Papo com Paroni | Dramalhão da ética

Publicado em: 26/05/2014

* por Mauricio Paroni de Castro, especial para o portal da SP Escola de Teatro

 

O gênero dramático contém um subgênero melodramático que o senso comum teima em confundi-lo com dramalhões, folhetins e, pior ainda, telenovelas. Tal “acaso” tem razões recônditas. A principal delas é vivermos tempos em que a televisão substitui a educação – se não nas disciplinas mais exatas, quase completamente nas matérias éticas e estéticas.

 

Não conheço muitos adolescentes que aprendem ética na escola. Mas todos a aprendem – qual? – via televisão, dado o pouco espaço de tempo dedicado ao convívio com seus pais, com seus iguais, com seus professores. E olha que a televisão ainda não foi substituída totalmente por aquelas ilhas de informação portáteis e eletrônicas, demoníacas por legitimarem informações sub-reptícias ao misturarem-nas a fatos reais. Resulta dessa síntese: troca de ideias impossível de ser realizada, grunhidos familiares, gerúndios imprecisos, violência generalizada, superficialidade, depressão, ignorância, apolitismo, corrupção, degeneração social, teatro morto. 

No teatro brasileiro acontece o mesmo. O lapso de pensamento ético acaba preenchido por pensamentos rasos que expressam ideias mais rasas ainda – se assim podem ser chamadas. A estas demos nomes teatrais: atuação de péssima qualidade, regurgitação ideológica sem pé nem cabeça, expressão de pelo menos oitenta por cento do teatro convencional (e não convencional).

 

A maioria das pessoas comuns diz não suportar – com sacra razão – o que a “classe” autodenomina “teatro”. O público real dele se afasta, horrorizado, não pela ética ou pela estética, mas porque é formalmente incompreensível para quem vive no mundo real, de semi escravidão místico-empregatícia, e vai ao mercado de emoções teatrais. Estas, pontualmente, revelam o depauperamento  gramatical das ideias inexistentes.

 

Para exemplificar: com duas exceções, não há ou houve telenovela brasileira que não tenha veiculado preconceitos de todos os gêneros. Principalmente contra as mulheres e os despossuídos, mesmo em meio aos atuais beijos gays legitimadores da ideologia neles veiculada e invertida internamente ao próprio discurso(*). Para deixar bem claro: compare-se com este monólogo de “A esposa ideal”, dramalhão realista escrito em 1890 pelo italiano Marco Praga,  que hoje seria classificado como “melodramático”. Trata-se, entretanto, do discurso confessional de uma esposa infiel que se despede do amante. Como nas telenovelas brasileiras, o teatro italiano manteve a obsessão do casamento por quase todo o período realista. Mas, por trás da ingenuidade folhetinesca,  Marco Praga revelou-se antecessor direto da revolução pirandelliana no teatro burguês. Brecht e Cia beberam diretamente dessa fonte para inventarem suas estéticas – pelo menos no início.

 

Convido o leitor a tirar as suas próprias conclusões.

 

***

 

Do ato III de “A esposa ideal”

 

Giulia (a Gustavo)

Quer que eu diga a verdade? (chega perto dele) Você não vale nada mais que um outro qualquer. Segurou-me por dois anos, até que fosse conveniente. Depois, cansado por hábito, inércia ou medo, arrastou esse amor como uma corrente que não conseguiu quebrar. Você não vale mais que um outro qualquer! Um homem que fosse homem de verdade –  não um fantoche – teria tido a coragem de me dizer isso. Poderia ter dito sem medo a uma mulher como eu. Você sabe muito bem que se eu te amasse ainda – juro que não te amo mais – eu não faria nada para te segurar… Ou me agarrar a você; porque tem uma coisa que me prende mais que você. Assim, você chegou a esse lindo resultado: que sou eu quem te deixa. Eu, sim, porque se eu quisesse, poderia te segurar só para me vingar. Você teria aceitado o jogo porque teria tido medo. Eu poderia ter te segurado e até me divertido, agora que não te amo mais. Um fantoche como você não se rebela. Mas não teria valido a pena, mesmo. Tranquilize-se. Veja como eu estou tranquila! Mas cuidado: repito o que disse pessoalmente a Monticelli: cuidado com o que vai fazer. Case-se ou não – não me interessa – salve as aparências diante de meu marido. Não desapareça de repente de um jeito que ele não entenda a atitude. Ele poderia… duvidar. Não, surpreender-se,  repassar o passado, o que aconteceu ontem, reconstruir tantos pequenos fatos… e perder aquela completa, aquela confiança cega que tem em mim. Confiança que faço tanta questão de ter, e da qual tenho tanta necessidade!… Ah! Ah! Quero continuar a fazer aquilo que quero, ter até um outro amante, se me agradar, sem que eu tenha que fingir ainda mais e melhor do que eu tenho fingido até hoje. Além disso, você sabe, quero muito bem a meu marido… do meu jeito, entenda-se, mas gosto mesmo dele, e não quero lhe causar nenhuma preocupação. Estamos conversados? Volte quando quiser, quer dizer, quando aquele resto de honestidade ou de bom senso que te sobram ainda acharem isso conveniente. E não tenha medo de me machucar, não acredite que a tua lembrança me tire o sono e o apetite. Não! Será muito chato para mim te receber de novo, assim como a você voltar aqui… Mas é necessário! Você pode se gabar de ter se saído bem, mas esqueça a possibilidade de se arrepender. Não te amo mais… Nem sei se um dia eu tenha te amado… parece impossível que eu tenha amado um homem como você. Ainda ontem me despedi de você dizendo: “Nem pense em se casar com ela!” Mas era só o nervosismo do momento. Mudei de ideia; Agora digo: “Casa mesmo!”. Coitada! Tenho pena dela! E não se iluda de que ela vai te amar como eu te amei… Isso, eu espero que ela seja mais inteligente e entenda logo que não vale a pena te amar; é perda de tempo!… Oh! uma ultima coisa. Tenha a fineza de devolver tudo o que recebeu de mim: cartas, retratos, bilhetes… Cuidado, mande tudo, que não falte nada. Não cometa a ultima covardia de ficar com alguma coisa. É, não convém se gabar ou de jamais se arrepender de ter sido o meu amante… vou mandar buscar tudo amanhã.

Estamos conversados? Estamos conversados?

 

Tradução e adaptação de Maurício Paroni de Castro

 

(*) Emprego o termo ideologia no sentido depreendido do ensaio de Karl Marx e Friedrich Engels, “A ideologia alemã”: uma visão de mundo isolada do momento  histórico no qual é produzida.

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