Papo com Paroni | Conselhos para a crise

Publicado em: 02/09/2013

por Maurício Paroni de Castro*, especial para o portal da SP Escola de Teatro

O paradoxo autor versus cena representada é uma quimera, e não um princípio. Antes: tal antagonismo é, sim, um dos grandes motores do desenvolvimento da arte teatral. Mas a existência factual do fenômeno não pode ser negada. Todas as vezes em que o autor decaiu, o ator e a ação reinventada no palco tomaram as rédeas em nome da sobrevivência do teatro.

A commedia dell’arte, por exemplo, atingiu o seu ápice no vácuo entre o desaparecimento de Molière e o surgimento do Goldoni e Marivaux, que a enterraram definitivamente. Ela nascera da interação de elementos distantes da dramaturgia escrita no papel e suas consequentes inovações: organização mercantil do espetáculo; profissionalização do ofício do ator; presença de mulheres no palco; uso de máscaras; concertação das falas com base em um canovaccio; exaltação da gestualidade; linguagem dialetal e popular; referência a eventos seculares.

A revolução do Romantismo, que veio a seguir, foi capitaneada por um individualismo heróico e cabeludo, que condenava o uso de perucas de seda branca. Ressabiados pelas contradições da Revolução Francesa, eram mais ligados à pena. Victor Hugo, Goethe, Schiller, Alfieri, Gonçalves Dias, Coleridge, Wordsworth, Shelley foram, antes de tudo, autores que compunham, em seus gabinetes, versos e teorias tendo o papel  e não o palco como suporte. Inovaram igualmente: revisaram a especulação crítica do teatro com a teoria da suspensão da desconfiança; incluíram e valorizaram a produção do drama feminino; reconsideraram o cânone dramático da emoção e do sentimento enquanto natureza; redefiniram os gêneros e subgêneros, coisa que persistiu até o drama épico e o chamado pós-dramático atuais; redesenharam a relação entre teatro e poesia; exploraram as relações de poder entre teatro e sociedade.

Nenhuma telenovela, realismo socialista, Hollywood ou Schaubune podem ser entendidos, sequer superficialmente, sem  noção dos padrões estéticos nascidos com aqueles cabeludos.

Hoje, vivemos outro momento parecido, mas de reação antagônica. Ou dois momentos concomitantemente contraditórios, dada a atual fragmentação das relações pessoais. Tudo é corroborado pelo excesso de circulação de informações e comunicação velocizada.

Um conselho a quem tem 20 anos e busca um ponto de vista com o qual edificar o próprio aprendizado no teatro: viva a contemporaneidade de desfrutar de tudo ao mesmo tempo. Na certa, você estará dividido entre o dramático e pós-dramático; entre a narratividade e a performatividade; entre o sacro e o profano, entre o careta e o descolado, mas… Saiba que estar tudo misturado não implica na inexistência de determinados princípios factuais e fenômenos que ainda são fundamentos da nossa arte. Estes jamais morrem. Por isso mesmo, vivem de e para a crise. Como nós, que o praticamos, aliás.

*Maurício Paroni de Castro é coordenador projeto “Chá e Cadernos”, na SP Escola de Teatro

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