Papo com Paroni | Lembrança de Kantor

Publicado em: 16/09/2013

* por Mauricio Paroni de Castro, especial para a o portal da SP Escola de Teatro

 

Presenciei pessoalmente Kantor viver a angústia de ser, originalmente, um pintor, mas poder expressar o que trazia dentro de si somente se o vivesse no palco através de pessoas e objetos. 

 

Este polonês, creio eu, o maior diretor de teatro de todos os tempos, era surpreendente. Não levava a sério qualquer veleidade tecnomisticista na atuação. Vi-o expulsar de nossa sala de aula um famoso repórter do Corriere Della Sera que havia pronunciado o nome de Grotowski aos gritos – Vous n’êtes que LA merde!  Vous n’êtes que LA merde

 

Nunca vi o mundo e sua história tão reconhecidos pelo público quanto em suas apresentações. Após a sua morte, fui rever a última obra, “Hoje é o dia de meu aniversario”, na Bienal de Veneza. Era irreconhecível, apesar de rigorosamente remontada. Não era mais Kantor, era um espetáculo sobre Kantor. Trata-se de algo parecido com o rock. Quem viu os Beatles, viu. Mas mesmo que alguém os interprete com alta qualidade, uma simples banda cover evoca-lhes melhor a presença. Exatamente por isso ele evitava chamar seus trabalhos de espetáculos. Preferia “sessões dramáticas”. Sem narrativa precisa, eram evocações cômicas e surreais de personagens de um  niilismo devastador. Ele guiava os atores num universo de ready-mades, cruzes e sepulturas escancaradas no palco; sua fortíssima figura cênica sem empáfia era a performance. 

 

Vi-o destruir a marteladas um esqueleto cenográfico depois de tê-lo apostrofado. O objeto era culpado de haver imitado a realidade de modo deslealmente reprodutivo, em lugar de cumprir seu dever de “escultura dramática”. O cenógrafo que o construíra não entende até hoje no que errou. Foi em 1987, um dos maiores momentos que vi no teatro, infelizmente presenciado apenas por uma quinzena de pessoas, três das quais aterrorizadas pela ira kantoriana e outras três incapazes de assimilar os porquês da gritaria. A montagem era a partir de “La mort de Tintagiles” (1894), uma das chamadas peças para marionetes do autor simbolista belga Maurice Maeterlinck. São sketches de forte atmosfera onírica protagonizados por personagens à mercê do destino, óbvios precursores de Beckett e Pinter.

 

Assim nasceu “A máquina do amor e morte”, uma curta sessão dramática para atores e fantoches, memória de sua primeira experiência teatral quando estudante na Academia de Belas Artes. Parecia-nos um espetáculo menor até percebermos que, com aquelas marteladas, ele havia possibilitado a remoção total de fronteiras entre artes visuais e o teatro pela primeira vez.

 

Fecho com as lições milanesas que presenciei em 1986: “O espaço da vida é o espaço da arte; ambos confundem-se, compenetram-se e dividem um destino comum; A ‘quarta parede’ não tem sentido porque a necessidade da obra teatral reside nela própria; o espetáculo acontece não para alguém, mas na presença de alguém; atores não podem fingir uma personagem ou representar um texto; o drama e a vida coincidem na criação de um espetáculo-obra de arte. Enfim: de tudo se lembrar, de tudo se esquecer.”

 

 

* Maurício Paroni de Castro é coordenador do projeto “Chá e Cadernos”, na SP Escola de Teatro

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