Papo com Paroni | Monólogos universais sobre aquela Senhora

Publicado em: 28/04/2015

* por Mauricio Paroni de Castro, especial para a SP Escola de Teatro
 
Pessoas civilizadas – de qualquer civilização passada, presente ou futura –  que assistam ao assassinato de “infiéis” diante das câmaras, necessariamente abominam mais a câmara que o assassinato e a morte. Esta última não pode ser representada, somente vivida. Melhor: morrida. O assassinato, a injustiça, o absurdo, são matéria da vida, ergo da Arte, mas a civilização impõe representa-la; não causá-la. Morrer de verdade em cena é ocorrência policial tão grave quanto certa arte, certa propaganda, ou certa politica feita para angariar fundos, lavar dinheiro, ou levantar exércitos terroristas. A desgraça estilo Isis faz parte de nossa época porque não se consegue representar mais a morte de maneira crível, ao buscarmos a sua remoção pelo desespero. Mas dela não se escapa. Aqui estaria um bom motivo para cultivar o teatro: para criar próprias e únicas conexões diante daquela Senhora. 
 
Traduzi e adaptei cinco monólogos pouco divulgados sobre o assunto. Sugiro ao leitor que estabeleça a ligação e a ordem que desejar entre eles.
 
*** 
 
Do russo Alexander Pushkin, o monologo sobre a solidão do poder de Boris Godunov (1825):
 
“Atingi o poder máximo. São já três anos que governo em paz. Mas minha alma não é feliz. Não seria talvez porque nos apaixonamos e suspiramos por amor, mas a conquista logo nos satisfaz o coração e, aborrecidos, nos deprimimos?… é inútil que os adivinhos prometam-me longos e longos dias de poder seguro. Não haverá nem o poder e a vida a dar-me alegria: prevejo desventuras e desgraças. Eu não sou feliz. Pensava em assegurar ao meu povo bem estar e gloria, em conquistar o seu amor com obras de bem, mas agora não mais penso assim: o vulgo odeia o poder vivo e real, ama somente os mortos. Somos loucos em deixar que o favor popular e seu evidente clamor nos turbem o coração. Deus enviou a carestia à Terra, o povo morria entre tormentos e gemidos, eu lhes abri os celeiros, distribui  o ouro, dei trabalho a todos e todos, embrutecidos, maldisseram-me! O fogo lhes destruiu as casas e eu novas residências lhes construí. Culparam a mim pelo incêndio! Este, o juízo do populacho: e depois vai-se lhes buscar o amor! Na família, acreditei encontrar conforto, quis fazer feliz minha filha com o casamento, mas quando a morte, como uma tempestade, raptou-lhe o esposo… vozes malignas me acusaram, pai infeliz desde a viuvez!… Do morto seria eu o misterioso assassino: seria quem apressou a morte de Fedor; quem envenenou a czarina minha irmã… todos, eu! Ah! Nada pode se apaziguar entre as tristezas deste mundo; nada, nada… talvez somente a consciência que, íntegra, há de triunfar sobre a maldade e a esquálida calúnia. (…) Como uma ferida pestilenta, a alma arde, o coração incha-se de veneno, a reprovação volta a martelar os ouvidos, há uma grande náusea, a cabeça roda, o sangue ofusca a vida…  o desejo de somente fugir… sem saber para onde… que horror! Miserável aquele quem tem a consciência suja.”
 
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Em A Tragédia do Ateu (1611), do combatente, diplomata e dramaturgo Cyril Tourneur (1575-1626), o ateu do titulo, D ‘Amville, crê na natureza como força suprema: imortaliza-se somente através dos filhos. Para ser rico, assassina o próprio irmão e faz declarar morto o sobrinho, roubando-lhe a herança. Na peripécia final, vaga num cemitério, assustado diante de um crânio:
 
“Porque me encara assim? Você não é a alma de quem eu assassinei. O que lhe fiz para que me atormente a consciência sem piedade? você certamente foi a cabeça de um usurário… O arco celeste fechou as janelas e as portas deste mundo e puxou as cortinas das nuvens vedando-lhe as luzes… enquanto eu, com a prostituta que é a ação do crime, pecava no leito da Terra. Jazemos no escuro até que não se completasse secretamente o fato. Agora começo a sentir o odioso horror da culpa, e como um viciado esvaziado de sua própria sanha, desejo esconder o rosto sob os cílios; agora, que gostaria furtivamente de fugir da vergonha, ela comparece frente à minha face em alegres olhos corruptos para pretender de mim o suborno. Veja! Aquele lá é o fantasma do velho Monferrers, num lençol branco a escalar montanhas para lamentar-se aos Céus. Monferrers! Que meu medo morra de câncer! Ele já não é nada além de uma nuvem branca. Serei eu um covarde de nascença? Mente quem o disser. Mesmo assim, um verme sem sangue poderia ter agora a coragem de fazer-me o sangue virar água. O barulhinho de uma folha de álamo me faz morrer aos calafrios. Eu poderia agora cometer outro crime para beber o fresco sangue do assassinado para compensar este meu, tão frio e fraco… As montanhas me esmagam; o fantasma do velho Monferrers me persegue… Oh, estivesse o meu corpo envolvido naquela nuvem quando o relâmpago lhe abre passagem, pudesse eu desaparecer no nada do ar!”
 
***
 
Arden de Faversham é uma tragédia anônima provavelmente escrita entre 1587 e 1597. Narra um homicídio de quarenta anos antes: Arden era um proprietário de terras assassinado pela jovem mulher Alice e seu amante, Mosby. Ela decidira confessar o amante diante do próprio marido e fazê-lo assassinar por comparsas. Um destes, Black Will, lamenta-se da própria reputação em jogo porque não o conseguira assassinar:
 
“Mestre Greene, desde quando aconteceu de eu levar tanto tempo assim para matar um  homem?… você sabe, faz já doze anos que eu vivo em Londres, onde eu fiz andar de muleta mais de um sujeito que não me tenha dado passagem e muitos outros tiveram que remendar o nariz com prata só por ter dito “olha o Black Will!”  Quebrei tantas laminas de faca quanto você quebrou nozes… (…) Os bordéis me pagavam percentagem: não tinha puta que não fizesse acordo comigo.  Teve dono de taverna que levou um furo de espada na bochecha para cada ofensa que lhe escapou da boca e depois foi pendurado pelas orelhas até que toda  a cerveja que bebeu não lhe tivesse vazado pelo mesmos furos. Na Thames Street,  a carroça de um cervejeiro quase me passou por cima… quietinho, quietinho, fui atrás do sujeito e quebrei na cabeça dele todas as traves com as respectivas contas dos clientes penduradas. Por falar em pendurar, junto com os meus comparsas, pegamos um guarda noturno que estava de serviço e o empalamos numa vara. Quebrei o focinho de um sargento com o seu próprio cassetete. Só confio na minha espada e no meu escudo. Todos os taverneiros de quinta categoria vinham à porta com o copo na mão me diziam – Gostaria  vossa senhoria de  beber um gole? – E quem fugisse a essa obrigação podia ficar certo que o anuncio da porta seria derrubado, assim como seriam levadas as venezianas logo na noite seguinte. Para finalizar: o que foi que eu não fiz? Mas aquele sujeito escapou por puro milagre.”
 
***
 
A Tragédia Espanhola, de Thomas Kyd (1558-1594), escrita entre 1582 e 1592, é uma das primeiras tragédias de vingança do teatro elisabetano. Balthazar, prisioneiro do rei de Espanha, tratado com grande cortesia, combina secretamente com Lorenzo como vingar-se de Horácio:
 
“Gosto e desgosto; estou feliz e triste: feliz porque sei que isso impede o meu amor; triste porque temo que ela odeie o que amo. Feliz porque sei de quem me vingar; triste porque, ao vingar-me, ela irá fugir de mim. Mas ou me vingo ou morro, porque o amor contrariado se impacienta. Acredito que Horácio esteja fadado pelo Destino a ser a minha peste; brandia uma espada em punho; com aquela espada finalmente foi à guerra; guerra que me causou grave ferida; ferida que me forçou à rendição; rendição que me fez prisioneiro. Agora, em boca traz dóceis palavras; dóceis palavras que induzem a dóceis pensamentos; pensamentos em que se escondem astutos enganos; enganos que deleitam os ouvidos de Bellimperia; ouvidos pelos quais os enganos mergulham no seu coração; coração onde eu deveria estar… Mas quem está é Horácio. Ele tomou-me o corpo com a força, e agora, com astúcia, quer me tomar a alma. Na sua desgraça vou mudar tal destino; ou perder a minha vida ou perder o meu amor.”
 
***
 
Enfim, o adeus à vida de Annabel, em Pena que ela fosse uma puta, do elisabetano John Ford (1586-1639?):
 
“Adeus, prazeres!; e a vocês, minutos estéreis quando fátuas alegrias perfuraram a pele de uma vida decrépita! Destas minhas coisas eu me despeço. E você, tempo precioso, que corre incansável pelo mundo, pare aqui sua corrida!; conclua de vez o decorrer da minha ultima hora e passe a trágica herança desta mulher perdida e desventurada para momentos  não nascidos ainda. A consciência agora se ergue contra a minha luxúria com acusações da infâmia que me diz ser uma perdida. Esta é a minha confissão: A beleza que reveste a aparência do rosto será maldita se não se vestir de virtude. Aqui, como para uma andorinha presa em sua própria muda, sem companheiro, converso com o ar e com as paredes, e desafogo em palavras a minha ignominiosa infelicidade. Ah, John, você – que depredou as mesmas virtudes e o bom nome da minha honestidade – gostaria que tivesse sido menos escravo das estrelas que, desventuradas, reinavam quando eu nasci. Ah, gostaria que o flagelo devido ao meu negro pecado não o pudesse tocar, gostaria de sofrer eu, somente, os tormentos dessa chama sem perdão!”
 

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