Demônios, Faustos, Strehler, Bob Wilson

Publicado em: 14/05/2021

Mauri Paroni
Chá e Cadernos 100.42

Em tempos de demônios orientais – segundo más línguas autocráticas ocidentais – lembro-me de ter avistado dois deles em 1989. Entrevistei e conversei com diretores e autores para a Folha e escrevi o artigo reproduzido abaixo, gentilmente cedido pelo arquivo do jornal.

Lembro-me bem de todos os figurões encontrados naqueles dias, de suas genialidades, de suas idiossincrasias. Fui aluno de alguns. Trabalhei com outros. Acompanhei seus ensaios diariamente. Ao fim de minha formação, presenciei um Giorgio Strehler (1921-1997) bastante angustiado por expor o ator regular que era ladeado pelos excelentes artistas de sua companhia, que tão bem dirigia. Tudo era resultante da egolatria de colocar-se como ator protagonista de uma pesquisa entre Fausto, ele próprio e Goethe – o gênio do Romantismo alemão de ligações profundas com a Itália. Declarava no programa de Fausto, parte primeira, de 1989: «(…) Fausto estava esperando por mim no limite de minha vida como artista, depois de ter acompanhado, calmamente, o meu caminho durante décadas». Mais de uma vez vi dezenas de artistas esperando recados dados por assistentes – que dirigiam os ensaios – “o mestre está apaixonado e indisposto. Nós continuamos o trabalho”. Fosse ironia, seria tudo à altura de sua genialidade. Mas era sério, o que transformava a ação teatral belíssima, cenografada por Josef Svoboda (1920-2002), iluminada por Strehler, com atores históricos no palco e famosos na platéia, num imenso Big Brother de luxo. Numa corte, num castelo, como era o teatro Studio, inaugurado com aquele espetáculo, destinado a espaço de prova para a escola homônima ali sediada. Expressão, pensava eu na iconoclastia dos 27 anos, do decadentismo daqueles anos de recursos justificadíssimamente volumosos em produções do teatrais da Milão daquele período.

 

Foto do programa de sala do Faust, fragmentos, parte primeira, 1989. Strehler protagonista total

 

Bob Wilson estreou no mesmo 1989, no Teatro alla Scala, o seu Doktor Faustus, ópera do milanês Giacomo Manzoni (1932- ), baseada no romance homônimo de Thomas Mann (1875-1955). Trabalhou com Gianni Versace (1946-1997), que realizou os figurinos e forçou a demissão de mímicos por “estarem acima do peso ideal para os meus vestidos”. Ali, comecei a admirar os atritos existenciais e produtivos nascidos em se ver o espaço teatral como ambiente e os figurinos como roupa. Houve, de cara, a greve dos mímicos, seguida pelos demais artistas, contra a atitude do estilista. O motivo central da indignação foi a exigência do controle “estético” do peso do elenco, apoiado pelo diretor, feita por Gianni, que viria a ser assassinado em Miami Beach anos adiante. Vi, pela primeira vez, uma greve de artistas em defesa de uma ética da linguagem. Coisa hoje impossível, dada a fúria escravocrata de nosso tempo.

De maneira jocosa, um pequeno drama radiofônico sobre Bob Wilson foi produzido pela SP Escola de Teatro há três anos.

(Ouvir e saber mais aqui):

>> Sete longínquos ecos brasileiros surrealistas no Scala

>> Radioarte | Bastidores inesperados no Scala de Milão II

 

Wilson agora faz espetáculos mais simples. São igualmente tensos, mas a dialética entre as imagens daquela ópera de décadas atrás não me sai da cabeça. Eram diapositivos projetados de centenas de metros pelos lendários refletores austríacos Pani sobre atores, mímicos, cantores e objetos. Infelizmente, foi impossível para mim fotografá-los. Inesquecíveis.

Fotos de Lelli & Masotti. Fonte: http://www.robertwilson.com/doctor-faustus-manzoni

 

Teria muito mais a escrever sobre aqueles atritos entre as duas concepções antagônicas de teatro. Teria (terei, espero) outros tantos espetáculos a criar a partir de tais vivências online, on screen e on stage. Preservo aqui, porém, importância maior ao que foi publicado na época. Haverá modo de voltar ao assunto em futuro próximo. Tem muita coisa rolando ainda sob a nossa ponte hodierna. Antes de tudo, o que fazer para que não nos deixemos submergir ou deprimir. A nós compete propor gramáticas e respostas concretas à pandemia assim que passarem os seus mesmos flagelos.

Vamos ao artigo de 1989:

Wilson e Strehler montam novas versões de ‘Fausto’ na Itália

Maurício Paroni de Castro
De Milão, Especial para a Folha

No intervalo de um mês , Giorgio Strehler e Robert Wilson , dois dos maiores diretores do teatro contemporâneo, encenarão em Milão, Itália, suas diferentes versões da lenda de Fausto. Giorgio Strehler, que ainda este ano virá ao Brasil, está em cartaz com a primeira parte da versão integral da obra de Goethe (1749-1832) , onde ele próprio interpreta o papel de Fausto . Bob Wilson estreará em maio a ópera “Doktor Faustus”, fiel transposição dodecafonica do romance de Thomas Mann , musicado por Giacomo Manzoni.

A lenda de Fausto se presta a um duelo deste nível . O drama do herói que desafia Deus e se alia ao demônio para conquistar a onisciência terrena é a própria identidade do Ocidente moderno. Desde o século 16 , e não por acaso na Alemanha , a tentativa de se estabelecer uma dialética entre o humano e o divino atinge a sua melhor elaboração mÍtica com a história de Fausto .

Giorgio Strehler, 68, é fundador, juntamente com Paolo Grassi, do Piccolo Teatro de Milão. O Piccolo Teatro desenvolveu uma linha de encenação marcada por alta expressividade, aliada a um acentuado senso plástico . Em 1854 , a companhia apresentou no Brasil a peça “Arlequim Servidor de Dois Amos”, de Carlo Goldoni . Há alguns anos, Strehler dirige , em Paris , o teatro da Europa , antigo teatro Odeon.

O diretor norte-americano Robert Wilson , 47 , de trajetória bem mais recente , ja tem o seu nome ligado às inovações teatrais contemporâneas. Mudo até os 17 anos, estudou arquitetura de interiores até começar a trabalhar na educação de jovens com deficiências na fala. Em 1969, estreia “ THE King of Spain” e “The Life and Times of Sigmund Freud”, seus primeiros espetáculos. No ano seguinte , o sucesso de “Deafman Glance / le Regard du Sourd” , no festival francês de Nice, tornou o nome de Wilson conhecido na Europa . Quatro anos mais tarde , Wilson trouxe ao Brasil ” The Life and Times of Joseph Stalin”, espetáculo de 12 horas que foi apresentado no Teatro Municipal de São Paulo. O teatro de Wilson busca provocar alterações na percepção do público , através do uso da câmera lenta, recurso que desacelera a movimentação cênica.

A melhor elaboração estética do mito de Fausto é o drama de Goethe, considerado praticamente inadaptável ao palco . Giorgio Strehler está enfrentando esse desafio . Ele pretende que esta encenação seja seu testamento artístico e para isso movimenta um verdadeiro exercito.

Para estrear os primeiros 2.500 versos (a obra tem 12.111) , utiliza seus melhores atores e aspirantes, uma banda de rock e o cenógrafo tcheco Josef Svoboda . O projeto será concluído em 5 anos , num espetáculo permanente, construído, passo a passo, em sucessivas estreias . As cartas de Goethe, o cinema, a dramaturgia, a música, as montagens, os enfoques psicanalíticos inspirados em Fausto, sao alguns dos assuntos a serem envolvidos pelas encenações.

Mas o melhor espetáculo é assistir ao drama de Strehler no papel do próprio Fausto . Ele dirige e interpreta o papel-título , mesmo não sendo um bom ator de palco. Além de Fausto , ele também interpreta o exímio esteta que escreve seu testamento trancado em seu inexpugnável castelo , tentando resistir heroicamente a crise sem precedentes “ da cultura ocidental. “Fausto, esse grande filho da puta, não sou eu e nem Goethe, mas para nós dois foi necessário uma vida inteira para criar esse personagem que vence o tempo”, diz. Strehler quer ser imortal e interpreta Fausto , mas não quer ser Fausto. Eis o drama.

O outro feudo

A apenas quatro quadras dali , o outro grande feudo teatral de Milão, o Teatro Alla Scala , contratou Bob Wilson para montar ” Doktor Faustus”. Como Strehler , Wilson esta movimentando outro exercito: além dos efetivos do teatro ( cerca de 500 profissionais ), contratou mais uma orquestra , vários mímicos e atores – entre os quais está Claudia Botta, que trabalhou em “Língua da Montanha”, de Harold Pinter, encenada em São Paulo em montagem promovida pela Folha.

A trama é uma variação sobre o tema de Fausto . Trata-se da história de um certo Adrian Leverkuhn , compositor dodecafônico que fez carreira durante a ascensão de Hitler . Adrian pactua com o diabo que lhe promete 24 anos de potência criadora, mas depois a perdição. Diferentemente “Fausto” de Goethe , Adrian morre sofrendo de sífilis em sua cidade natal, no dia em que a Alemanha invade a Polônia , iniciando a guerra. Bob Wilson amplia a metáfora histórica de Thomas Mann , citando a Alemanha dividida do pos-guerra. É uma empresa particularmente difícil. Conversando com o compositor Giacomo Manzoni , percebe-se que a ópera herda as polemicas suscitadas pela publicação do romance, em 1947. Entre tantas polêmicas , “a maior foi a troca de cartas nos jornais americanos onde Schoenberg acusava Thomas Mann de roubar as ideias do dodecafonismo e colocá-las na boca e na pena de um sifilítico inescrupuloso, declara o compositor .

A habilidade de Wilson vence as complicadas digressões da trama, criando , através das personagens contínuas trocas de atmosfera , peralelas as citações do libreto . Não se sabe nunca o que vai acontecer.

Em uma cena pode entrar um obeso, uma janela ou uma imensa grade. No final, percebe-se que tudo não passa de uma imensa repetição obsessiva, mas vista de ângulos diferentes. Wilson renova o seu recado contra os clichês da vanguarda . Não se resolvem cenas somente com citações. O teatro com história ou sem história precisa ter jogo para criar tensão. E, para ter tensao, Wilson faz o público digerir lentamente as ações, mesmo que a ação consista em ficar parado no palco por horas. É essa a grande diferença entre a vanguarda e o seu manerismo.

Mauricio Paroni de Castro, 27, reside há três anos na Itália, onde trabalhou com Giorgio Strehler, Heiner Muller e Tadeusz Kantor.