Papo com Paroni | Cinema e criancismo I

Publicado em: 24/02/2014

* por Maurício Paroni de Castro, especial para a SP Escola de Teatro

 

 

Filme I

“Pai patrão”, Itália, 1977

Direção: Paolo e Vitorio Taviani

 

O romance autobiográfico “Pai patrão: a educação de um pastor de ovelhas”, de Gavino Ledda (1975), foi traduzido para 40 idiomas. Transformado em um filme dirigido pelos irmãos Taviani (*), estreia no 30º Festival de Cannes e ganha a Palma de Ouro como melhor filme. Descreve, como nada que eu conheça de tão definitivo, a exploração da infância em vantagem do adulto. A simples narração da trama traça o modelo clássico da pratica do criancismo, neste caso vencido pela tenacidade do protagonista. Infelizmente, estórias de criancismo não têm sempre esse final. O filme pode ser visto aqui

 

A estória vivida e narrada por Gavino Ledda acontece na província de Sassari, numa família de pastores camponeses da Sardenha, terra de origem de Gramsci e Berlinguer (**). Aos seis anos, o pai o tira da escola para ajudá-lo com o rebanho. De fato, condena-o ao analfabetismo. Ensina-lhe a vida pastoral com dureza, muitas vezes por espancamento. Permite-lhe esporadicamente ir ter com mãe e irmãos, mas logo o relega à fazenda da família, a alguns quilômetros dali. O único meio de transporte da família é uma mula: a viagem leva um tempo considerável para o pequeno, era difícil de se adaptar a viver e trabalhar sozinho. Passa a infância e a adolescência trabalhando para o pai, confinado.

 

Salva-o o estudo do acordeão. Aconselhado por seu professor, estuda a fim terminar o primário, sempre com o consentimento do pai. Gavino desenvolve um profundo amor pelo estudo, e o desejo de libertar-se da condição do pastor analfabeto num ambiente restritivo e isolado. Entra no Exército. Ao sair da Sardenha, mal sabe escrever algumas palavras e não consegue responder adequadamente às ordens de um superior. Estuda e trabalha dia e noite, sustentado por uma vontade inabalável, chega à oitava série e se torna sargento na escola de rádio em Roma. Licencia-se do exército e volta para a Sardenha, para continuar a estudar.

 

Sua formatura é fortemente desaprovada por seu pai; Gavino é visto como um pretensioso por de ter deixado o emprego de sargento, o que lhe garantiria segurança. O pai declara: “Ginásio é uma palavra que não me engana!”. Mas o filho continua e obtém o bacharelado, o que leva ao inevitável confronto, que chega a ser físico, não apenas entre dois homens, mas entre “duas concepções de mundo”. Gavino abandona definitivamente a Sardenha.

 

 

Fernando Ramos da Silva em “Pixote”

 

Filme II

“Pixote, a lei do mais fraco”, Brasil, 1981

Produção, direção e roteiro (com Jorge Durán) de Hector Babenco

 

“Pixote” ilustra o paradoxo da infância e maternidade, sintetizado por uma imagem cruelmente poética do menino levado a um comportamento adulto e criminoso, e sua relação com uma prostituta. Na cena, em vez do sexo adulto, ele tenta recuperar a sua primeira infância. O olhar da atriz é de indignação (da excelente Marília Pêra), mas o da personagem é de resignação ao destino anunciado. Além do enredo e dessa imagem arrebatadora, há um fato símbolo: A realidade de acontecimentos que acompanharam a realização do filme ajuda a entender o preconceito do criancismo.

 

“Pixote, a lei do mais fraco” foi inspirado no livro “Infância dos mortos”, do jornalista José Louzeiro. É um filme neorrealista, pela tendência ao documentário e a escolha de protagonistas que faziam a própria vida daquelas personagens, caso do menino e protagonista Fernando Ramos da Silva. Era morador de uma favela em Diadema e tinha 10 anos no início das filmagens, em 1979. O filme foi um sucesso. A Globo o contratou como “ator”. Foi morar no Rio para atuar numa novela, mas foi dispensado por “inaptidão artística”, ao ser incapaz de decorar os textos, já que era semialfabetizado. A criança voltou para a sua realidade de Diadema, retornou à criminalidade e foi assassinado por policiais em 1987.

 

A parábola criancista se consubstancia aqui: a mãe e o produtor e diretor travaram uma batalha pela remuneração do menino. Na edição de 11 de março de 1982, o jornal Noticias Populares publica uma declaração da mãe: “É um absurdo que o meu menino, o Fernandinho, tenha sido o ator principal de um filme que está rendendo muito dinheiro aqui e no exterior sem que sua vida seja melhorada em nada. Há dias que temos dificuldade até para comer. Hoje não houve nem pão para as crianças”. Ainda na mesma edição, lê-se resposta do diretor: “…já esperava um desfecho dessa natureza… eu não sou pai do Fernandinho, e nem tenho por que adotar uma atitude paternalista… um contrato foi formado e seguido escrupulosamente por nossa parte… se o Fernandinho veio de uma favela e voltou para uma favela, isso não é culpa minha.” A mãe processou Babenco, exigindo 5% da renda do filme. Porém, em 83, após um acordo com Hector Babenco, requereu desistência do processo.

 

O filme pode ser visto aqui.

 

 

(*) Os irmãos Paolo e Vittorio Taviani (1931/29), também autores de Alonsanfan, A árvore dos Tamancos, A Noite de Sāo Lurenço, As Afinidades Eletivas. São o melhor exemplo cinematográfico de uma estética engajada sociopoliticamente, preconizada pelo marxismo humanista do crítico literário e filosofo húngaro Geōrgy Lucakcs (1885-1971): “uma verdadeira tragédia surge apenas se, na realidade social, as normas morais válidas que necessariamente criam-se naquela sociedade entram em conflito umas com as outras.”

 

Opôs uma arte realista de raiz popular ao realismo socialista na sua elaboração de uma estética marxista e criticou duramente o controle político sobre a arte e seus intérpretes.  Muita gente o vê em oposição à escola de Frankfurt. Nada mais equivocado; Lucàks influenciou a todos ali. Trata-se da visão bastante rasa de pseudointelectuais que legitimaram a própria mediocridade sob o chapéu de legitimidade da luta contra a ditadura militar.

 

(**) Antonio Gramsci (1891-1937), escritor, jornalista, crítico teatral e fundador do Partido Comunista italiano em 1921, junto ao jornal l’Unità. Encarcerado pelo estado fascista, ali redige os Cadernos do Cárcere, no qual, entre tantas ideias políticas inovadoras, apresenta sua concepção de um tipo de intelectual, o intelectual orgânico, que não se distingue pela sua eloquência nem é apanágio de privilégios estéticos, mas coloca o seu conhecimento a serviço da população oprimida.

 

Um seu posterior sucessor na direção do partido foi Enrico Berlinguer (1922–1984). Liberou-o do dogmatismo estalinista filossoviético, não sem lutas internas ferocíssimas. A atividade originou o eurocomunismo.

 

(***) Entre tantos prêmios internacionais, o filme recebeu o Globo de Ouro 1982 (EUA). O diretor Babenco recebeu o Leopardo de Prata, no Festival de San Sebastian 1981 (Espanha). Entre os  prêmios, ganhou o New York Film Critics Circle Awards, 1981, como  melhor filme estrangeiro. Parte dos jovens que atuaram no filme veio das periferias da Grande São Paulo, selecionados entre cerca de 1300 candidatos. Além de Marilia Pêra, atuaram Jardel Filho, Tony Tornado, Elke Maravilha, Ariclê Perez, Rubens de Falco, João José Pompeu e Beatriz Segall.

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