Papo com Paroni | Circo, encruzilhada da memória

Publicado em: 25/08/2014

* por Maurício Paroni de Castro, especial para o portal da SP Escola de Teatro

 

 

Gosto de pensar o circo como uma encruzilhada da memória que, invertida, fabricou mentalidades no passado distante para mover o nosso futuro.

 

O círculo de tambores virou a orquestrazinha de picadeiro, que virou Woodstock;

A corrida em torno da fogueira virou a dança ritual, que virou a Tragédia;

A luta no círculo virou o pancrácio, que virou o Tribunal do Júri;

O  cercado de animais virou a domesticação, que virou a fazenda, os gatinhos espertos ou os cãezinhos de madame;

Sonhar em circulo virou a rapsódia da poesia, que virou o rádio;

Olhar para o alto virou o malabarismo,  a vertigem da corda e do trapézio;

Olhar para baixo virou o poço, a tumba e a queda do palhaço;

O osso batido virou a guerra e a Odisséia no Espaço de Kubrick;

 

A combinação de divagações no tempo é livre e infinita, para frente ou para trás. Irresponsável ou empenhada, será sempre circular; é o circo.

 

***

 

Fusão sintética da memória humana, é anterior à História, à Idade do Bronze. Contempla a sagração do treinamento de caça no interior das cavernas. A mímica funcional do arremesso do dardo numa pintura rupestre era arte, habilidade, sobrevivência, organização social. É  o organismo da civilização.

 

Aparentemente morta, aquela memória renasce ao temermos a queda do trapezista ou ao rirmos da mesma queda do palhaço. A nossa primeira queda se refaz, ao mesmo tempo, coletiva e individual. Imutada, desde a nossa infância, quem não se lembra dela?

 

***

 

Algumas formas convencionais como a dança clássica requerem, antes da específica maestria da arte, um artesanato baseado na habilidade. Particularmente em relação ao circo, tais habilidades devem vencer a gravidade. Mesmo a palhaçaria. Que o digam Buster Keaton (1895-1966) ou Harold Lloyd (1893-1971), no começo do cinema de Hollywood. Muitas contradições entre arte e entretenimento se afogam mortalmente no circo.

 

***

 

Se um trapezista cai, pode morrer de verdade. Morte e ressurreição: deusa-mãe misericordiosa no teatro, implacável juíza das ações na tenda do circo. Errou, pagou. Não tem saída: estamos no lugar deste mundo absolutamente justo. Justiça eterna: ficção religiosa, delírio teatral, realidade circense.

 

***

 

A memória constitutiva da atmosfera circense no Ocidente vem de Roma e das suas cidades pagãs. O circo era o que são hoje os nossos shows, o futebol e demais esportes de massa, televisivos ou ao vivo. Eram fontes de prazer coletivo e por isso transcendiam – como hoje – diferenças sociais e etnoculturais. As performances dos gladiadores, os esportes, as corridas, as batalhas, as execuções e a justiça como espetáculo migravam sem cerimônias entre a política, a economia e a religião. Fabricavam a mentalidade geral.

 

Circo romano de Tarraco (Tarragona), construído em Roma no século I

 

***

 

O historiador italiano Nicola Svarese (*), em seu estupendo “Teatro e espetáculo entre oriente e ocidente” traz uma história do teatro entendida como escritura cênica, representação, dramaturgismo e desempenho. Narra climas particulares, cores, viagens de atores e relativos costumes, rituais e lendas; conta as atmosferas de um mundo oriental exótico e fabuloso que atravessa o Ocidente desde a Grécia até a contemporaneidade.

 

De sua leitura, proponho a seguinte digressão:

 

Por volta do Segundo Século da Era Cristã, o Império Romano, em sua máxima expansão, iniciava a sua decadência. A magnífica rede de estradas e a legislação não eram mais suficientes para a eficácia da comunicação comercial. Vantajosa até então, as diferenças idiomáticas e culturais dentro das fronteiras clamavam por uma linguagem imediata. Algo como sinais que ultrapassassem a barreira da decodificação das palavras, a base normativa das decisões judiciais ligadas aos conflitos inerentes a um comércio tão diversificado.

 

Os romanos eram pragmáticos: não havia quem não entendesse o picadeiro. Tomaram emprestadas as linguagens dos acrobatas, das lutas, da simplicidade dos números cômicos, dos jogos de comunicação imediata. Favoreceram e implantaram a internacionalização do circo. Impossível não pensar no que isso influenciou tudo o que se seguiu nas artes cênicas.

 

***

 

Mais que em qualquer outra arte performática, não há limites de idade, de religião, de cultura, e nem entre espécies vivas, para tal entendimento. No circo, os animais e os homens são a vida, são o mundo. O circo pode ser entendido até por marcianos. Sua memória é o legado e a responsabilidade de quem o pratica. É o futuro da comunicação humana.

 

 

(*) Nicola Savarese (Roma, 1945) foi professor de História do Teatro e Artes Cênicas nas Universidades de Roma, de Lecce e de Bologna. Ocupou a mesma cadeira na Universidades de Kyoto, Montreal, na Sorbonne, em Paris, é um dos membros fundadores da “Escola Internacional de Antropologia Teatral” (ISTA), dirigida por Eugenio Barba.

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