Papo com Paroni | Cidade é arte; arte é cidade (I)

Publicado em: 03/02/2015

* por Mauricio Paroni de Castro, especial para o portal da SP Escola de Teatro

 

Este parágrafo do italiano Giulio Carlo Argan (1909-1992), Senador vitalício, ministro da cultura e um dos maiores historiadores da arte do século XX, ilumina a relação entre arte e cidade:

“A cidade favorece a arte, é a própria arte’, disse Lewis Mumford. Portanto, ela não é apenas, como outros depois dele explicaram, um invólucro ou uma concentração de produtos artísticos, mas um produto artístico ela mesma. Não há, assim, porque surpreender-se se, havendo mudado o sistema geral de produção, o que era um produto artístico hoje é um produto industrial. O conceito se delineou de forma mais clara desde quando, com a superação da estética idealista, a obra de arte não é mais a expressão de uma única e bem definida personalidade artística, mas de uma soma de componentes não necessariamente concentrada numa pessoa ou numa época. A origem do caráter artístico implícito da cidade lembra o caráter artístico intrínseco da linguagem, indicado por Saussure: a cidade é intrinsecamente artística. A concepção da arte como expressão da personalidade tinha a sua primeira raiz na concepção da arte na Renascença – justamente o período em que se afirma, pelo menos em hipótese, que pode existir uma cidade ideal, concebida como uma única obra de arte, por um único artista. Todavia, sempre existe uma cidade ideal dentro ou sob a cidade real, distinta desta como o mundo do pensamento é do mundo dos fatos.”

Segundo a resenha do livro que contém o parágrafo acima, “História da arte como história da cidade” (*), feita pelo professor Rodrigo Vitorino Assumpção, para Argan a cidade é lugar de convívio. O melhor suporte da arte, portanto. O espaço urbano é, além do tradicional burgo medieval, um lugar imaginário. Neste, seu habitante manipula a visão do espaço da própria vida. Argan enumera os artistas e arquitetos da monumentalidade das paisagens urbanas nas cidades italianas; pois o monumento é o maior valor histórico, enquanto signo para todos. Todos juntos dão um sentido de unidade social. Enumera as individualidades artísticas de Palladio, Alberti e Bernini, todos a pensar a mesma urbanidade. Ao final, compara essas cidades ao urbanismo e ao design; critica a sobreposição do pensamento urbano modernista sobre elas. As cidades já não são mais as mesmas de quando da sua concepção: aponta a cultura clássica italiana como forma de identidade local. Amplia a sua crítica à cultura de massa, que padroniza seus produtos pela necessidade econômica e tecnológica da sociedade capitalista. O livro deita um olhar muito estimulante sobre a cidade: o da sociedade urbana vista através da arte e da imagem de uma cidade ideal, em que a identidade local é a sua herança mais valiosa.

 

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Individualidade e coletividade. Identidade e amorfismo. Arte e fluxo cotidiano. Não se pode pretender uma arte digna do nome sem. Minimamente, pensar o significado que estes substantivos assumem na nossa atividade. Como sempre, acredito ser útil expressar uma visão pessoal, criticável, mas artisticamente experimentada na trajetória artística da única biografia que pude viver até agora – ainda não virei um fantasma. Sugiro, a seguir, um percurso informativo que pode servir para uma reflexão a respeito deles.

 

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Como vivemos a internet e a contaminação global de formas e informações, é fundamental conhecer dados básicos sobre a separação radical entre o Ocidente e a mentalidade cultural predominante do Médio e do Extremo orientes da tradição ocidental. Retomaremos o tema no próximo artigo. Sobre a relação da urbe romana e o nomadismo particular da Pampa Argentina, o Palavra em Cena sobre Borges (1899-1986) está disponível aqui.

 

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A mais determinante presença da cidade enquanto orgânico dramático da Idade antiga foi escrita em 427 a.C.). É o início da “Édipo Rei”, de Sófocles, onde o Sacerdote exulta o rei a salvá-la da peste: “Tu, que és o mais sábio dos homens, reanima esta cidade infeliz, e confirma tua glória! Esta nação, grata pelo serviço que já lhe prestaste, considera-te seu salvador; (…) Salva de novo a cidade;(…) Visto que desejas continuar no trono, bem melhor será que reines sobre homens, do que numa terra deserta. De que vale uma cidade, de que serve um navio, se no seu interior não existe uma só criatura humana?”. (**) O grifo é meu, pois dispensável seria um comentário ao próprio comentário do sacerdote tebano.

 

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Entretanto, qualquer viagem à Grécia clássica precisa de muita cautela para não cairmos na tentação de idealizar excessivamente a organização exemplar da cidade-estado grega. Vale a pena dar uma olhada no positivista Fustel de Coulanges (1830-1889), autor de uma obra que fez história: “A cidade antiga”. Publicada em 1864, é um autêntico best seller do século XIX inovador da historiografia francesa. Evita o compromisso político e qualquer preconceito. Evidenciou, tanto quanto possível na época, a verdade histórica, o que redimensionou o idealismo com que se via a cidade antiga. O início de “A cidade antiga” demonstra a importância das referências sobre as diferenças do objeto de nossas ideias para poder indagar sobre a nossa identidade:

 

PREFÁCIO

DA NECESSIDADE DE ESTUDAR AS MAIS VELHAS CRENÇAS DOS ANTIGOS PARA CONHECER SUAS INSTITUIÇÕES

É nosso propósito demonstrar aqui os princípios e regras que governaram as sociedades grega e romana. Reunimos em um mesmo estudo romanos e gregos porque esses dois povos, ramos de um mesmo tronco, falando idiomas originários de uma mesma língua, possuíam também um fundo de instituições comuns, e atravessaram uma série de revoluções semelhantes.

Cuidaremos, sobretudo, de pôr em evidência as diferenças radicais e essenciais que distinguem de modo definitivo esses povos antigos das sociedades modernas. Nosso sistema educacional, que nos obriga a viver desde a infância entre gregos e romanos, habitua-nos a compará-los continuamente conosco, a julgar sua história pela nossa e a explicar nossas revoluções pelas suas. O que ainda conservamos deles, e o que eles nos legaram, faz-nos acreditar que se assemelhavam a nós; temos dificuldade em considerá-los como povos estranhos; quase sempre não vemos neles senão a nós mesmos, o que deu origem a muitos erros. Quando estudamos esses povos, antigos através das opiniões e fatos de nossa época, quase sempre nos enganamos.

Ora, os erros nessa matéria são perigosos. A ideia que se tem da Grécia e de Roma muitas vezes perturbou várias de nossas gerações. Observando mal as instituições da cidade antiga, quiseram fazê-las reviver entre nós. Fez-se ideia errada da liberdade entre os antigos, e somente por isso a liberdade entre os modernos foi posta em perigo. Nossos últimos oitenta anos demonstraram claramente que uma das grandes dificuldades que se opõem à marcha da sociedade moderna é o hábito de ter sempre diante dos olhos a antiguidade greco-romana.

Para conhecer a verdade a respeito desses povos antigos, deve-se estudá-los sem pensar em nós, como se nos fossem completamente desconhecidos, com o mesmo desinteresse e liberdade de espírito com que estudaríamos a Índia antiga ou a Arábia.

Encaradas desse modo, a Grécia e Roma apresentam-se-nos com um caráter absolutamente inimitável. Nada do que é moderno lhes é semelhante. E no futuro nada poderá ser-lhes semelhante. Tentaremos, pois, demonstrar as regras que governaram essas sociedades, e constataremos facilmente que essas regras não podem mais dirigir a humanidade. (***)

 

O texto integral em Português do livro de Fustel de Coulanges está disponível aqui.

 

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As obras pictóricas de Pedro de Kastro (1971) e de Vincenzo Scarpellini (1965-2006) são exemplos da dialética e das contradições entre imagem e texto na narração da cidade em sua dimensão temporal.

Para Gilberto Dimenstein, com quem Scarpellini dividia a autoria da coluna “Urbanidade” na Folha de S.Paulo, de 2000 a 2006 (ver ilustração com texto), “nem de longe São Paulo virou um paraíso, certamente nunca vai virar. Só está ficando um lugar cada vez mais interessante pela simples razão de que os melhores lugares não são aqueles com as melhores paisagens. Mas aqueles com as pessoas mais inquietas, dispostas sempre a ver tudo de forma diferente.” (****)

Para Fábio Magalhães, curador da exposição “Visões”, “Pedro De Kastro sonha maravilhas e, desperto, cria “simbioses” de grande força expressiva entre o real e o imaginário. Não pretende traçar uma relação harmônica entre eles, pelo contrário, procura explorar todos os conflitos que essa relação produz. Ao tentarmos decodificar os enigmas contidos na sua poética acabamos defrontando-nos com novos questionamentos que revigoram o debate e a compreensão sobre nossa vida urbana e sobre o papel das grandes metrópoles no futuro da nossa sociedade”.

Sobre a construção da individualidade ocidental, há o Palavra em Cena Especial Shakespeare 450 anos.

Sobre a particular visão do médio oriente, este artigo a resume.

Enfrentaremos a questão já no próximo artigo e podcast; adianto a pauta: o filosofo árabe Averróis (1126-1198) raciocinava como se a ficção não pudesse organizar o fluxo da vida diferentemente do cotidiano, senão através da narração de uma estória. E, no extremo Oriente, Taoísmo e Confucionismo desprezavam a individualidade enquanto força criativa, além de verem-na como causadora de desarmonia do fluxo da vida quotidiana.

 

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A filmografia sobre cidades e relação com a representação abarca pelo menos um terço de tudo o que o cinema produziu até hoje. O campo é gigantesco. Obrigado aqui a fechá-lo, vou direto para Alice nas cidades” (Alice in den Städten) dirigido por Wim Wenders em 1974. A preferência do protagonista por imagem e movimento diante da obrigação literária criadora da imperativa cartografia emocional da menina Alice, em busca de sua mãe, é síntese do dilema narrativo contemporâneo. O simbolismo do espelho de maravilhas de Lewis Carol se reconstrói numa jornada solitária em busca de um espaço afetivo fátuo e incerto. A mobilidade dos protagonistas não é nomadismo sem raiz, mas impermanência das relações humanas nas cidades atuais. As mensagens dos celulares que hoje tomam de assalto, irresistidas, aquelas relações, fazem do filme de Wenders uma das mais bem-sucedidas sínteses estéticas da história do cinema.

 

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Sem esse tipo de experiência artística seria impossível a renovação teatral operada pelo Rimini Protokoll (Helgard Haug, Stefan Kaegi e Daniel Wetzel) via performance, radiodrama e instalação. Criaram um novo teatro documental, alternativo à relativa covencionalidade dramatúrgica mais ideológica de Peter Weiss. Conheceram-se na Universidade de Giessen, Alemanha. Trabalham juntos desde 1999 utilizando artistas que não são atores profissionais, mas personagens do mundo real. Em vez de atores que executam personagens apresentam pessoas com quem desenvolvem espetáculos de acordo com suas capacidades e habilidades profissionais “especializadas” da vida cotidiana.

Uma atividade emblemática do Protokoll foi “Call Cutta”, a terceirização do capitalismo globalizado contra si mesmo: Os artistas – ou “especialistas” – eram funcionários de um call center de Salt Lake ou Calcutá, proporcionando performances nos telefones celulares de um público posto em Berlim. Cada operador telefônico guiava apenas um espectador na narração da história de Subhas Chandra Bose, um revolucionário indiano.

 

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Tenho horror da picaretagem proposta por quem, ao filmar, não escreveu (pensou) detalhadamente um roteiro e desenhou story boards. Em vez de renovar, os clichês subjetivos se instilarão, traiçoeiramente, na forma final. Coisa bem diferente de improvisar o roteiro tendo-o escrito (ou pensado) antes para eventualmente desprezá-lo; porque tal roteiro deveria retratar a vida das pessoas, mas foi impossível, vista a complexidade existencial, formal e social de determinadas realidades. Essa foi a marca de Glauber Rocha e de muitos neorrealistas.

Hoje, quem está mais próximo disso é o diretor e roteirista britânico Mike Leigh (1943): estudou desenho, pintura, cenografia e atuação convencional. Fez parte de várias companhias de teatro nos anos 1960. Nos anos seguintes, dirigiu curtas-metragens para a televisão. No final da década de 1980, renova sua arte com a grande intensidade de filmes como “Nu”, “Segredos e mentiras” (aqui uma entrevista sobre), e Vera DrakeNo sentido inverso do Protokoll, empregou o ator com a consciência de que o “especialista” repropõe a própria realidade, mas trabalha numa ficção.

Mike Leigh criou um “neorrealismo” britânico. Rodou seus filmes com habitantes londrinos reais, fundiu suas individualidades e o fluxo existencial para mostrá-los como o que são e representam: arte, cujo suporte é a cidade e o espaço onde estão inseridos.

Não se pode cair na ilusão de realizar uma utopia dessas sem ter escrito (pensado) antes para evitar os clichês do mainstream alojados no subconsciente do criador, essa matéria-prima formal de qualquer artista, mesmo o mais anticonvencional. Mainstream que só pode ser percebido depois que ele passa pela transformação e gramatização da linguagem. Não gramatizar é como cozinhar arroz sem água, criticar sem conhecer a fundo o objeto criticado ou ouvir o som das palavras do interlocutor sem se aquietar. 

E aqui voltamos ao pensamento de Argan, para quem a acessibilidade da arte só pode existir nesse ciclo onde a sua fruição é o próprio sujeito inserido no espaço em que vive. No próximo artigo continuaremos o percurso de sugestões a partir desse mesmo pensador, mas a viagem será mais aventurosa. Até lá.


Fontes:
Mike Leigh na Internet Movie Database, IMDb.com Inc.

(*) Giulio Carlo Argan, História da Arte como História da Cidade, Martins Fontes, São Paulo, 2005, Pág. 72.

(**) Rei Édipo, Tradução de J. B. De Mello Souza, Clássicos Jackson.

(***) A Cidade Antiga, Numa-Denys Fustel de Coulanges, Tradução © 2006 Frederico Ozanam Pessoa de Barros.

(****) Vincenzo Scarpellini, San Paolo – Desenhos e prosa da cidade, 2011, Arthur Nestrovski Editor.

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