Papo com Paroni | O véu da transparência radical de Hannah Arendt

Publicado em: 20/01/2014

* por Maurício Paroni de Castro, especial para o portal da SP Escola de Teatro

 

 

Central para as ideias libertárias do século XX, esta filósofa foi a orientadora de Elisabeth Young-Bruehl, que estará bastante em vista este ano na SP Escola de Teatro. Vale a pena dar uma repassada no seu amor pela luta contra o preconceito.

 

Judia, Hannah Arendt nasceu perto de Hannover. Cresceu em Königsberg – cidade natal de seu amado Immanuel Kant – e Berlim. Foi estudar Filosofia na Universidade de Marburgo. Teve um caso de amor em segredo com o seu professor, Martin Heidegger. Mais tarde, descobriu as simpatias nazistas deste, das quais dissociou o seu amor.

 

Graduou-se em Heidelberg com uma tese sobre o conceito de amor em Santo Agostinho, sob a tutela do filósofo Karl Jaspers. Em 1933, foi-lhe negado escrever uma segunda tese por causa de suas origens judaicas. Em 1937, encontrou-se com Walter Benjamin em Paris. Durante a estada na França, ajudava fugitivos da Alemanha nazista. Com a ocupação da França e a consequente deportação de judeus para os campos de concentração alemães, emigrou para os Estados Unidos. Já casada com o filósofo e poeta Heinrich Blücher, tornou-se ativista da comunidade judaica alemã de Nova York. Após a Segunda Guerra Mundial, quando Heidegger foi acusado de ter favorecido o regime nazista por não ter se oposto às leis raciais alemãs, testemunhou em seu favor. Morreu em 4 de dezembro de 1975, em Nova York.

 

As obras de Hannah Arendt investigam a natureza do poder, da política, da autoridade e do totalitarismo. Coerente com sua humanidade libertaria, sua obra jamais cedeu um milímetro sequer a qualquer fechamento sistêmico autoritário, intrínseco ao poder.

 

Cito três exemplos da cristalinidade com que suas ideias iluminam as relações entre poder, indivíduo e sociedade.

 

1. Em “As origens do totalitarismo”, demonstra as raízes do estalinismo e do nazismo nas suas conexões via antissemitismo. O livro é um tremendo golpe nos patronos de ideologias que justificam seu recíproco combate com o fim de entronar seus dirigentes no poder: equipara dois sistemas que, para a maioria dos estudiosos europeus – mesmo americanos – apresentam-se como diametralmente opostos. Passo a passo, descreve as duas ideologias enquanto totalitárias, na medida em que conquistam ilegitimamente a autoridade política através:

 

a) da banalização do terror;

b) da manipulação das massas;

c) da aceitação inerte da mensagem do poder. 

 

Todas são faces da mesma moeda: liderança inconteste via organização da solidão das massas.

 

2. A ideia de pluralismo na política.  O capitulo I de “A condição humana” defende a política como ação e processo para a conquista da liberdade:

 

“Com a expressão ‘vita ativa’, pretendo designar três atividades humanas fundamentais: labor, trabalho e ação. (…) O labor é a atividade que corresponde ao processo biológico do corpo humano (…). A condição humana do labor é a própria vida. O trabalho é a atividade correspondente ao artificialismo da existência humana (…). O trabalho produz um mundo ‘artificial’ de coisas, nitidamente diferente de qualquer ambiente natural. A condição humana do trabalho é a mundanidade. A ação, única atividade que se exerce diretamente entre os homens sem a mediação das coisas ou da matéria, corresponde à condição humana da pluralidade, ao fato de que homens, e não o Homem, vivem na Terra e habitam o mundo. Todos os aspectos da condição humana têm alguma relação com a política; mas esta pluralidade é especificamente ‘a’ condição (…) de toda a vida política.”

 

3. Ao cobrir o julgamento do criminoso de guerra nazista Adolf Eichmann para o The New Yorker, descreveu-o como um homem “terrível e horrivelmente normal”, mero cumpridor de ordens por amor ao dever, sem a menor consideração critica acerca do bem e do mal. Pior ainda: ressaltou a omissão cúmplice de muitas lideranças judaicas com os nazistas. Isso lhe valeu críticas virulentas e a quase exclusão de seu trabalho na universidade. O relato tornou-se o livro “Eichmann em Jerusalém – Uma reportagem sobre a banalidade do mal”. O terror floresce precisamente na ausência de raízes, de memória, ao não repensar ações através da pluralidade do diálogo, e faz com que as pessoas se tornem autênticas agentes do mal banalizado. Tal tolerância coletiva com o crime aconteceu na Alemanha nazista e se fundou na condescendência – quando não na cumplicidade – de uma nação na qual os indivíduos, sem o menor senso crítico, não se viram como também responsáveis pelo crime.

 

Para bom entendedor, meia palavra desta mulher extraordinária basta.

 

 

 

Fontes principais:

Elisabeth Young-Bruehl: Hannah Arendt.  Bollatti Boringhieri, Italia

Hannah Arendt: perché ci riguarda, Einaudi Editori, Italia

Hannah Arendt: A Condição Humana (edição Portuguesa)

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