Uma Hecatombe de Individualidades

Publicado em: 28/03/2013

Com o público acomodado na plateia, o diretor Maurício Paroni de Castro toma a palavra para “dar uma aula”. “Desta vez, vamos fazer mais em forma de confissão pública, em direção ao consciente de vocês”, diz, antes de mexer em alguns elementos do cenário – como retirar as bandeiras de Portugal e Brasil, que estavam cruzadas em frente à mesa.

 

Teve início, assim, o espetáculo “Hecatombe”, do Teatro do Vestido, grupo português que faz residência artística na Sede Roosevelt da SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco. Na noite de ontem (27), o coletivo apresentou, pela segunda e última vez, a montagem que integra a trilogia “Monstro”, cuja proposta é desmontar os mecanismos históricos, políticos, sociais e culturais que fizeram com que Portugal chegasse ao atual momento de crise. 

 

Em cena, Tânia Guerreiro, Joana Craveiro e Gonçalo Alegria dão vida a três personagens de autores clássicos. A primeira é Qualquer Uma, de “Como Você me Quer?”, de Luigi Pirandello. Na peça, ela é uma mulher que vive bêbada na noite, em bailes funks, em uma vida promíscua e vazia. Se dizendo cansada dessa situação, mas sem conseguir abandoná-la, questiona o público: “Alguma vez já sentiu sua vida escapar pelas mãos?”.

 

Logo na sequência chega a cômica Nora, de “Casa de Bonecas”, de Henrik Ibsen. Extremamente orgulhosa, desfila sua pompa com roupas luxuosas, reclamando e desdenhando do marido, Torvald, representado por uma boneca. Endividada até o pescoço, ela faz de tudo para fingir que está tudo bem, mas sua consciência grita: “numa casa construída sob dívidas, respira-se um ar de sufoco”.

 

Joana Craveiro conversa com seu marido (Foto: Arquivo SP Escola de Teatro)

 

Gonçalo Alegria opera o som, utilizando o microfone para apresentar as personagens e interagir com elas. É dele a voz que atormenta as duas mulheres em ligações telefônicas. E é também ele que recita o mais famoso trecho da história do teatro: “Ser ou não ser, eis a questão…”, de “Hamlet”, obra de William Shakespeare. 

 

Permeado por ruídos pontuais, o embate emocional entre as personalidades ganha em tensão conforme o texto avança e faz com que o público estabeleça os limites entre as individualidades reais e as fictícias.

 

Os portugueses voltam à cena na última parte do projeto “Monstro”, o espetáculo “Apocalipse”, encenado na próxima terça e quarta-feira (2 e 3), cuja montagem contou, nas áreas técnicas, com diversos aprendizes da SP Escola de Teatro.

 

 

Serviço

Espetáculo: “Apocalipse”

Direção e dramaturgia: Maurício Paroni de Castro.  Produção: Joana Vilela. Co-criação e interpretação: Gonçalo Alegria, Joana Craveiro, Tânia Guerreiro e Aprendizes da SP Escola de Teatro

Quando: Terça e quarta (dias 2 e 3 de abril), às 21h

Onde: SP Escola de Teatro – Sede Roosevelt

Praça Roosevelt, 210 – Consolação

Tel.: (11) 3775-8600

R$ 10 (aprendizes e formadores da SP Escola de Teatro têm entrada gratuita)

 

 

Texto: Felipe Del

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