Papo com Paroni | A dor, matéria-prima do drama

Publicado em: 23/09/2013

* por Mauricio Paroni de Castro, especial para o portal da SP Escola de Teatro

 

Todos os stabat mater dos grandes compositores do Ocidente principiam com estas dramáticas palavras, cerne dos dramas ocidentais:  “A mãe estava prostrada dolorosa, chorando ao pé da cruz de onde pendia seu filho.”

 

Este ato de dor transmite o momento agudo da comunicação teatral do racionalismo cristão. O sentimento do que se convencionou chamar de alma. Podemos chamá-lo de pietas, de compaixão. Foi a verdadeira revolução estética nascida no cristianismo. Essa dor da mãe confundia a inteligência racional do ideal clássico greco-romano com o que não havia definição clara: o sentimento individual (que somente Shakespeare iria estabelecer). Era também confundido com o pathos, a força emotiva e irracional que se opunha ao logos, o racional.

 

No mundo grego, o racionalismo expressado através dos sons da prosa prescindia do sentimento da compaixão. Era um fato racional e os associava na razão, na certeza de serem humanos; estamos um pouco mais longe do instinto, seguindo a dualidade platoniana corpo-alma.

 

Não se sabe ao certo, mas parece que, na antiguidade clássica, o baixo contínuo da viola da gamba das musicas barrocas – o baixo e a bateria no rock –, a ditar o rimo do corpo, o tum-tum, tum-tum do coração, era marcado pelos sons agudos, mais afeito ao racional para nós. Impressionante deveria ser então a atuação cênica… Remete-nos aos jovens castrati do Renascimento italiano, evirados para se ter um canto com vagos resquícios do humanismo grego.

 

Para não ficar muito longe disso: No Brasil temos o Ney Matogrosso, cujo timbre associa gênero e sexo, mas o buraco está bem mais embaixo. Ou acima, depende do ponto de vista, mas ali estamos todos nós, no presente e no passado, no suplício da dor, no grito e no lamento, na injustiça constitutiva da condição humana, no eco a Albert Camus: o homem sabe que vai morrer e não se conforma. Associamos o sentimento de viver a compaixão da maternidade à essência da moralidade ocidental. O teatro renasceu assim no Ocidente, nas encenações da Virgem escritas e protagonizadas pela soror Roswitha di Gandersheim, na baixa Idade média (985 d. C. ). 

 

Viver a paixão no mundo antigo estava mais próximo da catarse. O romano se divertia com a dor alheia… Enquanto o cristão tende – ou finge tender – a sentir piedade de quem sofre. É… nós ainda tentamos sentir e ensinar a sentir. Mas tenho muitas duvidas se isto ocorre no teatro atual, e nem sempre a culpa é dos artistas. O publico, o receptor, talvez esteja cada vez mais distante deste sentir. Vida contemporânea dixit. 

 

Alguns crimes recentes mostram que a criançada anda se divertindo em matar para assistir ao sofrimento: e gabar-se socialmente, num espetáculo macabro e doentio, longe até dos romanos. Muito longe do paraíso e do inferno. Ou da história.

 

* Maurício Paroni de Castro é coordenador do projeto “Chá e Cadernos”, na SP Escola de Teatro

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