Papo com Paroni | Arte é cidade; cidade é arte (III) – Uma conclusão

Publicado em: 13/02/2015

* por Mauricio Paroni de Castro, especial para o portal da SP Escola de Teatro

 

Citamos, nos dois artigos anteriores, a mística de Wittgenstein, o mandala católico – aqui compreendidos Bíblia, o livro mais vendido no mundo, e sua cópia chinesa (*) – e o Exu nas cidades.

Afrontemos, a seguir, uma dicotomia atualíssima: cultura nômade, urbe e barbárie. Atenção; não chamo de barbárie o que ignoramos, o que desconhecemos, mas sim a obscuridade humana, que não é privilégio do nazi estalinismo ou de outros horrores históricos.

Chamo de bárbaros os que se declaram representantes do que absolutamente não são. Assim como Nietzsche não foi nazista, o Estado Islâmico não é islâmico. São infinitos os exemplos de apropriações indébitas de uma cultura, para além das centenas de traduções e versões textuais de qualquer livro sagrado e de suas decorrentes interpretações. Mas são, infelizmente, percursos possíveis na história.

 

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A tradição literária árabe tem a peculiaridade de prezar radicalmente o anonimato quanto à narrativa; o Alcorão, diz-se, foi assoprado diretamente aos ouvidos do profeta Maomé. (**) Na idade de ouro da filosofia árabe, hoje seriamente afetada pelo dogmatismo, o filosofo medieval Averróis (1126-1198) negava a possibilidade de uma narração isolada formalmente da vida. A distinção aristotélica entre vida e mimese seria impossível: o fluir da existência não pode ser reproduzido pela arte se a primeira for entendida como Deus em si (visão comum na teologia árabe). Aliás, Aristóteles foi reintroduzido no próprio Ocidente através de sua obra.

 

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No Ocidente, as obras anônimas são mais usuais na cultura popular. A alta literatura é preferencialmente creditada à individualidade dos autores. Por mais que seja popular, é impossível cindir “Romeu e Julieta” de Shakespeare, por exemplo. Já Pirandello, o precursor da dramaturgia contemporânea, vinha da Sicília, talvez o pedaço do Ocidente mais influenciado pela cultura sarracena. Não foi acaso o desenvolvimento de sua poética de união, oposição e, por fim, fusão da arte com a vida.

 

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O nomadismo sunita fundamentalista defende a restauração do culto monoteísta “puro”. No século XVIII, Muhammad al-Wahhab (1703-1792), no deserto da Península Arábica, pregou uma purga de santuários e túmulos, quais “idólatras”, “impuros”. Por sofrer oposição dos líderes religiosos locais, dirigiu-se ao governante do lugar, Muhammad Ibn Saud, o fundador da dinastia que hoje governa a Arábia Saudita. Assegurou ao poder temporal obediência política, “poder”, “glória” e domínio de “terras e homens”. Tudo sustentado ideologicamente pelo jurista Ahmad Ibn Hanbal; Assim se formou o reino Saudita, restaurado no pós-guerra com o favor estadunidense pela posse do petróleo, pela rivalidade com os xiitas e pelo desprezo aos sunitas moderados.

 

 

Essa cultura vem das tribos nômades. Pode ser importante no centro de um deserto inóspito como o do entorno de Meca. Entretanto, a associação disso com as tensões do mundo árabe regrediu as sociedades a ele ligadas àquele nível civilizatório muito bem sintetizado no conto de Borges (**) da escrava e da urbe (ouça-o integralmente neste podcast).

 

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O autoproclamado Estado Islâmico nutre-se, igualmente, do conflito de interesses pelo controle da Meca, com tanto de lavagem de dinheiro e especulação de grandes potências. Estas, com população islâmica marginal, acabam envolvidas na violência decorrente. Estamos sim, diante de uma dicotomia civilizatória, mas não – ainda – no choque de civilizações que autoritários de todos os matizes desejam e incentivam. Alegoricamente, estamos dentro de uma cidade sitiada pelo nomadismo que incendiou a Biblioteca de Alexandria e quase toda a cultura helenística.

Se embaixo do deserto não houvesse petróleo, o problema seria bem menor, comparável ao que representam os Balcãs; exceção feita ao genocídio na Bósnia, estancado com a ajuda da intervenção estadunidense. A seu tempo, alguns neo Estados balcânicos também agiram barbaramente, antes da Primeira Guerra e nos anos 1990.

A receita desses conflitos “culturais” é rigorosamente a mesma: para o up grade de uma entrada em cena que globalize uma briga regional, promove-se atentados no e como Ocidente. Rússia incluída.

 

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Há um aspecto da nossa questão sobre arte e cidades que tem raízes nesse coquetel – por isso cheguei até aqui –: a intolerância de qualquer tipo de autoritarismo extremo ao cômico, no sentido bergsoniano (Henry Bergson,1859-1941). Intolerância à comicidade enquanto atividade humana que corre na superfície social para se espalhar velozmente qual subversão da linguagem vazia. Uma arma letal para a guerra e o poder constituído, percebida milenarmente pelos teatrantes e os que os perseguem há milênios.

 

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Do romance de Umberto Eco, “O nome da rosa, o filme homônimo de Jean-Jacques Annaud (1986) mostra Guilherme de Baskerville (Sean Connery) indagando uma suposta obra de Aristóteles sobre comédia. Jorge de Burgos (Feodor Chaliapin Jr.), claramente incomodado com a presença de tal obra no “corpus aristotelicum”, declara o riso incompatível com a piedade cristã. Durante uma análise da obra feita por monges misteriosamente assassinados, um deles sobe num banquinho, assustado com um rato. Os outros se divertem, mas Jorge acaba com a alegria: verba vana aut risui apta non loqui (“não pronuncieis palavras vãs, aptas a provocar o riso”).

 

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O riso transforma a mentalidade, é o grande demônio do status quo. Somos testemunhas de nossa época, mas narrá-la não basta. Também não basta pregar a transformação através de ideologia. Fazer isso sem dúvida é mais fácil, seja para conseguir subvenções, seja para conseguir consensos e aparências rasas. Do lado direito, arte ruim, mal redimida pela fama melo-televisiva. Do lado esquerdo, subvenção pseudoengajada com termo no molho branco de farinha e ervilha do restaurante “da classe”.

 

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A transformação de mentalidade e de visão de mundo provocada pela estética que decidimos empregar no espetáculo não é simples ou automática. Pressupõe risco da copresença corpórea e mental entre atores e espectadores, na unicidade fugaz do tempo, no extremo cuidado com os significados, na performance, na narração e na experiência estética que conduzimos dentro da existência das pessoas envolvidas.

 

(*) “O pequeno livro vermelho”, coletânea de citações do presidente da República Popular da China, Mao Tsé-Tung, e uma forma de culto à sua personalidade. Foi organizado por Lin Piao, Ministro da Defesa de Mao. A distribuição subsidiada deste livro pelo governo comunista chinês fez com que “O livro vermelho” se tornasse o segundo livro mais vendido na história, atrás apenas da Bíblia, tendo aproximadamente 900 milhões de cópias impressa. (Fonte: Wikipedia)

 

(**) Segundo esta fonte islâmica, o Alcorão foi revelado aos poucos. O anjo Gabriel o trouxe para o Profeta Maomé, que o memorizou. Depois, ele foi preservado de duas formas. A primeira, pela memorização. Havia um número de primeiros muçulmanos que memorizava cada revelação assim que era revelada e, desta forma, todo o Alcorão estava memorizado quando veio a última revelação. A tradição de memorizar todo o Alcorão ainda continua, e uma pessoa que conhece o Alcorão de memória é chamada de Hafiz Qur’an.

 

(***)” História do guerreiro e da cativa”, de Jorge Luís Borges, pertencente ao livro “El Aleph” (“O Aleph”). Conta a história do guerreiro que abandonou o seu exército para defender, e morrer, pela cidade que antes atacava e a da inglesa raptada por índios que, ao lhe ser dada a possibilidade de voltar, não quis, por forças profundas. Um ímpeto que nenhum deles conseguiu explicar, mas que ambos acataram.

 

Pesquisa:

http://www.newadvent.org/cathen/02150c.htm (enciclopédia católica)

http://www.islamicbook.ws/quranpdf/quran2.html (livros islâmicos)

http://espectadores.blogspot.com.br/2011/06/o-riso-no-nome-da-rosa.html

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