Papo com Paroni | A função do urso

Publicado em: 19/08/2013

por Mauricio Paroni de Castro*, especial para o portal da SP Escola de Teatro

Ensina-se a tragédia grega tendo somente Aristóteles na cabeça, mas o público atual se parece muito mais com o rústico público romano. Ama-se hoje a morte ao vivo na TV, nos filmes de Hollywood – ou mesmo na internet. É muito maior o número de pessoas que curte tais requintes de “verdade” que o número de quem assiste a uma tragédia grega. Já os romanos queimavam vivo um delinquente vestido de Hércules por récita “histórica”… Quando não, um Orfeu de retorno do Hades para ali era reexpedido via esquartejamento por urso.

Sempre houve uma competição feroz entre arte e a realidade para atrair o interesse do público: a suspensão da desconfiança é fundamental para que se “entre” no enredo.  Enquanto a elitista democracia grega gramatizava a realidade através de sua imitação tragicômica, o pragmatismo romano a expunha da maneira mais crua possível. Isso era ditado pela manipulação da imensa massa populacional da Urbe – e por seus patrícios como fonte de legitimidade.

É quase impossível frear o apetite pela crueldade na representação. O gosto parece frear a sanha de sangue. Parece, somente. Há progressão geométrica da violência nos esportes, na arte, na comunicação de massa, na vida social, até que tudo pareça uma ficção.

A linguagem da violência tende a tornar a ficção atraente, suportável e “verdadeira”,  legitimando sua presença na vida real das pessoas.  Reality shows,  Ratinho e sucedâneos existem somente por isso. Para refletirmos um pouco além do eventual valor artístico ou formal, convém prestar atenção na função que qualquer papel representado no mundo real assume na nossa sociedade. Esta é uma pergunta que qualquer artista pode fazer cotidianamente para afinar a criatividade ao próprio tempo.

*Mauricio Paroni de Castro é coordenador projeto “Chá e Cadernos”, na SP Escola de Teatro

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