Papo com Paroni | A respiração de um afresco iluminista

Publicado em: 09/09/2013

* por Mauricio Paroni de Castro, especial para a o portal da SP Escola de Teatro

 

Indago-me sistematicamente, por metodologia mesmo, sobre se o que presencio a cada ensaio, a cada palavra, a cada espetáculo que trabalho ou assisto, é um exemplo de arte completa. Tive preciosas sugestões no pensamento ao assistir a São Paulo Companhia de Dança numa agradável quinta-feira de agosto. Aqui, o que intuí durante aquela hora e meia:

 

Arte completa ocorre:

 

– Quando Garcilaso de la Vega, Miguel Bosé, Jordi Savalll, Nacho Duato, Jiri Kylián, Mozart,  floretes e crinolinas – sustentados no ar pela dança de um raro corpo de baile – reúnem-se para realizar um ato onírico feliz;

 

– Quando pelejam laminas nas palavras de Garcilaso de la Veja, príncipe da poesia espanhola nascido em Toledo, significantes fundadores do infinito universo hispânico do século de ouro;

 

– Quando floretes delineiam a sensualidade vertical e masculina de Mozart, e crinolinas são glissadas horizontalmente por mulheres que constroem a revolucionaria respiração de um afresco iluminista.

 

– Quando o vento do ar fendido perpassa coreografias antagônicas mas complementares, dançadas com uma paixão e precisão como nunca vi em outros lugares do mundo, porque próprias e constitutivas em si de seus intérpretes e criadores. A gravidade a próprio favor é uma característica do bom bailarino. Esse corpo de baile, de excelência internacional, é o responsável por uma arte acima da gravitação. É composto pela força de bailarinos jovens, talentosíssimos, gente simples e genuína que alimenta com a felicidade de dançar cada um de seus passos, personagens e máscaras.

 

Que essa dança continue.

 

E, posto que a arte em questão é completa, é importantíssimo que lhe seja reservado um papel sólido em nossa sociedade. Que ela viaje, que se espalhe, que seja presenciada pelo maior número de pessoas possível. Além de qualquer dialética estética: trata-se de política cultural fundamental para que se conquiste a importância histórica que o Brasil ambiciona – e precisa ocupar – entre as nações; é arte completa, e arte completa é politicamente indispensável.

 

 

“Petite Mort”

Coreografia: Jirí Kylián

Assistente de coreografia: Patrick Delcroix

Músicas: Wolfgang Amadeus Mozart; Concerto para Piano em Lá Maior KV 488

(Adagio) e Concerto para Piano em Sol Maior KV 467 (Andante)

Cenografia: Jirí Kylián

Desenho de figurino: Joke VisserDesenho de luz: Jirí Kylián (concepção), Joop Caboort (realização)

Supervisão técnica de luz e palco: Kees Tjebbes

Remontagem para a SPCD: Patrick Delcroix

Estreia mundial: 1991, Salzburgo

Estreia pela SPCD: agosto de 2013, São Paulo

 

“Por Vos Muero”

Coreografia: Nacho Duato

Músicas: Jordi Savall – Música antiga espanhola

Desnho de luz: Nicolás Fischtel

Poema: Garcilaso de la Vega

Voz: Miguel Bosé 

Remontagem: Thomas Klein e Tony Fabre

Organização: Carlos Iturrioz Mediart Producciones SL (Spain)

Execução de cenário e figurino: FCR | Fábio Brando

Estreia mundial: 1996, Compañía Nacional de Danza, Madri, Espanha

Estreia pela SPCD: 2013, São Paulo

 

 

*Maurício Paroni de Castro é coordenador do projeto “Chá e Cadernos”, na SP Escola de Teatro

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