Papo com Paroni | Na esquina alegórica e social de Diderot

Publicado em: 07/10/2013

Comecemos por asserir ao leitor brasileiro que a alegoria não está presente só na narração do Carnaval e no mundo barroco. Está por todos os cantos; pode estar também numa esquina contraditória da arte da representação, onde se cruzam a abstração e a concretude, na ideia da interpretação crítica – alegorias geradoras de forças criativas extraordinárias. Gerou Brueghel, Ghelderode  e quase toda a iconografia artística flamenga.

Entre outras preciosidades, está no cerne da tensão cênica na doutrina brechtiana.

O quê? Brecht? Ele mesmo?

Sim. Ele e todos os seus diretos descendentes, de Heiner Müller a Peter Weiss. Para se ter uma ideia mais simples e clara de onde se pode levar a postura crítica em relação ao pathos de uma determinada personagem: o leitor tente imaginar como interpretar a contradição deste monólogo de Denis Diderot. O titulo faz menção aos escrúpulos de seu protagonista, Dorval, em relação a seu filho ilegítimo. De “O filho natural”, ato 4, na cena 3, a reação de Constance, ao saber de tal condição do filho:

Constance
Conheço e temo os resultados do fanatismo… Mas se hoje surgisse entre nós um monstro como aqueles que haviam nos tempos das trevas… Quando o ódio e relativas ilusões banhavam esta terra de sangue… e víssemos tal monstro  cometer o pior dos crimes com a ajuda dos Céus, empunhando a lei de seu Deus em uma das mãos e a espada em outra, proporcionando lágrimas infinitas ao povo… concordo, ainda há bárbaros, e quando é que um dia não vai haver? Mas os tempos de barbárie, esses acabaram. O século é de Luzes. A razão purifica: seus preceitos estão vivos em todos escritos da Nação; são lidos quase somente aqueles que inspiram aos homens a benevolência geral. São essas as lições que ressoam em nossos teatros, e nunca ressoarão o suficiente. E o filósofo do qual me recordaram os versos deve o seu sucesso sobretudo aos sentimentos de Humanidade que ele difundiu com as suas poesias, ao poder que elas exercem sobre as nossas almas… Não, Dorval, um povo que diariamente se comove com a virtude não pode ser infeliz, nem malvado ou cruel. Homens como você, que a Nação honra e o governo, mais do nunca, protege, libertarão os nossos filhos das terríveis correntes que exibem a vossa melancolia, ao aprisionar mãos inocentes. E qual seria o meu e o vosso dever, se não o de habituar, até no causador disso, as mesmas qualidades que admiramos em nós? Sempre mostraremos a eles que as leis da humanidade são imutáveis, que nada nos dispensa delas, e veremos germinar em suas almas aquele sentido de benevolência geral que abraça toda a natureza… Por cem vezes você disse que uma alma delicada não pode observar  o conjunto dos seres sensíveis sem desejar-lhes ardentemente felicidade, mesmo sem dela tomar parte; e eu temo que uma alma cruel possa ser concebida em meu seio e em vosso sangue (…).

O nascimento nos é dádiva; mas as nossas mentes nos pertencem. Quanto às riquezas, sempre volumosas e frequentemente perigosas, os céus as distribuíram indistintamente sobre a superfície da terra; estão recaídas indiferentemente sobre o bom e o malvado, indicando, assim, qual conta a ser feita com isso. Origens ilustres, dignidade, dinheiro, riqueza, tudo isso pode ser do malvado; menos o favor dos céus. Foi o que a razão me ensinou um pouco, bem antes que me fosse revelado o vosso segredo. Não me resta que conhecer o primeiro dia da minha felicidade e glória.

(Tradução e adaptação do autor)

Para alimentar e temperar melhor a imaginação, sugiro que se passeie por algumas imagens de  Brueghel e dos vários flamengos. Uma delas, ao alto, nesta página.

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