Um Desejo de Falar a Seu Tempo?

Publicado em: 10/07/2012

Por Lucienne Guedes


Especial para o portal da SP Escola de Teatro

No texto a seguir, Lucienne Guedes, dramaturga, diretora e atriz, expõe detalhes dos experimentos realizados pelos oito grupos do Módulo Verde, no sábado (7), na sede Brás da Instituição, tendo como base a obra “Bella Ciao”, de Luís Alberto de Abreu.
 
 
O trabalho de criação dos aprendizes do Módulo Verde se iniciou no contato com a obra “Bella Ciao”, do dramaturgo brasileiro Luís Alberto de Abreu, que teve sua estreia em 1982. O cartaz original da peça trazia uma foto de um casal de imigrantes italianos, com rostos fortes e muito marcados pelas linhas de expressão. No texto do programa da peça, Abreu escreveu: 
 
“O processo de trabalho de ‘Bella Ciao’ iniciou-se no final de 1980, quando a classe trabalhadora, depois de anos de silêncio forçado, solidificava sua posição dentro do espaço político nacional. E sentimos a necessidade de tentar aproximar a nossa arte da realidade que palpitava nas ruas.”]
 
Experimento do núcleo 4 (Foto: Arquivo SP Escola de Teatro)
 
A SP Escola de Teatro, ao escolher partir dessa obra para trabalhar com seus aprendizes do Módulo Verde, disponibilizou um material teatral, que ofereceu a possibilidade de olhar para o entorno de suas instalações, no bairro do Brás. Como abordado em “Bella Ciao”, o Brás enfrenta o problema das condições do trabalho e da imigração. Será que os aprendizes puderam também perguntar se há semelhança entre os anos 80 e os dias de hoje? É possível reposicionar o que Abreu chamou de tentativa de aproximação da arte com o que “palpita” nas ruas? O que moveu o trabalho de cada grupo, em contato com a peça de Abreu e em direção ao bairro?
 
Nos oito experimentos, surgiu o que podemos chamar de esferas de confronto, de conflito. O grupo 1 abordou a condição precária de trabalho e cidadania versus o pensamento de um empregador explorador, além de esboçar tentativas nebulosas de reação popular e a situação de risco dos imigrantes bolivianos ilegais. O grupo 2 trouxe ainda a questão moral e religiosa na classe pobre, em relação à delicada questão da homossexualidade. 
 
Já o grupo 3 escolheu o problema do despejo e do desmanche da família na cidade. O grupo 4 tratou do enfrentamento da mulher e mãe imigrante versus a força de um empregador explorador, sem ética. O grupo 6 resolveu intermediar, pela linguagem televisiva, as possibilidades de trabalho da classe pobre e iludida. Os grupos 7 e 8 concentraram suas cenas na relação conflituosa entre camelôs e vendedores ilegais, sendo que o sétimo problematizou isso em contraponto com a memória narrativa de um homem que viveu no bairro no passado, enquanto o último escolheu trazer ao confronto a questão do contrabando. 
 
Todos os grupos, portanto, passaram pelo mesmo universo, embora com diferentes focos de interesse, que resultaram também em pesquisas estéticas distintas, embora todos tenham usado a sala fechada como espaço de encontro da cena com seu público.
 
 

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