Uma experiência pedagógica em Estocolmo

Publicado em: 19/05/2015

Marcio Aquiles (primeiro à esquerda) durante aula na Universidade das Artes de Estocolmo

 

Vou expor neste artigo o princípio pedagógico que adotei durante as três semanas de aulas que ministrei ao lado de Rodolfo García Vázquez na Universidade das Artes de Estocolmo. A proposta inicial envolvia aplicar o modelo de ensino da SP Escola de Teatro no curso de Atuação Avançada para Cinema da instituição sueca. Para tanto, o nosso coordenador de Direção escolheu trabalharmos com o material “amor na sociedade contemporânea”. O operador escolhido para sistematizar e potencializar o trabalho foi a obra “Amor Líquido: Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos”, do sociólogo polonês Zygmunt Bauman.

Decidimos que eu seria o responsável por orientar os alunos no processo de escrita dos roteiro dos curtas-metragens previstos para serem realizados durante o curso. Os filmes seriam a ferramenta necessária para eles praticarem a atuação dentro do campo cinematográfico, objeto do curso em que eles estavam matriculados, mas também para conhecerem o processo como um todo, aprendendo e praticando um pouco de escrita, filmagem e edição.
 
Como preparação para as aulas, decidi ler (em muitos casos reler) algumas obras consideradas bíblias para quem tem interesse em escrever roteiros, como os livros de Syd Field, Robert Mckee, Laura Schellhardt, Paul Kooperman e Christopher Vogler, entre outros. Cheguei à constatação que os procedimentos, dicas e normas sugeridas tinham um alcance limitado, que poderiam ser interessante principalmente para roteiros mais afeitos ao estilo hollywoodiano* tradicional, com narrativa realista, momentos de suspense, reviravoltas em determinados pontos da história etc., mas mostravam-se ineficazes para aqueles que quisessem fazer um filme com viés surrealista ou abstrato, por exemplo.

De qualquer modo, era necessário trabalhar minimamente com alguns daqueles autores, já que fazem parte do cânone bibliográfico contemporâneo sobre o tema. E o tempo de aulas teóricas na universidade era curto, haja vista que os alunos teriam também que escrever os roteiros de seus curtas-metragens, filmá-los, editá-los etc. Assim, decidi sintetizar aquela bibliografia dentro de uma perspectiva aristotélica. O estudo daqueles livros me levou à assustadora conclusão de que as estratégias de escrita de roteiro que eles sugeriam ainda mimetizavam procedimentos que envolviam conceitos-chaves da Poética de Aristóteles, como a anagnorisis (reconhecimento), a peripeteia (reviravolta) e a  hamartia (erro do personagem). Ou seja, melhor beber direto da fonte.
 
Depois das explicações sobre a Poética, e de como aqueles procedimentos previstos para as tragédias poderiam ser extrapolados para qualquer narrativa, decidi trabalhar um pouco com teoria da recepção. Por meio de um exemplo literário, ilustrei sobre como uma mesma história poderia ser compreendida pelos termos da crítica psicanalítica, marxista, estruturalista e desconstrutivista, dentre outras “escolas” da teoria.

Na última etapa do processo, os alunos, divididos em três grupos, mostraram o argumento de seus filmes e suas intenções estéticas. Seguindo o modelo pedagógico da SP Escola de Teatro, eu apontei os pontos fortes e os pontos que poderiam ser melhorados. Os alunos enviaram a versão final do roteiro, e depois dos últimos comentários iniciaram as filmagens.

Os curtas resultantes dessa experiência ultrapassaram as expectativas que eu e Rodolfo tínhamos quando iniciamos as aulas. Em seu quarto ano, a parceria entre SP Escola de Teatro e a Universidade das Artes de Estocolmo segue a todo o vapor.
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* Obviamente não estou generalizando, nem querendo dizer que todos os filmes hollywoodianos seguem um modelo parecido ou convencional.

Texto: Marcio Aquiles

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