática material dos orfanatos, os pais eram envolvidos em “grupos de família”, em atendimento emocional consistente. O refúgio também proporcionou uma oportunidade única para a pesquisa observacional do compreensão das necessidades individuais e do impacto da violência no desenvolvimento infantil. Infelizmente, hà uma política policial para menores abandonados no Brasil.


[3] Charles Dickens (1812-1870) é um  autor vitoriano Inglês  famoso principalmente pelo seu romance autobiográfico David Copperfield (1848-1850) ;foi também jornalista e repórter de viagens britânica. Escreveu ensaios humorísticos (The Pickwick Papers), romances sociais (Oliver Twist, David Copperfield, Hard Times). Autor prolífico de contos, peças de teatro, novelas , romances  de ficção e não-ficção , durante a sua vida Dickens ficou conhecido pelo seu domínio da prosa na hora de contar suas vidas. Suas descrições das classes sociais, costumes e valores das personagens  o caracterizam como grande  porta-voz do sofrimento dos pobres, e da consciência da situação de oprimidos dos mesmos. É considerado um dos mais importantes e populares romancistas de todos os tempos.

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