Papo com Paroni | O buraco é o olho

Publicado em: 04/03/2015

* por Maurício Paroni De Castro, especial para o portal da SP Escola de Teatro

A pesquisa estética feita para Assurbanipal Magic Club há de virar um longa-metragem ambientado na subjetividade afetiva de um grupo particular de pessoas. Ah, essa incapacidade de não pintar a própria aldeia!

https://www.spescoladeteatro.org.br/secoes-sp/ver-papo-com-paroni.php?id=4182

Mergulhei, com o Manufactura Suspeita  e um público de suingueiros, nos mares do corpo e da memória através de pequenas histórias de ironia, de revolta, de iconoclastia, desconsagradas pelo tempo e pela cartografia imprecisa da existência. Segui a cronologia das aparições de personagens na memória, assemelhadas à realidade, ainda que a esta não necessariamente vinculadas. Tal foi feito com o fim de recriar a vagueza típica das relações do universo swinger, feito de afinidades aparentemente superficiais. Vice-versa, profundas relações entre seus sujeitos, precipitam uma catástrofe superada graças à heroica sinceridade existencial.

                                                                                ***

“Boa noite. Sou a promoter Leo, do Assurbanipal. Vou passar antes os “não pode”, que permitem aos clientes liberarem as mais ousadas fantasias. Segurança, discrição e respeito. Na casa não pode de menor, profissional do sexo, arma, droga, bermuda, regata, capri, moletom, sandália (homens) e chinelo. Não pode filme. Não pode celular e Nextel. Não pode fotografia. Não pode bagunça e barulho a mais na área privativa. Educação é bom para todo mundo: Respeito com o funcionário da casa. Deu problema, chama aqui. Não pode fumar aqui dentro, tem área ao ar livre reservada para isso. Não pode levar copo de vidro para a área privativa. Cuide do seus objetos pessoais, tem guarda roupa ali pra isso. Cuidado com “boa noite Cinderela”. Agora, as maravilhas do clube: a maravilha da pista de dança. Tem gente que vem só pra dançar, não é pra sair transando de cara na pista. Se tiver figura interessante, se apresenta, mas nunca quando o parceiro estiver longe. Conversa pra conhecer bem as pessoas. Olha nos olhos. Olhar é arma.
 
Silêncio.

Nada de sair dando telefone de cara, tem que ter certeza que o casal é de verdade. É bom a coisa rolar no aquário, no camão, nos véus, no confessionário. Só pode entrar casal ali. Antes da porta, tem quarto escuro pra ménage e gangbang. Tem muito distraído. Distraído, pra quem não sabe, é quem “esquece” a mulher rolando por aí, percebe que ela perdeu o controle e não consegue aguentar a barra.

Silêncio.

Aqui tem a turma do Luau do Corno de vez em quando. O pessoal do Luau do Corno paga pra ver. Tem uma psiquiatra com eles, falando coisa tipo “frieza cientifica” e tal, mas eu  pergunto: Que é que tem de anormal nisso? A maioria que sabe e finge que não é corno acaba na violência em casa. Pagam pra não ver.

Silêncio.

Veio outro então que passou a mão nuns caras. Chamei para uma conversa, disse que não podia, que corno não quer dizer que já é veado, essas coisas, tem muita cornuda por aí também… O elemento começou a gritar “pra quem é corno, dar o cu não é transtorno!”, vê se pode… No babado tem que ter noção. As meninas acabam sempre segurando onda de homem moleque. Pra curtir mesmo tem que ter desafio, tem que saber mentir a verdade., tem que passear na mentira pra viver no meio da verdade… O sem-noção, o sem atitude, acha que aqui só rola teatro. Teatro faz a gente pensar que é tudo mentira. Onde não tem trato tem briga. Trato mal feito, casamento acabado; Swing sim, traição não.” (*)

                                                                                ***

Na exposição e manipulação do corpo das personagens do clube e do espetáculo, a fragmentação e reconstituição final delas havia sido operada pela fusão do suporte com sua moldura. No Glory Hole, o buraco feito para desmembrar o sexo da pessoa, o corpo delas virou a matéria imaginada além do buraco. A vida fundiu-se com a morte. O olho de Silesius: o mesmo olho por onde Deus, se existisse, nos vigiaria, seria o olho com que nós o criamos.

Curioso para ver a matéria do outro lado, coloquei um olho naquele buraco onde os  habitués do clube colocam desesperadamente os seus órgãos genitais. Ocorreu-me justamente o contrário. O desespero se aplacou no olhar do imaginário, precisamente onde socam os órgãos, num simulacro de penetração na escuridão do corpo portador do incerto futuro da gravidez, da esterilidade ou da infecção. Na escuridão das possíveis consequências familiares, da depressão ou do além-túmulo. No Nefertitti – depois no Espaço dos Satyros, lugar de afinidade eletiva -, retratei interações pornográficas, strip teases, vendas, prostituição, escuridão, semiólogas arrogantes, frígidas, hipócritas do falo. Sem pecado: O Buraco é o olho.

                                                                               ***

A fragmentação e descolamento da prótese da protagonista de “Crime Delicado” (**) – o filme inteiro pode ser visto aqui: https://www.youtube.com/watch?v=KYpQbcHQflg) – foi atribuída ficcionalmente a Walter Benjamin. Refiro-me à alusão do corte do corpo operado pela renovação da ícones religiosas bizantinas. A exposição, morte e ressurreição da defunta assassinada pelo marido evangélico e débil mental, em Com quem fica o Coração, foi para falar de meu próprio corpo, da esclerose múltipla e das consequências afetivas de partes do corpo que já não te obedecem – se é que um dia o fizeram. Sem pecado: O Buraco é o olho.

                                                                              ***

Nada como um bom velório para acovardar-se em vida. Muitos neles se penitenciam com uma improvisa gargalhada diante dos parentes. Teme-se o desmembramento do corpo do outro em pedaços odiados, vituperados, recolhidos do chão. Denunciada a nudez dos vivos, a hipocrisia apressadamente veste o defunto. Rapidamente se inverte o sentido do velório: os presentes não mais sabem o que pensar de si. Dá-se uma fuga covarde dos buracos negros cruciais ao pensamento, via desmembramento do próprio corpo em pedaços desejados, possuídos, via corpos esparsos penetrados ao léu pela narração urgente da vida, essa. Esta é a direção que gostaria fosse dada ao meu funeral, uma infinita festa teatral filmada. Sem pecado: O Buraco é o olho.

                                                                              ***

O meu desejo de escrever, de fazer teatro ou cinema só vai acabar com a morte. Talvez nem isso. Sobre meu corpo, futuramente posto num caixão, antes de ser cremado, haverá de se dizer, em voz gravada:

“Este corpo inveja os esboços e projetos dos antigos mestres do Renascimento, enquanto arte em estado inacabado e subjetivo. O inacabado, aqui, é completado pela escolha de um tratamento agreste da sua confessa subjetividade, simpática ao mundo libertino… vive a experiência radical de inserir-se nele para igualar o amor e a morte. Congela o movimento dramático real da posse pelo ataúde. Na exposição deste corpo, lê-se que “cola”, pouco a pouco, na situação de ser o defunto do velório. Infelizmente, veio a falecer em circunstâncias alheias aos seus espetáculos. Influenciado pela eterna lembrança da relação de amor com sua mulher, a arte faz seu pênis figurar ereto no caixão – mero suporte da obra. Enquanto fria notícia, seu pênis figura flácido. A carga erótica dessa ambiguidade se inclui o  pranto da mãe dolorosa. Na performance fúnebre reina o silêncio da miséria de um deus catapultado, pela conivência com a imoralidade conjugal, ao buraco do Glory Hole, o ícone máximo de consumo do local onde se expõe este corpo inerte: o Assurbanipal Magic Club.

A sina e o destino do brasileiro humilhado, subtraído da utopia forjada na pobreza por elementos originários de sua própria classe a ponto de incapacitar a narração do absurdo que vive, tem plena expressão nessa arte. O público pequeno burguês, aquela gente “de bem com a vida“, sairá deste velório estapeado em sua indignidade. Exatamente o contraste social de que falta na arte brasileira. Já seus amigos verdadeiros, e demais artistas decentes, sairão daqui desejando presença eterna do olhar do defunto em suas existências futuras.” (***)
 
Esta é uma disposição testamentária. Sem pecado: O Buraco é o olho.

——–

(*) fragmento de Assurbanipal Magic Club

(http://www.manufacturasuspeita.blogspot.com.br/2010/11/assurbanipal-magiclub-continua-sucesso.html )

(**) Crime delicado, 2005; Direção: Beto Brant; Fotografia: Walter Carvalho; Roteiro: Marçal Aquino, Marco Ricca, Beto Brant, Maurício Paroni de Castro e Luís F. Carvalho Filho; Elenco: Marco Ricca, Lilian Taublib, Felipe Ehrenberg, Maria Manoella, Zecarlos Machado, Matheus Nachtergaele, Marcélia Cartaxo, Lourdes Hernández-Fuentes, Mario Schonenberg, Cláudio Assis, Marcelo Hessel, Denise Weinberg.
 
Sinopse: Antônio Martins (Marco Ricca) é um crítico teatral. Observador não somente de peças, mas também de pessoas, tem seus conceitos mudados quando conhece Inês (Lilian Taublib), cuja personalidade é oposta à do crítico. Desinibida, Inês, que não tem uma perna, entra na vida de Antônio de forma a desestruturá-lo ao despertar uma paixão inédita no cínico e frio jornalista. Ela mantém uma relação ambígua com o pintor José Torres Campana (Felipe Ehrenberg), famoso por seus quadros eróticos que têm como modelo o próprio artista e a jovem. A relação desperta ciúmes doentio em Antônio e o conduz em uma espiral de ansiedade, ciúmes, perturbação e ilusão.

(http://omelete.uol.com.br/filmes/criticas/crime-delicado/#!key=23905 )
 
(***) Fragmento não rodado do roteiro de Crime Delicado.
 
 

 

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