Papo com Paroni | Impossível não narrar V

Publicado em: 08/09/2014

* por Mauricio Paroni de Castro, especial para o portal da SP Escola de Teatro

 

(continuação do artigo anterior)

 

Kronos e Kairós

 

Há muitas conjecturas sobre o início da história, mas todas elas coincidem quando a linguagem humana, falada ou escrita, associou-se ao tempo enquanto sucessão de fatos encadeados num determinado espaço mental ou físico. Ou seja: à memória das ocorrências. Se estas ocorrências variavam, estamos, muito rusticamente falando, numa sociedade “quente”. Se não, numa sociedade “fria”.  São termos antropológicos do Estruturalismo de Maurice Merleau-Ponty (1908-1961) e Claude Lévi-Strauss (1908-2099), muito bem sintetizados no site Terra Brasil (*):

 

“Enquanto a ciência racionalista e positivista do século XIX desprezava a mitologia, a magia, o animismo e os rituais fetichistas em geral, Lévi-Strauss entendeu-as como recursos de uma narrativa da história tribal, como expressões legítimas de manifestações de desejos e projeções ocultas, todas elas merecedoras de serem admitidas no papel de matéria-prima antropológica. Como é o caso dos seus estudos sobre o mito (Mythologiques), cuja narrativa oral corria da esquerda para a direita num eixo diacrônico, num tempo não-reversível, enquanto que a estrutura do mito (por exemplo o que trata do nascimento ou da morte de um herói), sobe e desce num eixo sincrônico, num tempo que é reversível. (…) O objetivo dele era provar que a estrutura dos mitos era idêntica em qualquer canto da Terra, confirmando assim que a estrutura mental da humanidade é a mesma, independentemente da raça, clima ou religião adotada ou praticada. Contrapondo o mito à história ele separou as sociedade humanas em “ frias” e “quentes”.

 

***

 

Sociedades “frias” são a-históricas e pressupõem um entendimento mítico do mundo, acima do tempo linear. As sociedades “quentes” movem-se dentro da história, da obrigatória progressão das transformações  tecnológicas.

 

***

 

Na passagem de uma sociedade fria para outra quente, houve um sério contraste entre dois respectivos calendários; um, lunar, de 28/29 dias; outro, solar, de 30/31 dias. Não é dito que não se passe de uma quente a outra fria, milênios e fundamentalismos estão aí para isso; mas vamos nos ater ao ocorrido milênios atrás.

 

***

 

Duas menções, antes que me acusem de chauvinismo: 1 – O mês lunar corresponde ao período de uma menstruação regular. 2 – O espaço babilônico corresponde ao atual projeto fundamentalista do projeto terrorista do califado. Embora existam diferenças e coincidências, não associo mulheres e islamitas a incivilizações, terror ou pré-histórias. Considero, apenas e rigorosamente, o contraste e a passagem factual entre sociedades quentes e frias o elo fundamental para a compreensão da linguagem humana. Mais especificamente, do teatro.

 

***

 

O contraste da linha do tempo com o espaço aliado à anotação dos fatos corriqueiros fez a memória humana ir além do mito: inventou o conceito do progresso. A sociedade fria esquentou quando se precipitou na história. Nesse fio da navalha estavam as civilizações babilônica e egípcia.

 

Os babilônios usavam um calendário luno-solar: 12 meses lunares de 28/29 dias, com sacerdotes responsáveis pela estipulação do ciclo solar das estações e da duração do ano.

 

Os egípcios foram os primeiros a substituir totalmente o calendário lunar com o solar. Pragmáticos, ajustaram-no ao trabalho agrícola. O ano era o tempo necessário para a colheita. Introduziram um calendário de três temporadas: a das cheias (Akhet); a da germinação da semente (Peret); e a da safra (Shemu). O Egito, dádiva do Nilo e não de saques militares, baseava absolutamente tudo na chegada da inundação do rio. Esta ocorria por volta de 20 de junho, mas sujeita a variações importantes. A necessidade de definir com precisão a duração do ano era a maior questão do Estado egípcio. Significava a vida ou a morte de quase toda a sua população. A necessidade alimentar do Império condicionou o conforto religioso. Mesmo assim, as guerras internas entre sacerdotes e faraós foram terríveis.

 

***

 

Não se pode pensar em compreender o significado do teatro para uma sociedade ocidental sem lembrar esse passado.

 

É quase certo que a tragédia “grega” nasceu no Egito. A complexidade  desse tema merece outro artigo. Por enquanto, basta assinalar que a tragediografia aristotélica das unidades de tempo, ação e lugar foi o fundamento da harmonia entre o tempo mítico e o tempo cronológico. Os gregos tinham duas palavras para o tempo: kronos e kairós. Kronos se refere ao tempo quintessencialmente lógico e sequencial. Kairós (καιρός) seria um momento indeterminado em que o singular acontece. Significa “momento certo ou oportuno”, ou “tempo de Deus”.

 

A dicotomia desse contraste é pra lá de eloquente: kronos é quantitativo, kairós é qualitativo. Kairós era uma divindade quase desconhecida; Cronos (kρόνος, Kronos) era considerado o deus do tempo por excelência.

 

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O tempo teatral do ator de talento é qualitativo, mas atento ao quantitativo. Há muito ator sonífero por ai.  Até os que gritam.

 

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Não fosse o teatro, sequer  marcaríamos o tempo por números. Nem a nossa idade saberíamos dizer. Diríamos algo como “hora não desejada da morte”, ou “hora em que tenho fome”. Ou “amém”. Funciona num mosteiro, mas não se diz “amém” para marcar uma hora. Há quem queira: são justamente os que dizem que o teatro é obra do demônio.

 

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Além das tragédias e dramas épicos, a escritura cênica que singra essas águas sempre foi muito importante. O teatro brasileiro dispõe de um excelente texto que trata diretamente desse assunto, do dramaturgo Otavio Frias Filho: Tutankaton (***). Mozart e Schikaneder criaram uma curiosa metáfora da desordem entre Sol e Lua: a ópera popularíssima em alemão “A flauta mágica” (1790). O simbolismo de Maurice Maeterlinck  produziu “O pássaro azul” (1918), encenada por Stanislavski e Peter Brook, que tem ótima tradução de Carlos Drummond de Andrade.

 

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Peter Brook sempre fez seu treinamento físico a partir destes temas. Eugenio Barba e Jerzy Grotowski também narraram ligando a presença corporal do ator ao mito, mas não desprezaram o texto do tempo. Brecht e Müller ligaram o pragmatismo do progresso – e a critica ao regresso – à memória das ocorrências.

 

***

 

Kronos e Kairós não são e nunca foram inconciliáveis, como gente estreita quer fazer crer. Não precisa fanatismo religioso para a demência: basta cindir teatro histórico da diversão, ou narração da performance. No palco, escolher uma forma não quer dizer enformar a escolha ou fingir radicalismo. Radicalismo faz bem ao teatro. O teatro, hoje, é necessariamente uma experiência radical, posto que anacrônica. Mas precisamos saber que se está mexendo com fogo. “No fundo, todo radical quer o retorno da imobilidade aristocrática”, diz o antropólogo Roberto da Matta. “Tudo recordar, tudo esquecer”, disse Tadeusz Kantor. Não é paradoxo. É bom senso.

 

(*) Voltaire Schilling sobre o estruturalismo

 

(**) Sobre o calendário egípcio

 

(***) “Tutankaton” (Iluminuras, 1991) traz um prefácio excelente sobre o assunto.

 

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