Papo com Paroni | Panfleto impossível

Publicado em: 20/10/2014

* por Mauricio Paroni de Castro, especial para o portal da SP Escola de Teatro

 

Entre os tantos temas de “Pessoas perfeitas”, de Ivam Cabral e Rodolfo García Vázquez, há um muito pouco tratado nas artes performáticas: o uso da fé das pessoas comuns. Li o texto escrito no papel. Até este momento, não assisti, propositadamente, ao espetáculo; isso me resguardou da justa fé cênica que os atores põem na performance, mas me consentiu perceber que a dupla voz de cada personagem esconde uma terceira: 1. O personagem ilude-se com suas próprias esperanças e desilude-se com suas relações; 2. Comenta-as com o leitor (público) em primeira pessoa; 3. Na Igreja das pessoas perfeitas, o mundo das ideias de Platão é revisitado numa versão decadentista lembradora da humanidade de Pasolini e sua crítica à arte panfletária.

 

“Pessoas perfeitas aproxima a plateia à vida das pessoas comuns que cometem a hÿbris (*) de confundir religião com igreja. A atitude foi combatida pela poesia de Pasolini, homem de esquerda que teve a coragem de criticar o panfletarismo vazio, ao superar barreiras éticas e estéticas em favor de uma poética livre e necessária à gente comum. Professor de história da arte apaixonado pela cultura mediterrânea, via o teatro como político em si – posto que somos mais de uma pessoa neste mundo.

 

“Pessoas perfeitas” (Foto: André Stefano)

 

***

 

Um poemazinho viral da Inglaterra do século XII, “Pamphilus seude amore” (Pânfilo ou sobre o amor), foi traduzido para o inglês como “Phamphlet”. O termo passou a designar uns textos menores que calhamaços manuscritos. Eram, em geral, difamatórios, historicamente tiveram importância no proselitismo político, religioso ou comercial. Os panfletos foram essenciais para a Revolução Francesa. Enquanto definidores de comportamento e mobilização social, ainda são importantíssimos. As denúncias, as redes sociais, as discussões, os relacionamentos que se truncam, os subtextos, as relações que se estreitam, tudo nos está muito mais próximo do que qualquer partido político, do que qualquer televisão. Acredito que isso tenha seduzido ao panfletarismo muito teatro mais convencional, de palco ou de rua. Mas quando perde complexidade, dimensão existencial e qualidade, vira mera publicidade deslocada de seu meio eletivo, a televisão; não passa de um textúnculo publicitário, qual lista de consumo ou de aconselhamento a modismos. Na sua forma mais presunçosamente elaborada, vira aversão coletivista de um grande livro de evangelismo decaído, fundamentalista e censurador; Uma leitura bíblica de araque que projeta o pior de si mesma e direciona a sociedade ao autoritarismo.

 

(Ler o artigo sobre Ephraim Lessing e a tolerância entre as três religiões do livro.)

 

***

 

Na modernidade, a separação entre Religião e Estado é fundamental. Até no teatro. Este nasce se adquire uma vida independente da fé religiosa. O ator vira paradoxal e se separa de sua própria fé cênica no momento da representação (ver Diderot), enquanto o público procura o fervor crédulo. A maioria das igrejas não tolera o teatro pela concorrência desvantajosa. Estado e igreja inseparados são uma característica das ditaduras fundamentalistas que ressurgem. Mais que histerias coletivas, suas manifestações de massa são perfeitas performances teatrais de cultos fundidos a convicções religiosas descontextualizadas de seu tempo.

 

Fora da História, a ideia de ditadura na versão pós-moderna se juntou a esse caldo para, decênios após aqueda do Muro de Berlim, sobreviver sob ingênuas barbas do credo. A decrepitude hegemônica dessa viúva judaico-islâmico-cristã parece ser ainda a “solução final” para quem ainda vê a sociedade somente sob o prisma das relações de trabalho vividas numa sociedade industrial do século XIX.

O teatro de viés panfletário e o partidarismo vazio de todas as cores têm o jeitão de uma distopia da Terra-Prometida-a-um-povo-eleito. O drama histórico ocidental do século XX quebrou o senso estético super partes da tragédia – e da comédia – de todas as eras anteriores. Nem o simplismo de cartilha do realismo socialista de Stalin, ou do pangermanismo nazista chegaram a tanto. Estamos em zonas polpotistas (**) de revolução cultural chinesa, a loucura absurda daquela luta sanguinária na cúpula do poder no PC Chinês. Estamos diante da massificação da ignorância.

 

***

 

O Capital de Marx ou mesmo o de Thomas Piketty são uma leitura e uma análise poderosas do capitalismo, mas não são as únicas. Uma visão estreita do que se que pretende criticar leva a um linguajar muito distante daqueles panfletos revolucionários de Marat e Danton. Estes criaram os cafés literários da Revolução Francesa; aquela, o terror jacobino que devorou a própria revolução. Em resposta, a contrarreação imperial de Napoleão armou exércitos para destruir os Estados e as servidões do Antigo Regime. Mas a História é bem mais complexa que o panfleto. As pinturas de Francisco Goya (1746-1828) mostram isso, em particular “El tres de mayo”. O cineasta Luis Buñuel (1900-1983) baseou nessa parábola o seu magistral “O fantasma da liberdade”, de 1974.

 

“El tres de mayo”, de Francisco Goya

 

As forças napoleônicas fuzilaram os que, paradoxalmente, vieram libertar do Antigo Regime: soldados-camponeses alistados à força pela Monarquia Borbônica.

 

O panfletarismo é pobre demais para integrar à História tais complexidades inerentes à vida das pessoas. Ao contrário, os deturpa, ao retratar apenas uma parte delas. A morte panfletária deixa o anseio de libertário viúvo da própria liberdade. Colapsa a utopia e a ideologia que carrega; Com ideologias em colapso, as mãos desse viúvo de convicções vazias na aprendizagem do futuro seguem fortes. Somente a reflexão da arte lhes pode opor uma barreira necessária.

 

***

 

Longe da simplificação rasteira, as personagens de “Pessoas perfeitas” sussurram, imperativas, a microrrevolução de sua interioridade afetiva para a observação da nossa vida. Parecem significar cada vez mais a nós mesmos, na medida em que são enganados entre si, enredados na dramaturgia da própria performance de serem representados num palco. Trata-se de pessoas comuns e extraordinárias: não é fácil escrever figuras tão perto da realidade de nossas vidas sem cair num dramalhão de insignificância cênica. Acredito que este seja um marco na nossa dramaturgia. Thornton Wilder (***) está feliz; com ele em mente, tenho um encontro no teatro com Ruy, Sarah, Dona Esperança, Robalo, Cacilda, Maristela, Elder, Binho e Medalha.

 

(*) Hybris (ὕβρις, Ýbris) da Arte Poética de Aristóteles, significa excesso, prevaricação, orgulho. Na urdidura da tragédia, o passado traz efeitos negativos no presente; uma “falha” que viola leis imutáveis e ocasiona desastres, mesmo depois de anos,a grupos e descendentes de quem a cometeu.

 

 

 

(**)Pol Pot (1925-1998)

Liderou o Khmer Vermelho, responsável pelo genocídio cambojano. De família rica, lê “A grande revolução”, de Kropotkin, que descreve a Revolução Francesa como uma revolta camponesa. Pol Pot rebatizou o Camboja como República Democrática do Kampuchea. Na capital, Phnom Penh, os pagodes, teatros e museus da cidade viraram chiqueiros para porcos. Defendia uma sociedade 100% agrária e ordenou a destruição de qualquer rastro de tecnologia. O trabalho começava às 4 horas da manhã e terminava às 10 da noite.Os camponeses recebiam 1 xícara de arroz a cada 2 dias; 90% da classe artística foi exterminada. Matou ¼ da população. (fonte Wikipédia).

 

(**) Thornton Wilder ,1897-1975, autor de “Nossa cidade”, texto sobre a grandeza das pequenas atitudes cotidianas. É notável o seu distanciamento didático formal, incomum no teatro convencional estadunidense.

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