Papo com Paroni | Big Little Bill

Publicado em: 03/03/2014

* por Maurício Paroni de Castro, especial para o portal da SP Escola de Teatro

 

 

 

 

Perguntar-se que tipo de criança foi o pequeno William Shakespeare pode ser um exercício bastante útil para entendermos uma característica fundamental do trabalho no palco: a árdua dedicação ao artesanato que necessariamente precede a arte.

 

 

Seu burgo natal, Stratford-upon-Avon, tinha aproximadamente 10 mil habitantes. Não era pequeno para a época, se contabilizarmos a dizimação trazida pela Peste Negra. A consequente míngua populacional numa sociedade em expansão exigia a prática de muitas profissões por uma mesma pessoa. John Shakespeare ali prestava serviço na administração pública, mas era, principalmente, fabricante de luvas. Aprendiz, o filho William ajudava o pai. Tinha que cuidar muito da saúde; crianças morriam precocemente – pelo menos a metade. Para a mentalidade do período Tudor, ser aprendiz melhoraria a vida no além-túmulo. Em todo caso, burilar a alma para a Eternidade era um modo de se conhecer, pois não se tinha ideia do que era a personalidade individual. A importância do indivíduo se restringia às funções do ofício no coletivismo medieval, ainda praticado no ordenamento profissional. Mais tarde, a poética de Shakespeare seria a base maior da ideia de personalidade como a entendemos hoje.

 

Como Camões foi para o Português – Guimarães Rosa e Cruz e Sousa foram para o código brasileiro –, a figura de Homero para o Grego, Virgilio para o Latim, Dante para o Italiano, Rabelais para o Francês, a narrativa anônima de Ise para o Japonês, poetas estruturaram a linguagem a partir de um substrato muito mais popular que literário. Gramatizaram a vida humana ouvida na trilha das pessoas comuns. O teatro Elisabetano – Shakespeare, em particular – intuía o que pessoas anônimas ainda não conseguiam dizer, mas viviam em seu cotidiano sem saber nomear. Meus dois velhos glossários (*) – o mais interessante, datado de 1902 – elencam os termos derivados da palavra “criança” que Shakespeare gramatizou em suas peças: Child; childbed; childed; child-changed; childhood; childing; childish; childishness; childness. Não preciso traduzir, certo? Basta intuir: tal genialidade é coisa que somente quem cultivou uma eximia habilidade de artesanal podia realizar. Para ser um artesão era fundamental o aprendizado: quanto mais longo e severo, melhor o resultado.

 

Ser aprendiz implicava extrema disciplina: comer saudavelmente; dormir bastante para se estar concentrado no trabalho; ter rotina férrea para se desenvolver uma grande habilidade. Treinamento, rotina, concentração, hierarquia, disciplina, dedicação: qualidades essenciais para qualquer pessoa que sonhasse qualquer trabalho aceitável.  No palco elisabetano, mais ainda (Medieval, Renascentista, Dadaísta ou Pós-dramático: em qualquer tempo, o bom teatro jamais prescinde dessa prática).

 

William, o filho do artesão-administrador, teve o privilégio de alfabetizar-se – a cartilha chamava-se hornbook (**) – para estudar as disciplinas escolásticas da época, o trivium (***) e o quadrivium (****). Quando abandonou Stratford para ir Londres ao encontro da complexidade cultural do teatro, Shakespeare já estava formado no essencial. Esta fala de Jacques, de “Como gostais” (1599-1600), denota sua visão artesanal e intelectual da vida:

 

“O mundo inteiro não passa de uma cena em que os homens e as mulheres são somente os atores. Têm as saídas e as entradas, na vida cada um atua em muito papeis e os atos são sete idades. O primeiro ato traz o menino que choraminga e vomita nos braços da mãe. Depois vem o aluno choroso, com os seus cadernos e o rosto reluzente da manhã, arrastado como uma lesma que caminha em direção da escola muito de má vontade. Depois, o apaixonado, que suspira como uma fornalha e leva no bolso uma balada cheia de lágrimas para a sua musa adorada.


Depois, soldado com armas as mais esquisitas, vira uma espécie de leopardo bigodudo, protetor da honra de mão pesada e rápida, com o sangue nos olhos, que vai procurar defender a reputação até na boca de um caixão. Segue o juiz de farta barriga recheada de capões, de olhos severos, de barba caprichosamente aparada, inchado de sentenças e lugares comuns: com esse mesmo jeito interpreta o papel. A sexta fase faz do homem um pantaleão magricela de pantufas, óculos, bolsa e calças da juventude, cuidadas sim, mas folgadas demais para as secas canelas; o vozeirão do homem que voltou ao falsete infantil, sibilante e sem graça. O último ato afinal, o que fecha tal estória mais estranha e cheia de eventos, é a segunda infância: o mero esquecimento sem dentes, sem olhos, sem gosto, sem nada.” (Tradução e adaptação de Maurício Paroni de Castro)

 

A sua poética e o contexto histórico fizeram dele o grande artista de seu tempo. Ainda continua em expansão nos computadores, nas artes, na língua que, mais que qualquer outra (muito a ele se deve a causa), conta a civilização humana. Como um acelerador do Big Bang. Big Bill Shakespeare.

 

(*) Shakespeare’s Words e Shakespeare Lexicon and Quotation Dictionary.

(**) Hornbook era uma folha para educação infantil com as letras do alfabeto, montada em madeira, osso, couro ou pedra e protegida sob a transparência de uma lamina de chifre. Às vezes, a folha era simplesmente colada contra a fatia de chifre. A moldura de madeira tinha uma alça, geralmente pendurada na cintura da criança. O alfabeto estava inscrito em letras grandes e pequenas seguidas. As vogais em outra linha, com combinações com as consoantes. Estava sempre inscrita uma oração. Para se ter uma ideia da utilidade secular, vejamos dois versos de Ben Johnson em sua peça Volpone, ato IV, cena II:

CORVINO: (…), esses olhos

Tenham-na visto colada naquela tabua de cedro,

(…)

As cartas podem ali serem lidas com a tabela (horn),

De modo que a estória a nós torna perfeita.

 

 

 

 (***) Gramática, lógica e retórica. A palavra é um termo latino que significa “três vias”. Era base de uma educação medieval, uma espécie de ensino fundamental. Na época, a mecânica da língua Latina era a gramática; a mecânica do pensamento e da análise era a lógica; o meio de instruir e persuadir era a retórica. Gramática enquanto criação de símbolos combinados para possibilitar a expressão do pensamento, a lógica enquanto o próprio pensamento, e a retórica enquanto a comunicação desse pensamento de uma mente para outra. Ainda: a gramática ocupava-se como as coisas eram simbolizadas; a lógica, como eram conhecidas e a retórica, como eram comunicadas.

(****) O Trivium (daí o termo “trivial”) era preparatório para o Quadrivium: geometria, aritmética, astronomia e música. Essa foi a educação clássica à qual Shakespeare teve acesso.

Bibliografia

Leslie Dunton-Downer and Alan Riding , Essential Shakespeare Handbook, DK, London, 2004.

David and Ben Crystal, Shakespeare’s Words, Penguin Books, London,  2002.

Alexander Schmidt Shakespeare Lexicon and Quotation Dictionary, Dover Books, NY, 1971 and  Georg Reimer, Berlin, 1902.

Park Honan, Shakespeare, A Life, Oxford University, 1999.

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