Papo com Paroni | Impossível não performar I

Publicado em: 15/09/2014

* por Mauricio Paroni de Castro, especial para o portal da SP Escola de Teatro

 

Impossível definir, impossível não performar

 

Além do tempo qualitativo (Kairós) e do tempo quantitativo (Kronos), havia na Grécia Clássica um terceira concepção relacionada ao tempo: Ékstasis – o êxtase. Literalmente, quer dizer arrebatar-se, desprender-se, sair de si. Quintessencial, está acima ou abaixo da linguagem das palavras: arrebatamento, estupefaciência, orgasmo, iluminação, barato, tesāo, a loucura lúcida, mistério eleusino, mistério oriental, mistério aristotélico-tomista, epifania, privilégio xamanista, consciência cósmica, divagação, desceu o santo, rodou a pomba, o que será que será, transe. Infinito.

 

Em nossa frugalidade cotidiana: foi quando nos apaixonamos pela primeira vez; foi quando sentimos a dor da separação; foi quando, de repente, percebemos a totalidade da vida em relação ao nada. Somos capazes de reconhecer o fenômeno se devesse se reapresentar, aparentemente casual. Mas tente o leitor atingir o êxtase a partir da exacerbação desta listazinha de estados de espirito que segue em ordem alfabética: afetividade; alegria; amor; cálculo infinitesimal; compaixão; deslumbramento; empatia; esperança; euforia; fanatismo; felicidade; histeria; inspiração; paixão; pânico; prazer; sofrimento; solidão; surpresa. Não o conseguiria pela simples evocação das palavras. O êxtase está profundamente escondido dentro de nós e é algo próximo da santidade, da divindade, da iluminação. É também algo que sentimos, não sempre, no e do palco.

 

Bruce Springsteen e a Beata Ludovica, de Bernini

 

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Sujeitos da banalização consequente do falso movimento das sociedades industriais, experimentamos – raramente – algo próximo ao êxtase somente no sexo. A mesma experiência, se anterior à moralidade vitoriana do final do século XIX, assim foi sintetizada por Jean-Charles Gervaise de Latouche: Oh, orgasmo! / Você é um raio de divindade! / Ou melhor, você não seria a própria divindade? (1)

 

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Peste indecifrável, o êxtase infestou de paradoxos o dualismo platônico da antiguidade clássica e o posterior sentimentalismo cristão da modernidade. Já se falou nisso, de maneira indireta, em “A função do urso”. Na Idade Média, era a Epifania (2). Progrediu para a visão barroca entre santidade e pecado da carne, e depois para a contemporaneidade da pintura de um Francis Bacon (1909-1992): A visão ardente de um curto-circuito que inverte polaridades do amor ao ódio, da vida à morte, do yin ao yang; performance que rasga qualquer papel preestabelecido, que aniquila qualquer mediação entre quem faz e quem vê fazer.

 

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Um divisor de águas fundamental para compreender êxtase é o conceito pietas (piedade) da mentalidade antiga. Tal conceito era completamente diferente antes de Cristo. Era um sentimento de compaixão racional, ligado ao raciocínio logico, mas seria errado dizê-lo “frio” ou em contraposição à ética da reciprocidade – “Tudo o que quereis que os homens vos façam, fazei-o vós a eles. Esta é a Lei e os Profetas.” (3)

 

Ao lecionar História do Teatro e explicar a compaixão pagã, alguns alunos fanáticos chegaram a me acusar de “defender os romanos” (sic), que se divertiam com o assassínio espetacularizado da própria mãe. Disse – e era – o exato contrário: o parâmetro romano para o julgamento de um matricídio pode nos ser alheio, mas era muito severo quanto a renegar a maternitas (maternidade), a consequente procriação, e – por último – o relativo afeto. Já para um paleocristão, em primeiro lugar, era hediondo renegar a sublimação afetiva. Há somente diferentes ordens valorativas que a piedade ocupa nas várias sociedades. Os aldeões de A balada de Narayama” (4) também questionavam a imposição de atirar seus velhos pais num gélido abismo, a fim de salvar os mais jovens da crônica falta de alimentos. O protagonista do filme luta para respeitar a vida e a coloca acima de qualquer acusação de desonra por seus pares. Todas as culturas humanas têm códigos mais ou menos semelhantes para a preservação da vida.

 

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Para pensar uma arte necessária, é fundamental qual pietas subjaz à obra. Seja esta uma narração convencional ou uma performance de ameaça “romana”. Quanto mais o cristão gritava sua dor ao ser devorado no Coliseu, mais o pagão se divertia. Ao primeiro restava o êxtase do sacrifício consciente pela divindade, dependendo do nível de sublimação alcançado. Tratava-se de conquistar a imortalidade através da própria morte serena, apesar da dor.

 

Do extremo Oriente, o antropólogo Georges Bataille (1897-1962) narrou uma execução chinesa pelo “suplício dos cem cortes”. Ele acreditava ter testemunhado um “êxtase sensual” do supliciado. A sua foto tornou-se famosa, após a publicação em “As lágrimas do Eros”. Há muitas dúvidas da autenticidade do texto de Battaille, mas a fusão de tortura atroz com êxtase não é novidade na história. Tem valor, entretanto, o contexto em que se insere a afirmação “eu não posso considerar livre um ser que interiormente não nutra o desejo de dissolver os vínculos de linguagem” (5) e a consideração do etnólogo Michel Leiris (1901-1990): “[…] quando a embriaguez dionisíaca, acima e abaixo, confundem-se uma com a outra e a distância entre tudo e nada é excluída.”(6).

 

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A atividade sexual enquanto rito de fertilidade e fusão divina é plurimilenar. Os livros de história, à esquerda e à direita, alijam-nos dessa evidência. Mas deixemos que os respectivos rottweilers burgo-estalinistas e os lulús anarco-freudianos ladrem seus pudores nas corrocinhas vilamadalenosas. Vamos urinar nos postes, aleatórios e felizes, entregues à mais imunda viralatice parônica: narra o historiador Heródoto (485-420 a.C.) que na Mesopotâmia (hoje Iraque) havia templos onde eram promovidos ritos com relações sexuais.

 

Posto que estamos no campo das suposições, enveredemos por um caminho semelhante na música próxima a nós: o rock e a ékstasis – não ecstasy, odiosa antidiversāo anfetamínica de gente brochada com grana e saúde para jogar no lixo. Vamos escolher coisa boa: Bruce Springsteen, o guitarrista que cantou os “últimos”, desgraçados, pobres e desfavorecidos do Império americano. A sua presença cênica é pura energia demiúrgica de imediata comunicação; ele e seu público viram uma coisa só. Por aspirações comuns e pela ausência de filtros, Bruce insinua muito mais do que simplesmente se vê. É um dos maiores performáticos de todos os tempos. Vai além da habilidade convencional do rock. Vale a pena ver o que acontece no final desta canção.

 

Faça-se uma comparação entre as imagens: o supliciado chinês, a Beata Ludovica de Bernini e foto de Bruce em concerto. O êxtase é o mesmo. Música, dor, morte, orgasmo, injustiça, revolta, esperança, plenitude. Tudo junto, do mármore à guitarra; dos mortos aos vivos; dos vivos aos que vão nascer.

 

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(1) Histoire de Dom Bougre, portier des Chartreux,1740.

(2) Epifania também possui o significado demanifestação divina. Diversos personagens históricos teriam tido experiênciasepifânicas. Este conceito não deve ser confundido com a Epifania do Senhor,festa cristã que comemora a ascensão de Cristo.

(3) Matheus, 7:12, Sermāo da Montanha.

(4) Filme de Shohei Imamura, Palma de Ouro de 1983. Há uma versão de Kisuke Kinoshita (1958), referente a uma apresentação de teatro. Ambos são excelentes.

(5) Bataille: la lingua del Collegio di Sociologia.Nota di Marina Galletti in Il collegio di sociologia, pag.XXIX, a curadi Marina Galletti Bollati Boringhieri, Torino, 1991.

(6) Michel Leiris, Hommage à Georges Bataille (Critique, nn. 195-196, 1963, p.693), citaçāo de Jürgen Habermas, Il discorso filosofico della modernità.Dodici lezioni, Milano, Arnoldo Mondadori editore, pag. 203-591, em “Fraerotismo ed economia generale: Bataille”, p. 423.

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