Papo com Paroni | Impossível não narrar II

Publicado em: 11/08/2014

* por Mauricio Paroni de Castro, especial para o portal da SP escoa de Teatro

 

Acredito que seja muito apropriado narrar uma narração para perceber que ela em nada difere de uma performance. Por exemplo, um espetáculo construído e apresentado no próprio mundo que narra. “Assurbanipal Magic Club” utilizava a linguagem do suingue num clube de suingue. Por isso, esta digressão é sobre ele. Certamente  autorreferencial, mas é o preço do papo direto. Caminharemos pelo que não foi narrado por escolha, por método, por lacuna.

 

***

 

Como narrar um espetáculo que – insisto – é performance justamente porque narração? Há uma reportagem bastante objetiva de Nina Lemos, da Folha, sobre a noite de apresentação do clube. Completarei seus parágrafos com uma contextualização que pode ajudar a entender a extensão do que um espectador pode fruir de um espetáculo.

 

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Por meses, trabalhamos a dramaturgia e a interpretação do espetáculo no Nefertitti, um clube de “balada liberal”. Fez parte de nossa rotina levar conosco amigos do nosso Atelier. Advertia que ir ali para transgredir era um erro por garantir 99% de conformismo. Como o teatro de maneira, de resto. Mas a riqueza da pesquisa era certa. Existencialmente também.

 

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Peça “Assurbanipal” transporta espectador ao mundo do suingue

São Paulo, segunda-feira, 07 de fevereiro de 2011

Espalhados pela plateia, atores interagem com os do “palco”, criando uma desorientação ainda maior

 

NINA LEMOS

COLUNISTA DA FOLHA

 

“Na entrada, casais andam comportados, de mãos dadas, em direção a um corredor com luz vermelha. O bom comportamento parece com o de adolescentes em um baile de formatura. Isso se não estivéssemos em um clube de suingue, o Nefertite, nos Jardins, em São Paulo, uma casa imensa cujo lema é “onde tudo é permitido e nada é obrigatório”. Os casais não estão (ainda) se dirigindo ao “labirinto”, a parte onde quase todo tipo de sexo é permitido, mas sim indo assistir a uma peça, “Assurbanipal Magic Club”, de Mauricio Paroni de Castro.”

 

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Continua Nina Lemos:

O espetáculo é encenado na sala principal das orgias: a sala do véu. O palco é uma cama redonda gigante, onde cinco atores se enroscam seminus. Alguns nus em pelo. A peça conta histórias de pessoas que entraram no mundo do suingue. E se o objetivo é fazer o espectador entrar no meio, a experiência funciona. E muito. Na plateia de cerca de 150 pessoas dá para perceber que a maioria é frequentadora da casa e não de redutos teatrais moderninhos como a praça Roosevelt, onde a peça entra hoje em cartaz.

 

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Pagava-se para ver a peça e continuar no clube depois. O contexto de leitura é muito diferente do da fruição de ver e, após isso, viver num espetáculo. O suingue virava espetáculo e o espetáculo virava suingue. 

 

Sugeri a um casal de seguidores que fingisse serem cegos, suingueiros e espectadores. Forneci-lhes óculos escuros e bengalas,  pedi para não entrarem nos véus. Mas eles não aguentaram. Miravam a excitação fictícia: atacaram os atores nos véus. Um deficiente físico, ao ver cegos do público misturarem-se à esfregação,  mergulhou de verdade na brincadeira. Agregou-se à cega, que se abandonou ao que acreditava ser ficcional. Entregou-se ao deficiente diante do marido, que fingia a cegueira. Ao final do espetáculo, quando percebeu ter se entregado ao oposto do que ela desejava, teve uma crise de identidade. Identidade estética. Sexual. Ética.

 

***

 

Se narrarmos  a partir da visão da minha cadeira de rodas, cada porta é uma visão que penetra. Tudo vira uma sequência de quadros justapostos. Como a corrida de velocípede do menino no filme “O iluminado”, de Kubrick. O que nunca havia imaginado era que a cadeira narrou quem estava nela para narrar.

 

Operava-se uma espécie de rapsódia (*) no sentido empregado por Sarrazac: “(…) cantos e narração homéricos, (…) procedimentos de escrita tais como a montagem, hibridização, a colagem, a coralidade.”

 

***

 

O segurança da sala de sexo coletivo havia me confidenciado que seu sonho de juventude era ser jogador de futebol. Postado na porta, de paletó escuro e gravata, cuidava da ordem permitida: consensualidade, coreografia de corpos, suspiros, ruídos, palavras chulas e/ou amorosas, beijos, toques, masturbações, trocas de fluidos.

 

Dois rapazes quiseram entrar naquela sinfonia.

 

– Desculpe, mas é só para casais.

 

– A gente é casal.

 

– Pode só casal normal.

 

– Isso é discriminação!

 

– Olha, vocês têm estudo… eu tenho que manter a ordem.

 

Os suspiros diminuíram. O coro sexual assumiu de vez a rapsódia; a mistura de expressões era evidente. Existencial, realística, inverossímil, crível. Política.

 

Os dois perceberam a mulher e o cadeirante.

 

– Aqueles dois ali são o que? Se a gente não é normal, aquele cara também não é.

 

Do coro de casais partiu uma voz indignada:

 

– Vocês dois concorrem com a gente? Vocês é que ‘tão’ de preconceito. O que é que é normal?

 

Silêncio.

 

No tribunal da sacanagem, a performance de sussurros, gemidos, deslocamentos repentinos e secreções foi interrompida pelo barulhinho da bisnaga de gel desinfetante posta na parede.

 

***

 

Descobrir. Encobrir. Narrar. Performar. Causar.

 

(continua)

 

 

(*)Léxico do Drama Moderno e Contemporâneo, Jean Pierre Sarrazac, (org.), Cosac E Naif, 2012. Trecho  de um ensaio de Céline  Harsant e Catherine Naughette.

 

(**) Utilizo  esta definição: “A escritura cênica nada mais é do que a encenação quando assumida por um criador que controla o conjunto dos sistemas cênicos, inclusive o texto, e organiza suas interações, de modo que a representação não é o subproduto do texto, mas o fundamento do sentido teatral”.

 

Pavis, Patrice. Dicionário de teatro; tradução J. Guinsburg e Maria Lúcia Pereira. São Paulo: Perspectiva, 1999.

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