Ibsen e o desfiladeiro onírico: Fosse

Publicado em: 20/02/2020

Mauri Paroni
Chá e cadernos 100.22

 

Há um princípio budista no Sutra do Lotus (*) (segundo a tradição da Soka Gakkai) que está gravado nos versos desses ideogramas:  nini funi funi nini – literalmente: dois, mas não dois. Entre budistas, enuncia a inseparabilidade da vida e seu meio ambiente.

Nos artigos anteriores, foi citado o paradoxo da indivisibilidade de Zenon [aqui: https://www.spescoladeteatro.org.br/coluna/narracao-personagem-conflito-contemporaneidade/  } e a oposição da dualidade do fluxo da existência versus a organização de uma trama. Trocando em miúdos, aquele início, meio e fim de uma estória”, mais a coerência “psicológica” de uma personagem, que quer parecer “real” a um espectador em alternativa ao nonsense – ausência de sentido referido à trama.

Se eu pudesse estabelecer qualquer remissão literária, para o escritor e dramaturgo norueguês Jon Fosse (1959-), à prosa brasileira, seria Clarice Lispector (1920 – 1977), pelas entrelinhas de emoção da existencial amorosa das palavras de suas personagens.

Somente em dois textos da literatura dramática (**), dentre os que li em 40 anos de teatro, há personagens que transitam, vertiginosamente, entre a vida e a morte sem serem fantasmas ou abstrações poéticas: este Fosse de “ Adormecidos” e o drama “Quando nos mortos despertamos” (Når vi døde vågner), do também norueguês Henrik Ibsen (1828 – 1906). É o mundo do realismo expressionista desses dois autores. Nem Shakespeare nos deu tal deleite dramático. Um laivo dessa genialidade foi tocado por Nelson Rodrigues (1912 – 1980) no expressionismo oriundo de seu realismo mítico urbano brasileiro de “Vestido de noiva”. A coisa não escapou a um diretor do porte do polonês radicalizado no Brasil Zbigniew Ziembinski (1908 – 1978), que com ela revolucionou os palcos brasileiros.

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Ibsen fotografado por Gustav Borgen, em 1900

Gustav Borgen – Image:Henrik Ibsen phototographed by Gustav Borgen (1865-1926).jpg

 

Esta seria última cena da última obra de Ibsen, “Quando nós, mortos, despertamos”, bastante visionaria para a sua época, escrita aos 71 anos, em 1899. No primeiro final eu ele escreveu, um gestor do resort de montanha, Ulfheim, leva champanhe ao topo da montanha e todos os quatro personagens fazem um brinde à liberdade. Ulfheim e Maia, a esposa do escultor Rubek, descem dali. Irene, a sua ex modelo e futura amante, comenta: “ela despertou do sono pesado da vida”; desaparece com Rubek nas névoas, para o topo da montanha. O sol brilha acima das nuvens… coisa comum em nosso tempo, quando o avião supera as nuvens mais altas e o sol entra pela escotilha, casais podem bebericar um espumante branco, celebrando um vai saber que sensação de liberdade…

 

Ibsen mudou esse final: Irene confessa a Rubek que quase o matou antes, mas desistiu ao constatar que ele estivesse morto, por ter encerrado a vitalidade dela numa escultura que o havia projetado mundialmente como artista; ela refere-se a si mesma como defunta, considera que o amor terreno está morto em ambos. No entanto, ele observa que ainda estão livres, insistindo que “por uma só vez vivamos a vida até o fundo… antes de voltarmos aos nossos túmulos”. Irene sugere fazê-lo acima das nuvens da tempestade que se aproxima. Sobem a montanha para que possam casar-se simbolicamente sob a luz solar, mas são soterrados por uma avalanche, sob o olhar atônito da soror que os seguia em segredo.

 

Mais ou menos como o modo de uso dos celulares hoje “rouba” a vitalidade das pessoas e de suas relações humanas. [  https://www.spescoladeteatro.org.br/noticia/papo-com-paroni-impossivel-nao-performar-iii/

https://www.spescoladeteatro.org.br/noticia/papo-com-paroni-impossivel-nao-performar-iv/ ]

 

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Quis a tradição daqueles fiordes – onde cheguei a dirigir duas décadas atrás, e a magia dali é aquela mesmo – que surgisse a inquietação das situações inconsúteis de Jon Fosse, em seus diálogos de “adormecidos” no desfiladeiro onírico que nenhum “gancho” dramatúrgico aprisiona. Da primeira à última fala daquele texto.

 

Não poderia resumir aqui a trama de “Adormecidos” como o fiz anteriormente com Ibsen, pois Fosse constrói personagens que se negam afirmando em secos sins, apelando ao tempo real que não se opõe em dialética. São diálogos que podem ser vistos como surreais, como o autor sugere no título original, “Svevn”, sensivelmente percebidos pelo tradutor brasileiro, Rodolfo García Vásquez.

 

As personagens de “Adormecidos” transmigram entre si, passado e futuro, entre atores, entre espaços, entre ritmos existenciais, entre falas, entre situações, entre signos. Não há atrito engajado na trama, como na convenção realista/expressionista de Ibsen, de mais de cem anos atrás. O atrito que elas criam é no sentido. Isso gera maravilha do leitor/espectador. Gerar maravilha é um dos elementos necessários à teatralidade. Para sermos diretos, desde a crise representada pela falta de sentido no mundo, típica das personagens do irlandês Samuel Beckett (1906 – 1989), não se tem notícia de um autor com uma teatralidade de evidente e imediato engajamento do público. A crise do drama contemporâneo aqui não toma pé. Além disso, dá, a quem o intérprete e dirija, a possibilidade de abrir o leque de significados existenciais. A ideia da transmigração entre artista e arte representada toma o pé do existencialismo cristão do dinamarquês Soren Aabye Kiekegaard (1813 – 1855).

 

Do ponto de vista convencional de retórica de palco, a emoção se transmite a uma plateia através das vogais; e o a definição dessa emoção se relativiza quando o nosso aparelho fonador (respiração, língua, garganta, lábios, dentes) utiliza as consoantes para tal. Isso, por sermos de retorica latina, mediterrânea.

 

É uma partitura.

 

A partitura de “Adormecidos”, na justaposição de personagens projetadas entre si através de concordâncias e discordâncias, estabelece uma musicalidade que nos leva à real teatralidade dos sonhos. Há a compaixão entre todos os presentes que somente o teatro oferece. Nenhuma outra forma artística dá suporte a esse material. Nenhum cinema, nenhuma pintura; somente atores enquanto seres humanos de carne, osso, cérebro e palavras estabelecem a visceralidade de lembrar ao público: “eu sou você amanha.” Existencialismo.

 

Pela maneira de ordenar as falas, Fosse descreve o que pensaria pessoalmente naquelas situações. Não repete o misticismo do artista “profissional” na maioria das pessoas de teatro que encontrei na Noruega. Convertido ao Catolicismo, além de tradutor da Bíblia, Jon Fosse cultiva a ideia do amor desapegado do medo. Quando suas personagens resvalam a possibilidade de um trabalho psicológico nas falas, as emoções e os sentimentos dos indivíduos diante das escolhas da vida encontram a compaixão do “Não façais aos outros o que não quereis que vos façam.”

Jon Fosse

“Knut A. Syed (KAS)” – Obra do próprio

Jon Fosse, norsk forfatter og dramatiker

 

O artista que consegue a justa concentração para manter este autor nas mãos tem possibilidades infinitas, pela sua amplitude humana; mas que não se iluda, pois infinitas possibilidades não é espontaneísmo ético ou formal; muito  menos a fuga a  um tipo de sentimentalismo que leve ao depressivo de protesto; trata-se de um autor vital – a divida de quem o encena é tão imensa quanto as possibilidades de sua obra.

 

Permito-me sugerir ao leitor tomar esta citação atribuída a Kierkegaard como um recado dado diante de Jon Fosse:

 

“O maior perigo de todos, o de nos perdermos de nós mesmos, pode ocorrer muito calmamente no mundo, como se não fosse nada. Nenhuma outra perda pode ocorrer tão silenciosamente; qualquer outra perda – um braço, uma perna, cinco dólares, uma esposa, etc. – seria certamente notada.” (***)

 

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(*) A Pedagogia da Felicidade de Makiguchi, Rira Ribeiro Voss, Antropóloga da Universidade Federal de Pernambuco e Universidade de Lyon 2, edição eletrônica  Papirus Editora, 2014, ISBN 9788530810955

 

(**) Segundo a Encyclopedia Britannica, literatura dramática são textos de peças a serem lidos, diferente de serem vistos e ouvidos em cena. O termo literatura dramática implica uma contradição onde a literatura originalmente significava algo escrito e drama significava algo realizado.

 

(***)https://www.pensador.com/frase/MjI3MDkxNQ/

 

 

Personagens do último drama de Ibsen.

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