Papo com Paroni | Aposta do ensaio – aposta do não ensaio (I)

Publicado em: 05/12/2014

* por Mauricio Paroni de Castro, especial para o portal da SP Escola de Teatro

 

Na Satyrianas deste ano, criei duas performances que resumem o que pesquiso há, pelo menos, 25 anos: a concretude do limite entre ficção e realidade.

 

A primeira performance, DiElétrica, feita a convite da Companhia Chevaux Légers e Berkeley University, veiculou um modo pessoal de ver a aposta de Pascal (*): “Deus não existe – ou existe, saio a procurá-lo”. Para além do ganho ou da perda, do problema da existência ou não de deus, investigamos a noção da “estrada a ser feita”.

 

Parti de Pascal — Agora, que danos podem cair sobre você ao escolher seu lado?… eu argumentaria que você irá ganhar nesta vida, e que a cada passo nesta estrada você terá cada vez mais certeza do ganho, e muito mais ainda do vazio do que você aposta, que você irá ao menos reconhecer que você apostou por algo certo e infinito, pelo qual você não precisou entregar nada (**) – para, em sentido invertido, apostar na existência de um suposto “espírito” no além-túmulo a ser consultado como consequente fardo do consultador, que, qual Hamlet, deve vingar o pai assassinado no mundo dos vivos.

 

Anunciamos ao público presente que faríamos rodas Dervishi (**) para depois sortearmos uma pessoa para fazer uma pergunta silenciosa e secreta ao espírito de um seu antepassado, demônio ou santo que fosse. O sacerdote mentalista Follini (Leonardo Silvério) a respondeu publicamente. Um inconsciente respondeu a outro, obra do acaso que teve o sentido que a ele quiséramos atribuir. Foi simples exercício cênico, uma ironia conectada ao vivo com alunos da Universidade de Berkeley. Lá, sabiam do “espírito” e do “espetáculo” tanto quanto nós: nada. Este, o denominador comum e incontestável, por ser fato e não suposição cênica. Absolutamente nenhum ensaio; não se pode ensaiar a vida em si, quanto mais os espíritos do além. Mas pode-se procurá-los.

 

***

 

Já o que ocorreu no palco da segunda performance era concreto e real, pois o público ouvia uma gravação do texto ficcional do autor Marcio Aquiles. No palco, tendo assinado um contrato de consentimento, dez voluntários foram chicoteados pelos atores que emprestaram as vozes à gravação.

 

A real atitude do público foi, além de ouvir a ficção gravada, tentar ver a tortura, mesmo ofuscado por uma forte luz contra seus olhos. Todos agiram de verdade, mas com a consciência de estarem a serviço de uma ficção. A metáfora era política, para parte do público. Para outra, fetichista. Para alguns atores, foi uma descoberta: o fetichismo ideológico. Queriam bater e gritar que a vítima que apanhava era “de direita”, admitiram alguns.

 

***

 

Como trabalhos simultâneos não podem ser isolados, associemos isso ao Grand Guignol disponível na seção Radioarteda SP Escola de Teatro: o papel dos loucos de Engenho da Loucura está aberto à participação de qualquer voluntário a contar estórias avulsas de sua vida. Gravados, contextualizo-os como egressos da segregação de uma cela que fingem, a duas jornalistas, serem funcionários do hospício.

 

Neste último, um sultão acaba castrado por uma “atriz” que imaginou um cafajeste realmente encontrado. Ela gravou a narração de uma desejada castração daquele sujeito. Outro ator, que não sabia o que fazer além de tocar flauta, narrou a sua impossibilidade. Mas virou um assassino, depois de uma fala de apenas dois verbos da narradora e de outra louca. Castram-no e libertam uma freira que se acredita virgem. Segue o non-sense, com loucos libertados indiscriminadamente. Não posso contar o final. Também aqui vale o caminho de Pascal.

 

***

 

Ao ensaiar o espetáculo homônimo somente por dois dias no teatro Crowne Plaza, elaborei a trilha de barulhos e músicas por um mês. Os dias de que dispúnhamos não davam para ensaiar nem um terço dos efeitos nela contidos. Invoquei um louco mudo, o lendário Gordobtusus criado pelo pintor Giampaolo Köhler anos atrás em Milão, que entrava pela porta do camarim. Eliminei a cenografia e concentrei tudo naquela porta. Todas as tensões e os loucos sairiam de lá. A luz também, pela festa. Pus as caixas de som atrás da porta e pedi ao técnico que reproduzisse a trilha ininterruptamente em volume razoável. Gritos, descargas, música, gemidos, máquinas, lâminas, tudo, sem deixas. O som era de um quarto de horrores. A porta se abria, o som entrava. Ficamos atônitos. Qual melhor representação para um hospício?

 

Deu medo. O caminho do não ensaio requer humildade, raciocínio rápido, frio e nenhum improviso. Impossível ignorar o real, como se poderia imaginar nessa forma de radicalismo. Ignorar a dificuldade é arrogância de zen-budista tchoptchura que pode custar caro (****): a narração do biógrafo de Steve Jobs é eloquente.

 

***

 

Insuperável engenho da arte, a necessidade concreta afirmou-me que o training de pesquisa iconoclasta e experiência de montagens convencionais são indispensáveis, mas… Ensaiemos somente o que podemos ensaiar. Há o que não podemos. Praticar, sempre. Treinar, muito. Estudar, até a exaustão. Trabalho, até a morte. Ensaio, na montagem. No teatro Noh, ensaia-se uma vida toda, uma vez na vida. Mas isso fica para o próximo artigo.

 

(*) Muito resumidamente: Viver como se deus existisse nos proveria um ganho infinito, mesmo não tendo como prová-lo.

(**) Pensées Seção III nota 233, página 40, Tradução por Rafael S. T. Vieira.

(***) Em persa e árabe, Darwish, “pobre”, “monge mendigo”, são discípulos de algumas confrarias ascéticas  que se destacam na “mente das paixões e das seduções do mundo”. É um termo genérico relacionado a muitas irmandades sufisislâmicas, embora basicamente refere-se ao Tariqa da Ordem Mevleviye. Pratica a roda incessante de seus corpos sobre si mesmos. 

(****) http://oglobo.globo.com/sociedade/tecnologia/steve-jobs-se-recusou-fazer-cirurgia-que-poderia-ter-salvado-sua-vida-afirma-biografo-2897802

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