Papo com Paroni | Impossível não narrar III

Publicado em: 18/08/2014

* por Mauricio Paroni de Castro, especial para o portal da SP Escola de Teatro

 

(continuação do artigo anterior)

 

Descobrir. Encobrir. Narrar. Performar. Causar.

 

***

 

Ao apagarem-se totalmente as luzes numa casa onde  não necessariamente – podia haver troca de casais, ménage, masturbação, voyeurismo, os atores ficavam nus no fundo da área de representação. Na escuridão, mergulhava-se a imaginação na possibilidade de haver sexo real do fundo daquela sala – nada era cenograficamente convencional, mas o protagonista era a mente de quem ali estivesse. Não havia interatividade convencional. A libertinagem nascia na mente e somente podia realizar-se através do uso do corpo a ela integrado. Poucos tiveram coragem de tal aventura, mesmo quando convidados a ela. Mas a mente estava livre a partir daquele próprio corpo.

 

***

 

Continua Nina Lemos em seu artigo:

 

A interação com o público não podia ser melhor. “Gosto de ser chamada de vagabunda”, diz uma atriz. “Sua vagabunda”, diz alguém da plateia, com voz de tarado. “Fala mais”. “Piranha”, diz um. “Sua puta”, grita outro.

 

Enquanto os atores se esfregam nus no palco, é impossível não pensar que naquela cama as pessoas fazem sexo grupal de verdade. Todos os fins de semana. E sentir, sim, um certo abalo. Parece que cada um dos personagens pode estar ali ao seu lado: a garota que gosta de sexo em lugar proibido, a que só gosta de velho (…), a intelectual que gosta de proletário, a garota de programa.

 

Alguns atores, espalhados pela plateia, interagem com os do “palco”, criando uma desorientação ainda maior.

 

***

 

Os atores quase não se mostravam nus diante do público, mas nus estavam. Acendia-se uma luz tênue de velas; vestiam-se para as confissões públicas de suas fantasias. Cenas do suingue paulistano e trechos de Ésquilo e Espinosa compunham os microdramas confessados pelos frequentadores da casa. Narrava-se a lógica dos encontros das personagens. Ao se autoiluminarem, surpreendiam aleatoriamente ações sensuais empreendidas na penumbra do ambiente. Os atores “concertavam” os temas encaixados em suas biografias pessoais e produziam ficção.

 

Essencialmente filologia cênica da commedia dell’arte, era quase um jazz: havia um fraseado decorado e ensaiado para ser empregado somente um terço (um  repertório dramatúrgico).

 

***

 

Erika Forlim (Foto: Isa Brant)

 

 

A esse universo justapunha-se um show de entretenimento em que um mago adivinhava o pensamento sexual de certas personagens e do publico real. A experiência radical realocava a humanidade do universo do suingue para além do preconceito e dos clichês teatrais.

 

 

***

 

Termina o artigo:

 

Se o espectador já se sente meio desorientado dentro da sala do véu, tudo fica ainda mais surreal na saída.

 

Do lado de fora, centenas de pessoas dançam música eletrônica. Logo um homem começa um striptease, no que é agarrado por uma mulher, que se esfrega nele. E a entrada para o tal labirinto passa a ser ainda mais concorrida que na hora da peça.

 

A partir daquela hora, o que foi visto como “encenação” passa a acontecer de verdade. E o espectador pode entender o clima ainda mais.

 

Sim, existe um universo paralelo ali nos Jardins. (…)

 

As pernas caíam no final, e o espetáculo ficava nu. O teatro era submetido a uma espécie de striptease; trocadilho intencional,  pernas são as cortinas laterais que no teatro vestem coxias, e não corpos.

 

No teatro, usamos as pernas para vestir os atores nus nas coxias. No Nefertitti, uma turba de frequentadores tentou pôr abaixo as portas de entrada das salas coletivas onde se dava a representação.

 

***

 

A convencionalidade do edifício teatral nos fornecia uma capa que impedia esse choque de comunicação. Quem entra num teatro tece um contexto narrativo completamente diferente de quem entra num clube de “balada liberal”. Mas nos dois lugares vivia-se a promiscuidade da nudez real e imaginaria, na escuridão do espaço representativo.

 

***

 

A inversão de significados era geral. Realidade e ficção não mais se distinguiam. Em minha cadeira de rodas, simulacro da tumba de Agamenon, qual ator/cadeirante/mudo, eu carregava a filha-atriz-nua-que-interpretava-Electra, num lamento tocante em grego antigo pela morte de seu pai. Aqui, um trecho do ensaio (vestidos, sorry), postado na internet por um dos atores.

 

***

 

O catalisador de toda a ficção era o mago,  o vate, o que dizia a “verdade” da mente do espectador, ao adivinhar pensamentos eróticos de parte da plateia.

 

***

 

A tênue luz das confissões provinha da queima de santinhos de políticos. Fato considerado quase irrelevante, vi que cada pormenor podia adquirir um significado inesperado. Uma eleitora fanatizada escandalizou-se; urrava contra a “falta de respeito dos artistas” para com a sua candidata. Ignorou, entre quase  tudo o que podia significar aquilo, que foram queimados retratos de todos os candidatos. O veemente protesto não foi dirigido ao diretor/Agamenon/Tumba/corruptor de menores, mas a um ator  que era negro. A cena que se seguiu pôs a nu a mentalidade retrógrada e conservadora travestida de progressista.

 

***

 

“Efeitos narrativos são produzidos não somente pela linguagem verbal (oral articulada), mas também pela linguagem sonora geral, visual e pelas interações de todos os elementos ou materiais de escrita cênica e, no final, pela decodificação realizada pelo espectador: o texto cênico.” (*)

 

(*) Trecho espúrio sintetizado de vários autores contemporâneos

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