Papo com Paroni | Fetiches e silogismos

Publicado em: 06/11/2014

* por Mauricio Paroni de Castro, especial para o portal da SP Escola de teatro

 

Sem dinheiro, fiz bico como maquinista num palco lírico provinciano de Monza, Itália. Numa daquelas noites de cantores derrotados, desafinados e frustrados, fui seduzido por uma ideia peculiar da colega de escola que me ajudava naquele lugar felliniano. Como consolo, sugeria fechar os olhos durante o blecaute de abertura da cortina para sonhar que, naquele momento, tudo era possível. Jovem, solitário, esperei daquele Godot um beijo jamais recebido, posto que a colega teorizava romanticamente o que para mim virou imediato fetiche. Em resposta, não me deixei seduzir pelo desejo do beijo porque relações baseadas apenas no fetiche artístico são a pior das ruínas pessoais.

 

Mas deixei me seduzir pelo pano de boca. Abri os olhos e o espetáculo era de fazer piedade ao diabo, como sempre. A terrível frustração foi um momento crucial da existência. Afirmou-me que iria morrer diretor de teatro para jamais atuar o horror de qualquer mau espetáculo, na realidade ou no palco. Descobri, além disso, que o blecaute antecedente ao espetáculo, biografia, arte, vida e morte faz de tudo uma coisa só. Mais: é o único momento em que há o desenho mais lúcido, nítido e paradoxal do que existe – ou não – no mundo. A surpresa do que vai acontecer será sempre algo tão vertiginoso quanto o fim da escuridão de quando abandonamos o útero e adoce sociabilidade que nele se teria provado – tenho um irmão gêmeo, igualmente artista de palco, o maître e coreógrafo Renato Paroni de Castro  (*). Intuo uma convivência social no paraíso passado, tendo com ele dividido o paraíso uterino antes de vir à luz nesta existência. Porque sou homem, não tenho útero, nem posso ser dois por nove meses. Por escolha e destino, não tive filhos. Meus filhos são criações e gente da qual gosto de aprender ao ensinar; são textos, obras de ficção e não, convicções, encenações, roteiros, pesadelos de derrotas artísticas.

 

Neste texto que se pretende dialógico, o leitor há de me perdoar a presente subjetividade, imprescindível pelo nível comunicativo almejado; arte é escolha visceral.

 

***

 

O sinal perfeito invertido daquela experiência do pano de boca é a cena do jantar no palco de “O charme discreto da burguesia”, com Beto Brant, a homenageamos em Crime Delicado, quando a atriz seduz o crítico, aterrado e impotente diante da plateia. Na sua autobiografia, “Meu último suspiro”, Buñuel revela que esquecer o papel em cena era um seu pesadelo frequente. Sabia, como nenhum outro artista, operar em profundidade no pensamento sem a narrativa convencional: o teatro e o cinema ocorrem na mente do espectador. Do autor ao ator, somos os manipuladores dos seus fios, com imensa dificuldade para dosar a ficção e a realidade nesse manuseio.

 

***

 

Personagem é, antes de tudo, um meio de manipulação da mente do público: um feixe de significados embutidos na tripa de um corpo humano. A partir dessa definição, vamos aos silogismos importantes para entender melhor os textos destas seções (Papo com Paroni, Palavra em Cena, Radioarte):

 

I.              Se aquele corpo (personagem) está morto, é um cadáver. Se os que o rodeiam dizem que este corpo está morto, é um fantasma clássico. Se aquele corpo se diz morto, é um espirito clássico. Se o corpo fala, é um ator. Se o corpo fala para narrar uma estória, é um ator de ficção. Se um defunto fala(sse), é(seria) uma assombração. Se o corpo empresta a sua mente para imaginar o outro, é um espectador. Todo ator é espectador de si mesmo, de seu contracenando, de seu diretor, de seu público. Todo público é ator de sua própria mente. Todo teatro é político. Toda política é teatro.

II.            Forma e conteúdo são a mesma coisa. O desenho do limite é a forma. O limite é o conteúdo, mas não único.

III.          O pano de boca é uma cenografia absoluta, é o grau (quase) zero. Não existe grau zero, assim como não existe grau exato de intensidade ou de veracidade da representação, como no cálculo infinitesimal. É infinito, mas, se o infinito a deus não pertence, ao teatro pertence.

IV.           O preto e o blecaute absoluto não existem no palco. Como explicava Josef Svoboda (1920-2002), a poeira alojada no tecido de qualquer material reflete a menor luz do ambiente. Enxergaremos sempre um tecido, mesmo o mais negro e antirrefletente deles. Uma perna negra é sempre uma perna cinza.

V.             A cenografia é um ambiente teatral. O edifício teatral não é um ambiente teatral, mas é já uma cenografia. O público se ilude muito mais com o ambiente e com o edifício teatral do que com uma cenografia. Os dois são meios de representação e organização de espaço, mas têm gramática diferente. O diretor, o ator e o cenógrafo têm obrigação de conhecer muito bem ambas.

VI.           Quando dirijo, ou atuo, ou escrevo, sou outra pessoa (leia mais aqui). Não me chamo Paroni, somente me lembro que tenho um documento com esse nome.

VII.         No palco, deus não existe. Existe vontade de ter deus e vontade de ser deus. Existe fé cênica e fé religiosa. São a mesma coisa com funções diferentes. A primeira permite o teatro. A segunda permite a sobrevivência.

VIII.       A morte é o início e o fim do teatro. O teatro é o fim da morte. O teatro é o início da vida.

IX.           All the world’s a Stage (**),

              And all the men and women merely players.

                    They have their exits and their entrances,

                    And one man in his time plays many parts,

                    His acts being seven ages. At first the infant,

                    Mewlingand puking in the nurse’s arms.

                    Then, the whining school-boy with his satchel

                    And shining morning face, creeping like snail

                    Unwillingly to school. And then the lover,

                    Sighing like furnace, with a woeful ballad

                    Made to his mistress’ eyebrow. Then, a soldier,

                    Full of strange oaths, and bearded like the pard,

                    Jealous in honour, sudden, and quick in quarrel,

                    Seeking the bubble reputation

                    Even in the cannon’s mouth. And then, the justice,

                    In fair round belly, with a good capon lined,        

                    With eyes severe, and beard of formal cut,

                    Full of wise saws, and modern instances,

                    And so he plays his part. The sixth age shifts

                    Into the lean and slippered pantaloon,

                    With spectacles on nose and pouch on side,

                    His youthful hose, well saved, a world too wide

                    For his shrunk shank, and his big manly voice,

                    Turning again toward childish treble, pipes

                    And whistles in his sound. Last scene of all,

                    That ends this strange eventful history,

                    Is second childishness and mere oblivion,

                    Sans teeth, sans eyes, sans taste, sans everything.

“As you like it”, Shakespeare

 

(*) Renato Paroni de Castro dançou Petipa, Balanchine, Ashton, Limon, Falco, van Mannen, Wilfride Piollet, Robert Nort, Joseph Russillo, Alfobso Cata, Ena Aranjo, Matthew Hawkins e outras coreografias no Teatro Scala, Teatro Regio di Torino, Ballet du Nord, em longa carreira na Europa e Usa. É coreógrafo e maitre de ballet e atuou no The Royal Ballet de Londres; National Ballet; Ballet Real Sueco; Ballet Nacional Norueguês; Companhia Alvin Ailey American Dance Teatro; Scottish Ballet; Ballet du Nord; Sarasota Ballet (EUA); Rambert Dance Company; Companhia de Dança Random (Londres); Ballet delTeatro Sodre (Montevidéu); K Ballet (Tóquio); Richard Alston Dance Company (Londres); Ballet da Cidade de São Paulo; Nye Carte Blanche (Bergen); São Paulo Companhia de Dança; Teatro Bellini (Catania); National Ballet English School; Escola  de balé do Estado Húngaro (Budapeste); Henny Jurriens Foundation (Amsterdam); Galili Dance(Groningen); Balletakademie (Estocolmo); Escola Central de Dança (Londres). Foi aluno de Liliane Benevento, Hector Zaraspe, Rossella Hightower, Gabriel Popescu, Marquedu Bouays, CristinaBernal.

 

(**) “O mundo é um palco, todos os homens e mulheres não passam de meros atores; Têm suas saídas e suas entrada, e um homem desempenha muitos papéis na vida. Os atos são como sete idades. No primeiro, a criança chora e vomita nos braços da babá. Depois, a criança escolar chora com sua mochila, com o rosto brilhante, na manhã se arrasta feito lesma para evitar a escola. Depois, o amante suspira fogoso uma balada de lamentos sob a vista da amada. Depois vem o soldado de estranhos juramentos, barbudo como um leopardo, desejoso de honra imediata, que busca vã reputação mesmo na boca do canhão. Depois, um juízo barrigudo que traz um capão alinhado, de olhos severos e barba formal, cheio de provérbios sábios e instâncias modernas, assim reza o seu papel. A sexta idade chega de magra calça e pantufas, óculos no nariz e bolsa do lado, foge de um mundo avesso com fino bastão e voz viril, e retorna  o som do grito e do assobio infantil. O último ato encerra esta estranha história numa segunda infância e no mero esquecimento, sem dentes, sem olhos, sem gosto, sem mais nada.”

Como gostais”, Shakespeare

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