Terceiro Experimento do módulo Verde por Kiko Marques

Publicado em: 10/07/2013

por Kiko Marques*, especial para o portal da SP Escola de Teatro

 

Assim que recebi o convite para ver e comentar os experimentos do módulo Verde da SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco, do Território Cultural de sábado (6), com o intuito de escrever, achei que deveria recusar. A tarefa parecia-me demais com o exercício da crítica.  Não tenho nada contra os críticos. Apenas não sou um. Penso que um crítico deve, acima de tudo, ter talento para traduzir e esmiuçar em palavras aquilo que o artista não seria capaz de fazer sob outra forma que não sua obra. O crítico é o poeta da análise.

Sou um homem do palco. Pus-me a pensar de que forma poderia contribuir, acrescentar algo à análise feita pelos professores e alunos nos debates após a apresentação das cenas. Lembrei-me, então de quando também era um aprendiz e de antes disso, quando nem mesmo pensava em fazer do teatro o meu ofício. Fui um espectador compulsivo nessa época. Comecei a fazer teatro por isso. Desde menino, assistia a tudo o que se passava nos palcos da cidade. A lembrança dessa época me fez entender qual poderia ser minha contribuição. A opinião de alguém do ofício, mas que não está diretamente ligado a esse processo específico. Como um espectador comum, não sabe como se deu o processo, nem acompanhou a sua evolução. Apenas sentou ali, atento ao que se passava à sua frente durante aqueles breves minutos de cada cena. E que para essa tarefa tentou ao máximo conservar o olhar do menino que assiste a tudo como se fosse pela primeira vez.

 

Núcleo 3 do Experimento (Foto: André Stefano)

 

Olhando com esses olhos, senti–me como num parque de diversões, lendo no roteiro para qual brinquedo deveria ir. Todos os trabalhos me causaram algum interesse por motivos específicos. Um aspecto comum a todos os exercícios vem do fato de todas as diversas equipes que ajudam a compor a totalidade da obra cênica serem avaliadas ao mesmo tempo. É um ponto que considero muito positivo na metodologia da escola. É claro que, em algumas horas, havia uma intromissão excessiva de componentes, como luz e som. Como se estes quisessem testar seus limites no fato cênico. Esse, no entanto, é o momento justamente de testar esses limites.

Foi muito interessante ver como as áreas específicas resolveram problemas que as cenas foram apresentando. E como isso, em determinados momentos, fazia com que as cenas explodissem e em outros apenas se mostrassem experimentos válidos, que não chegavam a fazer com que o teatro se deflagrasse. A escolha do texto do Lipovetski, aliado ao tema da família nos textos do Nicky Silver para deflagrar o estudo sobre a questão personagem/conflito, pareceu-me muito bem aproveitada por alguns grupos. Esse novo conceito de família pós-moralismo que Lipovetski vê nos nossos dias, onde a realização pessoal se sobrepõe ao interesse comum é, já em si, um mote infindável de situações dramáticas em que essa relação conflito/personagem pode ser esmiuçada, a ponto de nos perguntarmos o quanto o conflito não é em si o personagem.

Fazendo o caminho inverso ao de pensar o personagem como algo pré-existente e que é posto em determinada situação de conflito, podemos pensá-lo como uma invenção, criado a partir de uma necessidade. É essa necessidade que nos levaria a fazer o inventário de fatores que  o levaram a, nesse momento, estar a precisar de algo que um outro se recusa a dar, ou a acusá-lo dessa falta. Acho que alguns grupos foram a fundo na investigação dessa equação conflito/personagem, criando cenas muito interessantes. Alguns deles, porém, tomaram o caminho, provavelmente, sem o perceber de se fechar em ideias por demais rebuscadas, tornando a obra hermética ou por demais conceitual, às vezes com planos de entendimento que só pude perceber no debate, com a explicação do grupo sobre suas intenções.

Nesses momentos, lembrava-me um pouco de Grotowski. Sempre que o releio, saio com a certeza de que, para ele, o teatro é sempre maior que a teoria e constantemente a contradiz, apesar de ele ter dedicado sua vida ao estudo da arte do ator. Interessante como ele destrói, por exemplo o aprendizado vocal que se praticava nas escolas do seu tempo, onde o aluno era levado a conscientizar certos processos que, para serem orgânicos, precisariam se manter não conscientes. Sem isso, nunca se poderia chegar ao que ele chamava de  atuação orgânica. Parece um conceito subjetivo, mas que me encanta sobremaneira. Em alguns momentos, senti falta dessa organicidade. Em muitos casos, e isso também fiquei sabendo nos debates, por uma real falta de tempo de ensaio e interação entre as partes. Em alguns grupos, porém, tudo parecia colaborar para um resultado coeso e potente enquanto expressão cênica.

 

Núcleo 6 (Foto: André Stefano)

Uso o experimento do N1 como um exemplo disso justamente por não ser realista. Ele tirou o espectador do vício da lógica, mas o levou a um outro lugar através da realização unificada, plena e orgânica de uma cena. Isso se verificou mais claramente nas atuações e na relação dos atores com as marcas, a luz, com os panos… Essa inter-relação aconteceu em outros experimentos, como no do N2, que já nos levou por um caminho realista. Nesse grupo, talvez pela opção da dramaturgia de contar uma história, os atores, a direção e todas as áreas envolvidas sabiam claramente para onde queriam que o público fosse. Tudo se combinava de uma forma muito equilibrada e, ao mesmo tempo, ousada e bela. Nesse experimento, ficou muito presente o jogo entre os atores e as personagens eram interessantes em seus conflitos. Elas nos seduziam sem serem monocromáticas. É interessante analisar o eixo personagem/conflito por essa cena, uma vez que nela isso está claramente trabalhado, porém, de forma movediça e traiçoeira, ao espectador ávido de certezas. 

 

De um modo geral, chamou-me a atenção as diferentes perspectivas por meio das quais participamos das cenas como espectadores. É realmente reconfortante perceber que a Escola e os aprendizes tratam o teatro de forma dinâmica, investigando não só a cena, mas a forma como o espectador se relaciona com ela, ora colocando em xeque, ora investigando o que há de bom na perspectiva italiana. 

 

Outro aspecto que me chamou muito a atenção em vários trabalhos foi o apuro e a ousadia estética. Muito interessantes foram os três experimentos que vi na unidade da Praça Roosevelt. Os três tinham uma inquietação estética. No experimento do N4, foi muito curioso olhar aquela casa asséptica por aquele ângulo. Como se o telhado tivesse sido arrancado e no lugar dele estivéssemos nós, como curiosos voyeres. No N8, a rigidez de desenho acabou por conferir à cena um caráter curiosamente tragicômico. As atuações contribuíram muito para isso. No experimento do N3, a entrada no espaço com o cenário foi muito impactante, coisa que se perdeu um pouco quando os atores começaram a utilizá-lo. Tem-se a impressão, ao longo desse experimento, que o cenário se tornou maior que tudo. Com relação aos outros experimentos relacionados à comédia, como o N5 e N7, ressenti-me um pouco de uma falta de precisão.

Em alguns casos, as cenas me pareceram pouco ensaiadas, em outros, um pouco difusas. No caso do N7, parecia que o grupo tinha à sua frente uma ideia muito clara do que queria dizer ao espectador, e isso acabava por se colocar entre eles. O espectador, a meu ver, só tem a ganhar quando se estabelece uma relacão menos vertical. Como Chaplin, que sabia o que queria com seus filmes, mas na hora de filmá-los ficava obcecado com uma piada ou uma resolução de cena, a ponto de refazê-la até a completa exaustão da equipe. Senti falta, no experimento do N5, dessa obsessão pelo simples. Pela comunicação plena com o espectador. Nesses dois grupos, víamos os talentos em algumas atuações, em algumas viradas dramatúrgicas ou movimentos de luz.. Mas isso aparecia de forma isolada, em momentos específicos. Em nenhum momento, porém, em todas as cenas que vi deixei de perceber esses inúmeros instantes de criação. Infelizmente, acabei por não assistir a um dos experimentos, o do N6,  por um erro de utiização do roteiro, coisa que me entristeceu. Saí do parque com a sensação de ter perdido um brinquedo. 

 

Gostaria de me ater mais a cada grupo, esmiuçando a série de impressões que fui tendo ao longo de cada cena, mas me tornaria extenso e cairia, definitivamente, no campo da crítica, onde, certamente, criaria uma gama de erros de comunicação. Coloco-me, então à disposição dos grupos que queiram saber alguma coisa mais específica ou que não tenham entendido alguns dos comentário que fiz.

 

Termino agradecendo o convite feito e dando os parabéns a todos os profissionais envolvidos e a todos os aprendizes. 

 

* Kiko Marques é ator e escreve a convite da Coordenação Pedagógica da SP Escola de Teatro

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