Papo com Paroni | Indecência no velório

Publicado em: 26/05/2015

* por Mauricio Paroni de Castro, especial para a SP Escola de Teatro


Quando me perguntam sobre dramaturgia, prefiro empregar o termo “dramaturgismo”. Mesmo estranho, ele estabelece a diferença fundamental entre a escritura cênica e um texto posto no suporte do papel. Texto que pode somente ser entendido enquanto teatro na chave de leitura tridimensional. Chamo a leitura no papel de bidimensional, e a do palco – e da vida – de tridimensional. Não coloco essa questão no terreno da incerta e inútil guerra ideológica “narratividade versus performatividade”; deixemos passar o modismo. “La verità sola fu figliola del tempo” (a verdade é filha única do tempo), citou Leonardo da Vinci o gramático romano Aulus Gellius.

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Descrevi para o jornal de literatura contemporânea Cronopios um bom exemplo do que chamo de trimensionalidade da escritura cênica num dos percursos particulares que o Atelier de Manufactura Suspeita fez na obra de Pirandello:

O dramaturgismo do “Auto da defunta nua” partiu do Pirandello de “Vestir os nus”, transitou na metafísica de Jean Cocteau do “Monólogo da mentira”, foi interceptada pelo “Rascunho para um bilhete de suicida” e terminou na “Oração a uma jovem defunta nua”; estes dois últimos textos são de Sérgio Sant’Anna, escritos após a leitura do autor siciliano e figuraram integral e literalmente neste espetáculo.

No palco, correu o drama das justaposições de papéis sociais geradas quando se enxerga a própria identidade através de referenciais ideológicos e consequentes moralizações. Veículo privilegiado da encenação: o velório despudorado da protagonista de “Vestir os nus”, Ersilia Drei, encenado por uma volúpia literária radicalmente criadora que age em sentido contrário à decomposição da vida que aparentemente a morte traz consigo. A possibilidade de unir os textos através do corpo e da mente da excelente e disponibilíssima atriz Janine Correa nos fez acreditar na ousadia de enfrentar a nudez formal dentro de um velório.

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Prefigurou-se uma pornografia da morte, um strip tease denunciador da degradação da personalidade, originada pelo desprezo de qualquer linguagem capaz de comunicar os próprios sofrimentos. Houve uma demolição sarcástica de uma personagem desgraçada diante de seu criador, até a sua entrada, nua, numa urna, onde quer se inspirar para redigir um bilhete de adeus “literário”. Ali ela morre. A oração fúnebre, texto subsequente, foi introduzida pelo próprio Sérgio Sant’Anna, em vídeo projetado sobre a mulher morta; pairava no palco a impressão de onipotência divina do escritor. Uma espécie de Cristo Pantocrator, que tudo dominava, paradoxalmente cômico e cruel. A luz do projetor de vídeo iluminava as cenas. Havia também lâmpadas-simulacro de velas de defuntos.

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Tende-se a pensar a iluminação de um espetáculo como coisa de televisão, de cinema ou de literatura, na melhor das hipóteses. Geralmente, o teatro não é lembrado. O esquecimento não é somente estético: é essencialmente político. A censura da ditadura militar e a depauperação de nosso sistema educacional destruíram a história e a tradição teatral brasileira. A fruição de nossa arte funciona plenamente quando a plateia tem aguda percepção verbal. Isso não é necessariamente dependente da literatura ou de qualquer codificação superficialmente intelectualista. Textos de Pirandello – para não mencionar os de Sérgio Sant’Anna – não permitem tal acinte.

A iluminação no teatro serve para iluminar um ambiente e não apenas a cenografia. Isso nos aproxima aos cânones do surrealismo, onde não se dá por garantida a convenção teatral, mesmo que a peça seja representada num palco. Paradoxalmente, o teatro (pelo menos o teatro do Manufactura) é antes um lugar mental que um edifício onde de representam peças. Estas acontecem na mente do espectador, são sugerida pelo palco. A coisa é mais trabalhosa e precisa do que parece. O cineasta Buñuel nos deu uma mãozinha nesse sentido, desde o copo de leite com que Ersilia se envenenava até a ironia de que ela usou ao entrar nua em sua própria urna funerária. Depois de a personagem se livrar de todas as suas roupas e angústias, foi a atriz quem alegremente fugiu nua para a avenida na qual dava a porta dos fundos do teatro, feliz pela liberdade de expressão alcançada e pela música de cena que se ouve.

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Há muita diferença entre simplicidade e precariedade – a nossa companhia geralmente usa lâmpadas comuns, ajudadas por pouquíssimos refletores, o que propicia o mesmo clima entre plateia e cena, como sempre foi uso do teatro até o século XVIII. Cultivamos, por metodologia, um hábito arcaico para pensar espetáculos: servimo-nos da mentalidade criativa da sociedade pré-industrial; até quando empregamos o projetor de vídeo, tecnologia impensável naquele estágio da arte teatral. O teatro e suas tradições desenvolveram-se muito tempo antes da Civilização Industrial. Surgiu bem antes da invenção da direção moderna, fruto da própria ideia de indústria. A linfa quintessencial do palco é composta somente do trabalho de tipo artesanal. Uma forte marca de direção paralela à manutenção desse tipo de artesanato foi a maneira que o nosso Atelier de Manufactura Suspeita encontrou para conviver com as vertigens da literatura de Sérgio Sant’Anna.
 

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