Uma entrevista com Dario Fo

Publicado em: 07/05/2021

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Mauri Paroni

Aos 27 anos, queria voltar ao Brasil. Depois da escola de Arte Dramática e de uma montagem bem sucedida em Milão, estava fadado ao destino de virar “’teatrante” italiano mesmo. Mas não me desligava do Brasil. Para o jornal Folha de São Paulo, por sugestão de seu então diretor de redação Otavio Frias Filho (1957-2018), fui entrevistar Dario Fo, que já conhecia de algumas aulas publicas. Havia quem duvidasse da empreitada. Fo prontamente concedeu a entrevista, em 1989. Tomamos uns oito cafés em seu apartamento no Corso di Porta Romana, centro histórico de Milão. O foco era a sua ida a São Paulo numa mostra promovida pelo governo italiano. Terminada a entrevista, passamos umas duas horas conversando sobre política e teatro, rindo. Franca Rame estava ali, ao seu lado. Arrependi-me de não lhe ter pedido uma entrevista. Estava encantado e distraído por desfrutar de uma intimidade cordialíssima que jamais cria ser possível ao diretor jovem que eu era – não um jornalista. Mesmo assim, sem a cara de pau suficiente para aproveitar o contexto e dar um jeito de entrevistar aquela autora excepcional, comportei-me como tal; gravei as perguntas a Dario em meu gravador cassette e escrevi tudo no meu bloquinho. Nele, redigi e editei cortes. Era pequeno o espaço que tinha e corri para o telex da imprensa estrangeira – uma máquina de escrever fascinante, enorme, com banquinho acoplado, cujo ruído ritmado que agitava a alma. Senti-me importante, datilografei ali mesmo, sem a revisão que, depois, martelou-me o cérebro por semanas. Chegou direto no terminal telex na redação paulistana. Editada e publicada, recebi-a pelo correio três semanas depois. Na época, chegava a Milão somente o Globo e o Estadão, atrasados, sobras do voo intercontinental da Varig, descartadas na agência da Companhia. Poucos brasileiros emigrados tinham tempo e interesse para ler aqueles jornais. Tempos passados. Saudade.

 

Telex Siemens T100, Telex TASA – Telecomunicações Aeronáuticas S/A – Teletipos autoria desconhecida, 1978. Fonte internet.

Tomei gosto em escrever artigos, tipo um diário, muitos dos quais enviei ao jornal, jamais publicados. O mundo teatral milanês e italiano era muito específico para um jornal como a Folha. Mesmo assim, Otávio os lia com prazer e isso foi parte de uma missivistica entre nós que se resolvia em longos e caros telefonemas, somente na memória registrados.

Por duas décadas, foi a linguagem principal da nossa grande amizade, afetiva e intelectualmente traduzida na dedicação comum ao teatro. Costumo trazer muita coisa em aula desse tipo de contato privilegiado.

[à parte, um artigo que nasceu de uma daquelas conversas sobre teatro popular]

Achei a entrevista no arquivo Folha, que gentilmente cede a republicação deste e outras matérias a seguir. Aqui vai a de 1989:

MONTAGEM DE ‘O BARBEIRO DE SEVILHA’ TRAZ DARIO FO A SP

MAURICIO PARONI DE CASTRO
De Milão, especial para a Folha

O dramaturgo italiano Dario Fo, 63, chegou anteontem em São Paulo. Fundador de diversas cooperativas teatrais, o cômico, que agitou o mundo político e artístico da Itália dos anos 60 e 70, será visto pelos brasileiros apenas como encenador da opera “Barbeiro de Sevilha “, de Gioacchino Rossini e Lorenzo da Ponte.

Dario Fo começou a sua carreira com precoces ideias de teatro em cooperativa, recusando íntimos papeis em grandes teatros estáveis, que lhe teriam garantido fama certa. Sua capacidade de satirizar o quotidiano, o carisma de sua mímica alucinada, e sua vocação para a esquerda, não poderiam caber dentro de estruturas oficiais. Mesmo engajando-se profundamente na luta política, criou problemas ao dogmatismo marxista do PCI daqueles anos. Com a mulher, Franca Rame, 59, invadiu, com suas Fábulas, todos os problemas então na ribalta da vida italiana: greves, censura, comunismo, feminismo, presídios, e assim por diante. Em meados dos anos 60, o crítico De Chiara declarou: “se ele não possuísse uma boa dose de livre loucura, seria um pregador moralista. Por sorte sua e nossa, ele prega fazendo palhaçadas”.

Atualmente tende-se a valorizar somente o Dario Fo cômico. Coloca-se a questão se é possível dissociá-lo da política ou do que pode ser político. Foi sobre esse problema de engajamento que Dario Fo falou à Folha.

Folha – Existe um Dario Fo cômico e um Dario Fo político?

Dario Fo – Como sempre, eles simplificaram as coisas. Na verdade, houve um período satírico. Mas a sátira pura não bastava. O momento exigia o concreto, um endereço preciso. Houve, então, uma mudança quanto ao espaço onde fazíamos teatro. Começamos a frequentar outros circuitos, onde existia um público proletário progressista que devia participar. Foram reinventados outros espaços: estádios, ginásios, parques, cineteatros de periferia. Em resumo, os teatros tradicionais não nos permitiam baixar os preços dos ingressos e nem aceitavam o conteúdo dos espetáculos. O nosso público era de operários, camponeses, intelectuais progressistas. Eram eles que solicitavam os temas: problemas do PC, greves, violência política, cultura. Foram dez anos, de 68 até 78, em que escrevi muito, fiz 20 espetáculos. Mas todo aquele movimento se fragmentou graças à ação do terrorismo, que justificou e deu vigor a uma reorganização de tipo tradicional.

Folha – Estamos em pleno período de fragmentação e de restauração política. Você sempre tentou unir o engajamento à pesquisa formal. E agora?

Dario Fo – É preciso prestar ainda mais atenção a esse lodo que esta aí. Engajamento, por exemplo. Os franceses foram às ruas na semana passada para um comício-ironia sobre o problema do aborto e da violência sexual. Eu estou escrevendo sobre a máfia, a máquina, suas implicações com os partidos políticos. Estou escrevendo também sobre a relação privada homem-mulher, que no final das conta é também política.

Folha – Existe um teatro com preponderância de imagens e citações que é filho da nossa atual realidade. 0 que você acha desse teatro?

Dario Fo – Eu assisto, observo, mas não me interessam os personalismos e arbítrios além da conta. Eu não me divirto.

Folha – No Brasil as telenovelas têm muito peso no cotidiano e na política. O que você acha disso?

Dario Fo – São um gênero de folhetim eletrônico que às vezes têm temas corretos, outras são portadoras de um grande moralismo. Os intelectuais as desprezam, mas em alguns casos são positivas. Pelo que se vê na Itália são sempre melhores as novelas brasileiras que as americanas do tipo “Dallas”.

Folha – Por que você acha que faz sucesso no Brasil?

Dario Fo – Creio que o que eu faço toca o quotidiano a partir da fantasia do sarcasmo. Sigo uma lição de Moliére muito antiga: mostro espectros trágicos em chave cômica.

Folha – Você teve professores?

Dario Fo – Eu me criei no palco. É a melhor escola. Sou um autodidata. Procurei tudo. Pude ver o trabalho de grandes atores, suei sangue e copiei muito. Mas existe também a necessidade de uma boa escola. Os dois modos são válidos para aprender.

Folha – Você fez também um Arlequim. O que acha daquele que Giorgio Strehler dirigiu e que vai ao Brasil?

Dario Fo – 0 Arlequim de Strehler tem uma popularidade de ” clown” com gags muito bem estudadas, o meu é mais livre, improvisado.

Folha – Em que chave você encenou este “Barbeiro de Sevilha “?

Dario Fo – Eu tento retomar os elementos originários como Rossini pensou, creio. Hoje o público vai à ópera-bufa e não ri mais, fazem encenações de farsas horrivelmente exteriores. Minha direção leva em conta a origem do jogo cômico. Não se pode esquecer que a ópera bufa era apresentada durante o carnaval, era uma festa.

Folha – Por que você está indo ao Brasil?

Dario Fo – Sempre recebi muitos convites. Estou indo agora com prazer, falam-me muito do Brasil. 0 país está vivendo momentos de tensão importantíssimos. Quero vê-los e vivê-los de perto.

 

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