“Vem pro palco, vem”

Publicado em: 18/06/2013

Na onda das manifestações que tomam conta do Brasil, a seção Ponto desta semana recorda importantes movimentos e autores teatrais que deram início a ações de cunho político-social, surgidas na década de 1950, com o objetivo de conscientizar a população sobre o poder da democracia. Esses movimentos pareciam prever o regime ditatorial que seria instaurado no País, nos subsequentes anos de chumbo, a partir de 1964.
 
Dentre os autores, destacamos Gianfrancesco Guarnieri, com seu clássico “Eles não usam black-tie”, Oduvaldo Vianna Filho e Augusto Boal.
 
Vianinha, como era conhecido, abriu mão da possibilidade de uma carreira em arquitetura e deixou a então badalada FAU do Mackenzie para se dedicar ao Teatro, em uma atitude clara de engajamento político. Juntamente com Gianfrancesco Guarnieri, foi convidado pelo PCB para organizar um grupo de teatro amador. Os dois eram filhos de comunistas de renome e, Vianinha principalmente, além de comunista, também tinha um pai dramaturgo. 
 
Uma das primeiras missões de Vianinha e Guarnieri foi programar as atividades de lazer dos participantes do Festival Internacional da Juventude, que se realizaria em São Paulo, em 1954. 
 
No Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), conseguiram ingressos de graça para as delegações. Nas visitas ao TBC, maravilharam-se com a encenação de “O canto da cotovia”, de Jean Anouilh. Convenceram-se de que a arte teatral era, realmente, um poderoso instrumento de organização e de conscientização.
 
Depois, Vianinha ainda se envolveria na criação do Teatro Paulista dos Estudantes, em 1955, que objetivava, principalmente, a missão política do teatro acima de qualquer coisa. A partir de então, o teatro seria a principal dedicação de Oduvaldo Vianna Filho. O TPE se juntaria ao grupo de Teatro de Arena, emprestando um viés mais político ao grupo que, até então, seguia o modelo do Teatro Brasileiro de Comédia. A presença de jovens engajados, como Vianinha e Guarnieri, se complementaria com a chegada ao grupo do teatrólogo, diretor e dramaturgo Augusto Boal, em 1958. 
 

 
Oduvaldo Vianna Filho, o Vianinha, um dos fundadores do Teatro Paulista dos Estudantes

Vale lembrar que Boal, além de criador do Teatro do Oprimido, também foi o “pai” do Teatro Legislativo, nascido em 1992, durante o processo que culminou com o impeachment que derrubou o então presidente Fernando Collor de Mello.

 
Durante aquele período efervescente de manifestações, Boal foi convencido por alguns dos membros de seu Centro de Teatro do Oprimido a concorrer a uma vaga de vereador na Câmara Municipal do Rio de Janeiro. O diretor foi eleito e, então, deu início a uma nova técnica do Centro de Teatro do Oprimido: o Teatro Legislativo.
 
O Teatro Legislativo, que funcionou durante e após todo o mandato de Boal na Câmara, atuava da seguinte maneira: redes de Núcleos de Teatro do Oprimido eram formadas em diversas partes da cidade, reunindo pessoas que estavam dispostas e expor seus desejos e necessidades dentro daquela comunidade. A partir daí, eram montadas cenas de Teatro-Fórum, coordenadas por integrantes do Teatro do Oprimido. O palco principal das apresentações era a calçada em frente ao prédio da Câmara dos Vereadores, na Cinelândia. As escadarias serviam de arquibancada e uma lona no chão e uma estrutura de fundo delimitavam o espaço cênico.
 
A ideia era a de reproduzir, na rua, o que acontecia ou deveria acontecer no plenário, a partir dos problemas expostos ali pela população, ou melhor, pelos atores. E não é que a empreitada deu supercerto? Por meio dessa iniciativa revolucionária, foram aprovadas 13 Leis Municipais. Do Teatro Legislativo também saiu a proposta que resultou, em 1997, após o final do mandato de Boal, na Primeira Lei Brasileira de Proteção às Testemunhas de Crimes, que inspirou a Lei Federal de Proteção às Testemunhas, a Lei nº 9.807/99.
 
Estimulando o exercício pleno da cidadania, o Teatro Legislativo continua a todo vapor e manda um recado: para colocá-lo em prática, não é preciso realizar uma Sessão Simbólica do Teatro-Fórum. O principal é recolher Projetos de Lei por escrito, debatê-los com o grupo popular, fazer contato com especialistas no tema e assessores legislativos para ver quais deles podem dar encaminhamento aos PL’s. #vempropalcovem!


 

Texto: Esther Chaya Levenstein

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